Performancing Metrics

Sonho em mim
BLOGGER TEMPLATES AND TWITTER BACKGROUNDS »

sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009

Os sonhos também se abatem

(...)

Uma névoa cobria o grandioso edifício do hospital. Uma nébula cor de chumbo que irritava os olhos. O calor tornava o ar rarefeito e os pulmões tinham crostas sólidas que tornavam a respiração um inédito trabalho consciente. Era meio-dia e o estio não havia maneira de abandonar a estação do tempo.
Meio-dia e um minuto. Desde madrugada que tinha travado uma contenda contra o tempo. Furtado abandona o hospital e dirige-se para a estação do metro. Esperava como uma raiz apodrecida pelo comboio. Uma menina sorria. Não era uma qualquer. Tinha a pele nívea, de uma nórdica, mas suavemente dourada pelo sol tropical. Olhos vítreos de um azul-marinho, encimados por supercílios traçados a pincel. Maçãs salientes e róseas. Lábios de Vénus. E um narizinho que não saberia definir, mas que possivelmente associou aos das deusas celtas, romanas, germânicas e escandinavas. Da fronte ampla e lisa, emergia uma cabeleira azeviche e sedosa, parcialmente presa na nuca. Ela olhava na sua direcção, para o vácuo e sorria. O médico, perplexo, tremia. Ignorava o motivo, mas era fácil supor. Nunca uma menina lhe tinha sorrido daquele modo. Nem em sonhos. Nenhuma, jamais o iria certamente fitar com tanta meiguice e carinho quanto aquela flor de poesia.
Acordou a meio da noite com suores frios. Depois da preguiça, espreguiça.
Esticou os braços e tremeu como aqueles que querem não tremer. Gesticulou e fez uma careta alongada ao ritmo de uma breve flatulência. De seguida desfez um Xanax num copo que continha uma réstia de cerveja. Encostou-se na almofada e fechou os olhos. Tudo era negro como breu. Uma espécie de contentamento iluminou o nirvana de ascese moderna.
Todas as imagens eram ficção. Esperava que aquele quadro negro permanecesse eternamente. Pelo menos até ao amanhecer. Assim, não pensaria sequer a dormir. Arrebatado, cego, estático. Não existem introduções para a epifania.
Uma visão não tem prólogo nem epílogo. Simplesmente acontece.
Após algumas horas acordou de novo sem dar conta de si. Deambulou pelas diversas divisões. Nenhuma delas o cativou. Transitava sem posição, apenas e só perspectiva.
Passou pela cozinha. Bebeu água de forma lenta como que saboreando cada trago, cada gesto.
Retornou ao quarto. Pensou um pouco no sonho e não deu muita importância, afinal já estava habituado aqueles sonhos nos quais “ela” sempre agia assim. Simplesmente sorria para o nada.
Voltou para a cama. A imagem da menina deusa girou-lhe de novo nos olhos. Sabia que tinha sonhado. Por vezes um, noutras, vários e em muitas das noites, nenhum.
Fechamos os olhos e a alma dorme noutro lugar. Sonhar é bom. Sonhar é viver, amar, sentir. Mas, os sonhos também se abatem.
(...)
In: A filha que nunca tive

segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009

A Nobreza na despedida


Esta noite a insónia, o desespero e a desilusão não me largaram um segundo.
A necessidade de respirar a vida ergueu-me do leito bem cedo.
O sol envergonhado conduziu-me até à beira mar.
Há dias assim, em que se pesca e repesca no fundo do baú, na esperança de encontrar qualquer coisa. Não precisa ser valiosa, nem imponente, nem dourada, basta que seja uma qualquer coisa.
Fiz uma retrospectiva da minha vida. Pensei muito. A dor inundou-me. A desilusão agarrou-me com os seus tenazes braços e não me largou.
Vou morrer virgem de tantas coisas, de tantos sentimentos e sensações que nunca provei, que não sei como são. Julgo que tirando a minha mãe ninguém me embalou. É assim, sei que irei morrer, sem provar o sabor da acalmia da mente, da alma, o sabor do verdadeiro amor, sem represálias, sem tiranias, de alguém que se intitula de perfeccionista e única.
Mas que se desengane, porque não o é, não o foi nem será. Que pratica o que condena no outro. Que magoa da mesma forma que todo o ser. Que toma por vezes atitudes certas e as posturas erradas como todos.
Pensei na minha mãe, doente. Meditei no meu pai igualmente enfermo. Para quê tanto ódio se amanhã poderei já não fazer parte dos que me amam ou dos que me desiludem.
Assaltou-me a ideia do amor que tanta gente apregoa sem o praticar.
Se pensarmos na vida, ela é tão curta, para quê ferirmos o coração? Para que nos serve destroçarmos a alma de alguém que dizemos amar?
Será que vale a pena? Seremos eternos?
Afinal vingança é sinónimo de amor?
Se o destino existe mesmo, ele que me aniquile e me faça renascer noutra vida, e essa outra que virá um dia que me ofereça a paz de espírito, sem assombros de fantasmas da infância, sem o peso de todos as responsabilidades e principalmente sem esta lucidez que, como um espelho gigante e multifacetado, me mostra clara e nitidamente os meus erros, omissões e faltas. Tenho saudades do que não conheço, mas que revejo na vida dos outros. Afinal errar é humano… e não é apenas um que falha…
Tenho pena desta minha existência, desta passagem pela vida, tão imperfeita. irónico é que, desde que me lembro de ser gente, sonhei com esse colo, esse abraço protector, esse escudo contra os desgostos ridículos e as amarguras de lágrimas de raiva e sangue. Sonhei-o sempre. Nada de especial, nada de fantástico. Apenas alguém capaz de me amar como sou, que saiba quem sou. Que me ouse conhecer para além do óbvio e de me cuidar, como um livro antigo ou uma peça sem outro valor senão o da saudade.
Se é o fim, que seja, mas que seja com honestidade, com a nobreza que ambos merecemos.


7-12-2009

quinta-feira, 3 de Dezembro de 2009

Mulher! Sei que sou a última pétala da tua flor...


Mulher! És Febe deusa da lua, diva de mistérios e segredos.
Mulher bela com os seios nus, voando pelo céu e levando numa das mãos um cântaro de prata.
Anseio pelo dia que possa contigo voar pelo firmamento. Beijar teus lábios entre o brilho da lua histérica repleta de fascinação, que risca o céu, desvirginando as madrugadas.
Mulher! Nunca percebi muito bem o porquê dos teus números ímpares, se o teu nome é par.
Tudo em ti é impar. Único e indivisível.
De duas belas e sublimes flores que te entreguei escolheste apenas uma.
Um Malmequer. Começaste de forma ronceira o jogo cândido de o desfolhar na minha frente. Mal me quer. Bem me quer. Mal me quer.
Eu sorvia cada uma das tuas palavras tornadas pétalas e permanecia expectante pelo teu desfecho.
Aliás o meu desfecho em ti. Mas tu não me permitiste entender.
Mal me quer foi, certamente, a última das pétalas que arrancaste.
Eu fui, sem dúvida, a última pétala que arrebataste.


2008

domingo, 29 de Novembro de 2009

“…uns tocam-nos o corpo sem nunca nos terem tocado a alma... e outros tocam-nos a alma sem nunca nos terem tocado o corpo..."

Neste lugar, as árvores são objectos de Van Gogh.
Fico longos momentos ao sol, para as ver retorcer, bater, suplicarem e chorarem sob os ataques de vento.
Levantei-me cedo e tentei encontrar Igor. Nem a sua sombra.
Agora só um café. Sem a cafeína matinal sentia-me um tronco inanimado, sem vontade própria, sem reacção.
Fui a pé. Sem pressas e tentando encarnar na minha mente a percepção do malogrado pintor.
Tento-o muitas vezes. Quando o consigo, vejo o mundo a cores.
Toda a gama dos azuis. Azul lavanda do céu, azul-marinho do mar e o azul mais deleitoso do horizonte.
Os verdes. Prateado das oliveiras, pouco mais escuro, como o das videiras, mais escuro ainda das moitas de mato.
Os brancos, reflectidos em cada casa da povoação, tanto à sombra como ao sol.
A gama dos ocres, o avermelhado dos telhados, ocre beige da igreja, ocre quase castanho de um pedaço de terra a meus pés.
Mas, curiosamente tenho medo das telas e até dos espelhos. Olho para as portas com desconfiança, julgando-as capazes de se fecharem brutalmente atrás de mim para não mais se abrirem.
É urgente que eu vá até à povoação e ao café, para me libertar desta angústia. Soltar-me do lado escuro da lua.
É necessário que eu desça de onde estou, correr apesar do vento que de forma matreira me tenta travar, que se enfurece de me deixar passar.
Recordo-me que no Verão passado Amélia estava junto à porta do café com Sofia, a mulher do meu amigo Filipe. Aliás foi através dele que ficara a conhecer como a palma das minhas mãos a vila.
Eu apaixonado pela mulher de Filipe como um garoto. Mas, impossível encenar com ela o jogo, cem vezes repetido da sedução.
Paralisado pela sua beleza, pelo seu humor e segurança. Eu pensava que as coisas por vezes são assim. Sonhar pelo menos uma vez com amor, em vez de o fazer. Entender o que uma vez li algures; “…uns tocam-nos o corpo sem nunca nos terem tocado a alma... e outros tocam-nos a alma sem nunca nos terem tocado o corpo..."


In: O lado escuro da lua (Não editado)

terça-feira, 24 de Novembro de 2009

Teatro da vida

Reconheço que sempre estive sentado na margem errada do rio, na beira desacertada da vida.
Naquele lado cinzento que pronuncia tempestades de ilusão.
Não há vontade de partir.
Não há vontade de ficar.
Vou fazendo horas. Metade da vida é uma perdulária expectativa, tonta, ansiosa e inútil.
Tal como um espectro que se senta numa gare de caminho-de-ferro, à espera de um comboio que não se sabe quando passará e qual o seu destino. Certeza, apenas a visão trémula dos carris que parecem fundir-se num só.
Certeza absoluta, apenas o local de espera e às vezes a própria espera.
Vê o que temos feito de nós… Essencialmente, não temos amado. Não aceitamos o que não entendemos porque não queremos. Com que fim?
Temos amontoado a alma de coisas, coisas e coisas, mas não nos temos um ao outro. Que objectivo?
Apenas vamos construído catedrais, e ficando do lado de fora. Talvez, porque as catedrais que nós mesmos construímos, podem vir a ser armadilhas. Ultimamente, não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer a sua cércea de ódio, de ciúme e de contradições.
Temos disfarçado com o pequeno medo, o medo maior, e por isso nunca falamos o que realmente importa.
Temos chamado de fraqueza a nossa candura.
Eu sei que o meu mundo nunca foi azul celestial, nem a minha vida foi colorida como o arco-íris que ressuscita nas alturas.
No alto e por breves momentos, consigo ver-te, relembro o beijo de ardor, o abraço da alma, e todos os momentos que envolveram dois seres sedentos de amor e carinho.
Disse a mim mesmo que não chorava mais, mas não.
A minha dor está lá e não consigo dilui-la doutro jeito. Começo a chorar. No coração está presente a ferida de uma criança crescida embebida num homem imberbe... tenho medo!
Estarei sempre na espera de um toque suave no meu ombro, um abraço apertado e um beijo intenso. Lembras-te? Eu recordo aquele toque dos teus dedos na minha mão sedenta do teu amor. Sinto-os a percorrem-me os sulcos da espinha até chegar ao meu cérebro, sinto o meu corpo arrepiado transpirando de prazer. Sinto-te. O teu prazer também se intensifica e aqui estamos nós mais uma vez no enorme palco vazio de endereços, de público, sem a presença de um encenador que nos possa conduzir ao perfeito diálogo.
Sim, sei que já fomos assaltados várias vezes pelas pancadas de Moliére, mas nenhum de nós quis o papel principal.
Mas, ambos sabemos que este drama estará em cena até ao fim dos nossos dias.
Relembro o derradeiro diálogo da peça, uma encenação da nossa tríade da vida.
“Como eu te quero.” Digo em sussurro.
A lua ilumina o teu rosto, os teus olhos negros brilham de novo.
“Como eu esperei por este dia!” Exclamas.
O meu sorriso volta.
“Estou aqui contigo.”
“Tu estás aqui comigo?”
“Sim…”
“Então, derrama o teu sabor em mim.”
“Porquê?”
“Quero deslizar sobre o teu corpo delirante de paixão, como uma patinadora de dança num lago gelado!”

Novembro/2009

segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

Metáfora da liberdade



O tempo. Simultaneamente, inimigo e aliado.
Enquanto nos sorve a vida pelas beiradas, repara os estragos que ela causou no nosso âmago. Com o passar do tempo percebemos que um simples sorriso faz a diferença. Um simples abraço transforma segundos em longos minutos. Que o som de uma guitarra nos remete a outro mundo. Que estar só requer um equilíbrio emocional. Entendemos o real valor das pessoas, que todas são diferentes. Criamos novas expectativas. Queremos andar sozinhos, mas não queremos estar sós. Essencialmente com o passar do tempo aprendemos que o tempo passou mas não em vão. E, para mim, o tempo tinha sido um adversário difícil de combater. Se tinha.
Lembro-me muito bem de como era ser criança. O tempo era infinito e não havia morte. Nem sequer nela pensávamos. Passávamos-lhe sempre ao lado com a nossa inocência e vivacidade. “Só os velhos morrem.”
O mundo era uma imensidão. O relvado da escola primária parecia uma imensa pradaria americana. Os espaços pareciam tão imensos que nos perdíamos na nossa casa.
Os jogadores de futebol pareciam uns homens feitos, velhos. As miúdas dos concursos moldavam os fatos de banho a preto e branco como mulheres sensuais e com ar escanado.
As férias grandes eram mesmo grandes e no fim das mesmas tínhamos dado um “pulo” imenso, pelo menos era o que os adultos nos diziam. As emoções ainda eram grandes demais para nós, por isso submergiam-nos. A nossa casa era um claustro, de tecto alto e inatingível.
Tudo era possível. Os adultos tinham todas as respostas, por isso a nossa própria ignorância não nos afligia muito. Pensar? Apenas nas participativas corridas de caricas que tinham lugar no lancil dos passeios, ou nos jogos de hóquei em sapatilhas com uma bola de matraquilhos que com o “estique” lançávamos contra as sarjetas.
Deus era uma certeza. Estava em todo o lado. Olhava por nós.
Mas o tempo não perdoa e quando acordamos vimos por cima do ombro, o passado tão perto, que por vezes o queremos agarrar.
Como uma metáfora da liberdade, atirar-me apanhar uma gaivota e voar por aí sobre os mares, sem rumo, esquecer quem sou e o tempo que não tenho, esquecer as lágrimas perdidas e no cimo da vida pular de contentamento, esquecer os pensamentos ensanguentados e ser eu próprio assim como nunca fui nas asas de uma gaivota.
Queria eu vencer as batalhas todas de seguida, numa rajada inspirar o amor que sinto não existir no coração dos outros e como se eu fosse genuíno, mais puro do que as águas cristalinas como as que jorram de escusas cascatas, ver reflectidos em mim os sonhos deles sem pontas de ódio ou de ruptura... só e apenas assim ser nas asas de uma gaivota.
Cala-te boca! Cala lá todas estas palavras porque hoje a loucura é muita e a febre de me sentir vence, porque hoje a vontade de ir me surpreende. Tomara eu ser Fernão Capelo e voaria sempre ávido de liberdade desafiando as regras impostas por gente que se julga dona do mundo e alertando-os a abrir os olhos para a liberdade que só o conhecimento pode trazer.
Entretanto, assim como Fernão Capelo Gaivota, acredito que somos ideias perfeitas e ilimitadas de liberdade, porque o perfeito vem da busca infinita pelo melhor.
"Para as pessoas que sabem que a vida é algo mais do que aquilo que nossos olhos vêem.”



In "A filha que nunca tive"

sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Fragmentos


Há quanto tempo a cadeira ficou vazia? Não sei, mas o teu lugar permanece por ocupar!
Lembro-me com saudade daqueles caíres de tarde em que com o olhar de anjo agreste me inquirias o que estava a ler.
Se eu pudesse ter prendido esse olhar ao meu, certamente a cadeira continuaria ocupada, a mesa de madeira estaria ainda decorada pelo teu cabelo encaracolado de negro.
Cinquenta anos nos ombros e ainda tenho receio de decidir. Irei necessitar de mais outro meio século, até eu embarcar na derradeira carruagem e hesitarei sempre.
Eu andava numa de literatura russa. Manias dos anos setenta. Acordava com a noite ainda a descansar no seu leito ficcional de etéreas reminiscências.
Na ligeireza da velocidade da luz engolia metade de uma banana, bebia um copo de leite e num som abafado bocejava deixando sair o aperto da saudade sentida durante a noite.
As portas da biblioteca escancaravam-se às nove da manhã e não queria perder a cadeira habitual, o odor, o ritual de sempre.
Sentado na mesa de madeira transversal à estante, sentia-me o monarca dos livros. A leitura sempre cativante fazia-me perder o mundo exterior, trocando-o pela vida cravada nas folhas de papel dos clássicos.
Portanto, deixei-me desvanecer dos propósitos sociais da vida, e unha com carne percorria a lombada poeirenta dos livros expostos à espera que os avivassem.
Comia um pedaço de pão, nunca desviando uma nesga a atenção das páginas pálidas de tão amarelas.
No dia seguinte o ciclo recomeçava. Um dia ela apareceu escondida debaixo dos óculos de massa pretos. Acariciava os livros com mãos delicadas, roçava-as nas capas dos romances.
Levantava-se a meu lado, bocejava com os braços em arco esticava a coluna, arregalava os olhos para mim, como se eu fosse inverosímil, um invento novo, ou o personagem de uma vida refundida.
Passaram alguns dias e a formalidade mantinha-se.
Não me precipitei. Um dia, ao fechar o último livro tomei-a nos braços como impressa e editada para mim.
Acariciei-lhe os lábios, a face e a minha boca tocou a sua com a suavidade estonteante do secretismo.
Afinal de contas, apenas tínhamos, Dostoiesvski, Tolstói, e o resto dos sábios como testemunhas.
Presentemente, as provas são os espectros do meu passado.
Agosto/2007

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Ensaio sobre o suicídio

«Depois, também sofri muito de amor e o sofrimento por amor é um sofrimento físico. Daniel falava-me de um dos seus pacientes adolescentes que tinha uma depressão muito grande e o rapaz dizia-lhe: “Olhe, gostaria de ter danificado um órgão para que me doesse só esse órgão, porque com a depressão dói tudo.” É assim o sofrimento por amor, dói tudo. É horrível. Esse foi um conhecimento da dor muito, muito grande».

[Conversas de António Lobo Antunes - Maria Luisa Blanco]


Existem tantas pontes, que por vezes fico parado a olhar para cada uma delas de olhos arregalados, às diversas possibilidades, e fico errante a pensar em cada uma delas. Fundamental é que nos chamem de longe para um, ou para o outro lado, alertando-nos para o labirinto inventado. O pior de tudo é que ninguém me evocou.
Não sei qual será a decisão que Ele irá ter comigo. Eventualmente não me permitirá pegar de novo na caixa rosa, ou poderá trocar a cor da caixa enganando-me, tal como os outros o fazem, e tal como eu me tenho enganado a mim próprio.






A minha vida está estraçalhada como as nuvens baixas que são empurradas pelos ventos fortes do inverno. Não é possível ainda enxergar ao longe, mas creio que não há muito que fazer, a não ser seguir em frente.
O que gostava era poder avançar no trilho da vida com uma das mãos protegendo os olhos, e a outra, agarrada aos amigos.
Até está um dia bonito: chuva fina, nuvens, ar de Outono e um passarinho que implica com alguma coisa invisível ali adiante do fio de alta tensão.
A minha mente vagueia freneticamente pelos meandros sujos e estreitos corredores da depressão, já há algum tempo.
A noite serve de albergue à minha pobre alma. No escuro vejo a realidade. Na negrura da noite reconheço que tudo findou.
Fui feliz, fui Homem, fui amado, amei e amo alguém que ainda não me conhece. Alguém que me confunde, inebriada por embustes da destruição.
Queria ter conseguido explicar-te por gestos virtuosos que não são apenas só os ratos que vagueiam nos túneis escuros, onde o cheiro nauseabundo mostra a decadência que somos.
A saudade inunda-me de dor. Porque mudou, o que mudou?
Quem te fez alterar a doçura do olhar e trocá-la pelo azedume do confronto.
Porque me abates por constrangimento de uma inquisição de uma máscara do degredo.
Sinto-me esgotado, nauseado, fragilizado e farto desta azáfama que acompanha a realidade dos dias, sempre repetitivos, exaustivamente vazios.
Estou exausto pela briga de palavras sem fim, que destruíram o que de belo existia.
Agarras-te aos meus parcos cabelos e segues viagem comigo?
Aqui na terra nada tem sentido!
A única solidariedade que se recebe dos outros é ignorância e o desprezo. E a vida é tão curta e célere. Porquê tanto amor desfeito em mágoa?
Quem sabe se encontraríamos a felicidade, o tal amor que apregoas, que escreves e que revelas com tanto enleio.
Mas, apenas as moscas que me bebem as lágrimas me fazem sentir que ainda tenho uma réstia de vida.
A embalagem era extremamente apelativa. Não sei se era a cor rosada que emanava e me feria os olhos esbugalhados por mais uma noite de insónia, ou se o rótulo meio desfeito onde apenas sobressaia umas letras desfocadas onde se conseguia ler, “Manter fora do alcance de crianças”. Estava ali à minha disposição; em cima da mesinha de cabeceira. Era apenas uma caixinha que ela usava para ter à mão os comprimidos que a faziam dormir. Nunca liguei qualquer importância ao valor daquela caixinha e, no entanto, ela continha o passaporte para uma viagem sem retorno, apenas de ida.
Irei levar algumas rosas, alecrim, para que o seu perfume e o sentido da Primavera perdurem.
É lá que me quero refugiar.
Nunca tinha pensado nisso, excepto aquela noite. Uma noite em que acabara de chegar de mais um dia de trabalhos forçados. Comi uma maça para poder ingerir um bom pedaço de álcool para me aquecer a alma tão fria e tão dormente que já nem a sentia. E eu que nem prezo álcool.
Também, para que queria eu uma alma? Que é que ela me dá ou me faz?
Julgo que é daqueles dias, em que não devia ter nascido!
A caixinha rosa continuava ali. Quantos comprimidos teria ela deixado?
A minha mão direita estendeu-se tremulamente para aquela caixinha tão apelativa e consoladora pelo imaginário que já me estava a provocar.
Não custaria nada e dormiria para sempre; tão bom. Era disso que eu estava a precisar ou seria de mais um pouco de tinto?
Estava só. Levantei-me e fui ver a panóplia de garrafas que tinha no bar em perfeito alinhamento, porque nunca tinha desfeito a parada.
Mas para tomar os comprimidos eu precisava de beber alguma coisa e essa coisa estava também ali à mão. Peguei numa ao acaso, afinal tudo me sabia a fel, tal como a vida. Mirei-a de alto a baixo e verifiquei que já tinha sido aberta. Talvez no século anterior. Época em que ainda alguns confrades apareciam cá por casa.
Teria ainda algum líquido? O suficiente para engolir os comprimidos? Já não tinha forças para me levantar novamente e ir buscar outra garrafa.
A caixinha rosa choque continuava ali e a minha mão já estava em cima dela.
Senti-lhe a textura sob os meus trémulos dedos e senti-a fria.
Se me agarrar com a força necessária a essa caixa rosa ficarei lá em cima, sim… onde o horizonte se confunde com o rendilhado das nuvens que parecem fugir de algum sarilho também.
Um arrepio percorreu-me a espinha; ou teria sido outro tipo de arrepio? Não sei quanto tempo estive com aquela caixinha na mão. Não sei quanto tempo demorei a tomar uma decisão. Não sei quanto tempo a olhei com um olhar turvo e abstracto.
Não sei por que razão, não lhe peguei com a decisão com que me propusera.
Dei por mim a olhar para aquele objecto sem saber para que é que servia e naquele momento, apenas me apeteceu dormir.
Afinal, tão perto do derradeiro sono; tão desejado; ali tão à mão.
Reparei então que estava deitado sobre o lugar dela com o braço direito estendido para a mesinha de cabeceira segurando a caixinha rosa que continha o passaporte para a derradeira viagem. Tantas vezes assim estivemos.
Quantas vezes senti o seu calor, o seu respirar, o seu arfar. Tantas vezes assim fiquei depois de fazer amor. E, neste estúpido momento, repetia aquela posição estendendo a minha mão para uma viagem. Não consegui conter o choro; não consegui aguentar as lágrimas; não consegui segurar a caixinha rosa. Não consegui partir.
Restou-me a certeza que as noites serão de um frio impotente. Que os dias serão certamente mais despidos de roupagem florida e cobertos de mágoa, dor e muita lágrima.
Se é para enlouquecer, quero dar em louco nas nuvens!

Nota: Por motivos pessoais terei de fazer uma pausa nos meus blogues.

Regressarei assim que me for possível.

A quem me tem acompanhado o meu obrigado.

sábado, 14 de Novembro de 2009

Homem de cinquenta...

(Este texto pretende ser uma sátira aos homens de cinquenta… pronto! Como eu. É uma adaptação de um excerto do livro Ano Louco, e pretendo com ele dar a conhecer uma faceta mais prosaica do Sonhadoremfulltime… Divirtam-se, se for esse o caso…)



Todas as sextas-feiras tento a sorte que meio mundo anseia… o Euromilhões. Sabem porquê?
Porque quando somos ricos podemos tratar muito melhor do nosso aspecto. E eu estou na idade apropriada para o fazer.
Vejam os retoques que esse pessoal de Hollywood protagoniza além das películas em que participa.
Embora a grande maioria ainda nem se abeire dos quarenta, mas quem tem “money”, tem tudo.
A partir dos cinquenta anos, começamos a sentir o peso da idade, ou seja, começamos a procurar sinais da idade.
Até lá um tipo não tem idade, é simplesmente novo, alegremente sem idade, nem sequer sabe o que é isso da idade.
Depois, bem depois, quando dá por isso, apercebe-se que já não pode renovar o cartão jovem, é confrontado com o facto de que afinal já começa a ter idade.
Diz-se que a primeira crise, começa com a ternura dos quarenta. Começamos com aquele saborzinho diferente, o da descoberta, o da procura dos sinais e efeitos da idade, espécie de obsessão genética.
O problema é que em mim são difíceis de encontrar esses sinais e ainda mais os efeitos, é verdade! Acreditem… percorro o corpo em busca de sulcos, mas não encontro. Pelo menos não os vislumbro, nem os apalpo.
Claro que visto de cima, pareço-me cada vez mais com o Santo António, mas tento nunca me baixar na presença feminina para que não me descubram a careca. Depois também nunca fui de fazer parar o trânsito e tirando aqueles detalhes fisionómicos, algumas proeminências na zona abdominal de ténue importância, não encontro nada de verdadeiramente significativo.
Não ocorre em mim neste momento nenhum processo de degradação física ou intelectual visível, qualquer sintoma de senilidade mental... o que é que eu estava a falar mesmo?
Ah, a única alteração que ocorreu em mim, foi de um momento para o outro julgar que tenho as bainhas da maioria das minhas calças subidas de mais.
Deixei de suportar andar com a boca das calças a dançarem-se-me nas canelas quando ando.
Quando aperto o passo o efeito ainda agrava. Fui eu que cresci? Será que ainda estou a crescer?
A partir de agora a calça tem que roçar o chão sem lhe tocar, sem que, no entanto não esconda a marca da meia quando cruzar as pernas. Fundamental!
Confesso que ainda não dou mais valor ao interior que ao exterior duma gaja, mas talvez para me redimir, passei a dar mais valor à minha roupa interior que exterior.
De marca, impreterivelmente, tenho actualmente um invejável stock de meias e cuecas tipo boxer, justinhas e de excelente qualidade.
Que melhor sinal dos cinquenta que este! Também devo dizer de outra alteração significativa...
Passei a dar importância ao barulho que os sapatos fazem quando ando.
É verdade, o que este gajo se lembra!
Insisto com a elegante mania de só usar sapatos pretos com atacadores, mas a sola e o tacão ganharam significados completamente novos para mim.
De modo que naturalmente numa próxima visita à sapataria, levarei em conta tais pormenores e pedirei à empregada que me deixe medi-los antes de ensaiar o andar em diversos tipos de solo.
Se virem alguém experimentar sapatos nos canteiros das plantas, teste de som em solo arenoso, muito provavelmente serei eu.
Se usar boxers Calvin Klein, então serei eu de certeza absoluta.
De resto, cabelos brancos, alguns, calos nos pés, alguns (nos quintos pododactilos… julgo que é assim que se chamam os mindinhos dos pés).
Estou, como diria o “Hermano”, melhor que nunca e não fui acusado de pedofilia, de cheirar mal dos pés, de não ter declarado todos os meus desastrosos negócios bolsistas no IRS e não tenho ninguém atrás de mim exigindo-me uma pensão de alimentos.
Sinto-me em forma e comecei a beber dois litros de água com chá da Herbalife por dia no trabalho, outro sinal da idade, mas também resultado das leituras fugazes que faço da Mens Health, (onde ainda tento descobrir a Sylvia Kristel, do meu tempo) por acaso outro sinal da idade.
Vivo num meio-termo nirvânico, conseguindo por um lado pagar as contas triviais, água, luz, aspirinas, ir ao cinema quando o rei faz anos... e pouco mais.
Cadeias de fast-food, moderadamente, mas por outro não consigo chegar a um Smart Roadster e ter uma casa com uma vista deslumbrante para o mar nas Açoteias...
Bom! Também não terei desgastes nem aborrecimentos.
Passados uns aninhos, muitos aninhos lá para a frente, uma miúda do liceu irá confundir-me com o namorado com quem acabou ontem. É que os seus namoros nunca resultaram com miúdos mais novos que ela.
Os meus amigos esquecidos da escola primária vão reconhecer-me e à saída de um restaurante imediatamente perguntar-me-ão:
- Desculpe, penso que andei com o seu pai na escola...
Jamais terei umas rugas de expressão (idade, velhice) como o Jack Nicholson.
Que idade terá o tipo?
Já terá passado dos cinquenta?
O homem é um galã, logo nunca deve passar dos trintas e tal.
Não! Esperem lá. Eu assisti ao “Voando sobre um ninho de cucos”, na estreia do filme em Portugal.
Esperem… estou a fazer as contas… afinal o tipo já tem setenta e dois…
Afinal ainda sou um jovem…

Texto: Ano Louco

Foto: Google

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

Ajuda-me!



Apetece-me gritar, hoje. Rasgar a garganta em sustenidos de dor.
Não me perguntem as razões, não me perguntem nada.
A letargia em que me encontro prende-me as pernas, amarra-me o coração, acorrenta-me o corpo.
Quero libertar-me, voar sem rumo, agarrar-me às asas de uma gaivota e em cuidado altaneiro sobrevoar o teu corpo composto por grãos de areia que se esvaem na impotência das minhas mãos.
Quero refrescar o corpo e alma nas ondas geladas do mar revolto e de seguida descansar sobre a areia morna do teu corpo.
Precisava de ti neste momento a olhar comigo para o vácuo, mesmo que permanecêssemos no silêncio dos afectos inconfessáveis!
Dá-me a tua mão e agarra-me com a força do vento que verga o pinheiro bravo.
Mostra-me que a amizade é muito mais que uma palavra, que não passa apenas de uma miragem sem retorno. A tua, eu tenho, e a dos outros?
Amizade! Palavra mágica que está a morrer a extinguir-se como a chama de uma vela acabada.
Diz-me através dos teus olhos negros onde estão os meus amigos. Os meus já não vêem, estão cegos pela escuridão que me assola a alma.
Já não vislumbro sorrisos forçados, já não oiço vozes falsas que me querem dizer a verdade.
Quero fugir dos lábios que me beijam, que me tocam a pele da face, com uma carícia forçada e enganosa.
Oiço o grito da minha própria voz e não o reconheço. Quero abandonar o mundo da perfídia e do misantropismo.
Vou preparar a partida. Algumas peças de roupa, e não vou esquecer de levar um pouco da lua na balbúrdia da minha mala. Não irei esquecer de num cantinho levar um pedaço de ti.
Será esse fragmento teu que me irá amparar, e envolver-me num véu transparente de verdade e encher-me o peito desguarnecido de alento.
Não, não quero ficar. Não quero pensar… mas não consigo deixar de o fazer.
Eu quero, mas nada faço para me ajudar e apenas escrevendo me consigo calar.
Porque nos escondemos em tanta contradição?
Os afectos deturpam-se, interrompem-se à mínima contrariedade.
Se é assim onde está a autenticidade?
Que realidade é esta? O desassossego que me acompanha, dia após dia, tem o mesmo sabor da atrocidade que se comete a cada momento em que fingimos, que nada vemos, que nada sentimos, que nada fazemos.
Ajuda-me a irradiar o que de pérfido está no mundo, e porventura em mim.
Age ligeira porque as lágrimas rolam, uma após outra e queimam-me a face de saudade, raiva, tristeza, dor, amor. Sim, amor também faz sofrer.
Deixa correr este rio que há tanto tempo acorrento, que se quer soltar e ir desaguar ao teu regaço.
A modorra fez-me perder a asa da gaivota que me iria levar até ti. Não irei jamais contemplar o teu corpo de areia, escutar o teu sorriso, o paladar da chama dos teus olhos, nem ver o colorido da tua voz quando me chama.
Neste momento, com o breu que me tinge a alma, apenas me poderei agarrar ao patágio de um qualquer morcego até que este me largue em qualquer algar escuro e pérfido tal troglóbio onde possa depositar o meu corpo na vertical, tal como a minha consciência.
Ajuda-me a ser eu!

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

As saudades que eu tenho de ter saudades


Queria conseguir arranjar verbos para o que sinto neste momento, mas as palavras, como eu e tu, não se juntam para formarem as frases que desejo, como eu e tu, que não queremos moldar o desejo em palavras.
E é embrenhado nesta saudade infinita que mergulho o meu corpo e o desejo de te abraçar.
Abraçando sentimentos jamais extintos.
Quero tanto recordar! Quero tanto acariciar a saudade de momentos vividos, instantes belos trocados e sentidos em noites de chuva, mas sempre iluminados pela presença da fase da lua.
A lua alterou de fase mordida pela sombra do sol, enquanto nós alterámos de faces mutilados pelas garras da obtusidade.
Chove! Neste fim de tarde. As gotas ensopadas de dor invadem a minha alma de saudade. E, nesta hibernante nostalgia recordo momentos de amor, instantes de mim em ti.
De coração rasgado, olhos encharcados, não sei se de lágrimas, ou pela chuva molhados, devoro o teu corpo em minha mente.
Uso o meu corpo débil que há muito entrou em erupção, derramando magma incandescente sobre uma alma demente e delirante.
Mesmo magoado, torturado, cansado e abandonado pelo acaso serás sempre a chama viva que meu peito acolhe num corpo enfeitiçado, como um prisioneiro seduzido entre a loucura e a paixão.
As saudades que eu tenho de ter saudades.

sábado, 7 de Novembro de 2009

Dont't leave me now - Supertramp

(Uma das minhas músicas... )


Don't leave me now
Leave me out in the pouring rain
With my back against the wall
Don't leave me now
Don't leave me now
Leave me out with nowhere to go
As the shadows start to fall
Don't leave me now
Don't leave me now
Leave me out on this lonely road
As the wind begins to howl
Don't leave me now
Don't leave me now
All alone in this darkest night
Feeling old and cold and grey
Don't leave me now
Don't leave me now
Leave me holding an empty heart
As the curtain starts to fall
Don't leave me now
Don't leave me now
All alone in this crazy world
When I'm old and cold and grey and time is gone...

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Demência...

(...)

Beto era um parceiro de longa data. Companheiro desde a escola primária. Era um quarentão exuberante, um lunático de charme.
Possuidor de uma ostentação desmedida era um homem da tela.
Apesar do hedonismo, apenas tinha entrado em películas, hard-core. Tínhamos passado imensas férias juntos.
Um escritor frustrado e um actor que era conhecido, pela ostentação e tamanho do pénis, é sem dúvida, uma simbiose perfeita.
Igor por sua vez lembra-me de algumas façanhas vividas com Beto. Tem uma memória de elefante.
Tanto lugar pacífico e ignorado, abruptamente abrasado, revolucionado pela nossa louca fúria.
Vítimas incontáveis e ridicularizadas, por bêbados desvairados, à procura da sua sombra.
É tudo isso que o russo conta.
O striptease das meninas que faziam a primeira comunhão, a tourada nos aristocráticos jardins do palácio de Queluz, o enjaulamento no jardim zoológico do proprietário do Bogotá, a corrida maluca de carro através de Albufeira, o fogo de artificio no cemitério dos Prazeres.
Os estridentes vómitos e flatulências do meu amigo no hotel Tivoli de Sintra, após um belo repasto, acompanhado de um bom e muito vinho.
Enfim uma farra por mês, uma purga tanto física como moral.
Este era o retrato de dois pseudo-artistas frustrados com o mundo e com a vida.
Relembro uma entrevista, não sei para que jornal, que uma jovem jornalista me fizera, devido à instabilidade provocada pelo fogo de artificio no cemitério.
Claro que estivemos com os costados na tarimba da esquadra da Polícia durante uns dias, mas o gozo valera a pena.
- Qual o motivo que o levou a fazer tal coisa?
- O ímpeto.
- Nem mediu as consequências de tal acto?
- Não! Apenas me apeteceu…
- Se não escrevesse, senhor Daniel, que faria?
- Seria gangster, menina. Al Capone... conhece? Vem no dicionário. Escrever provoca doença.
- Que tipo de doença?
- Doença de tudo. Doença da alma, da cabeça e da própria consciência.
- Qual o seu remédio?
- Não existe remédio, boneca…
- O senhor Daniel é um anarquista.
- E a menina, uma grande burra!
(...)
Texto: In "O lado escuro da lua" (Não editado)

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

O sorriso da lágrima


Sabes?
Hoje foi um dia difícil. Agora já noite sinto, no fundo da garganta, aquele arranhar, aquela vontade de chorar.
Foi um dia que não me lembro de ter há muito tempo. Ou será o inverso?
Quero chorar de raiva, de solidão, de amargura e de alívio. Não me lembro de me sentir tão só há tanto tempo. Quero chorar para tentar aliviar o coração, para tentar arrefecer todas as ilusões de amores e contos de fadas que cá dentro, ainda se acalentam e vivem da minha personalidade sonhadora.
Quero deitar-me na cama, agarrar a almofada e contar-lhe sonhos enquanto ela segura as minhas lágrimas que teimam em sair. Enquanto ela me sussurra canções de embalar como quando era menino, enquanto me ampara no seu regaço. Quero mostrar-lhe o quão salgado está o meu coração.
Mas não o vou fazer. Não vou carregar a minha almofada com lágrimas que me adormecem e não vou deixá-la cantar as músicas que me embalam na solidão. Não deixá-la tomar em si, os meus problemas e hoje vou tentar não dormir encolhida no meu mundo. Hoje vou deixar a minha mente vaguear, vou deixar o meu coração sorrir e não vou ter medo de acordar.

Hoje, mas só hoje, vou sorrir à lágrima.

domingo, 1 de Novembro de 2009

Nota 10


Este fim-de-semana andei afastado um pouco da blogosfera, e hoje qual o meu espanto ao ver que tinha não um, não dois, mas sim três selos “Nota 10” para o meu cantinho de sonhos.
Agradeço do fundo do coração:

Á brilhante e amiga Luz
http://atomovida.blogspot.com/

Á minha amiga do desassossego Milhita
http://milhita-milhita.blogspot.com/

Á assídua leitora do meu espaço Carla
http://tatuagens-carla.blogspot.com/


1- Escrever uma lista com 8 características
2- Convidar 8 bloggers para receber o selo
3- Comentar no blog de quem lhe deu o selo
4- Comentar no blog de quem escolheu.

Não vai ser tarefa fácil, porque eu próprio não me conheço… aqui vai resumidamente:

Amigo
Apaixonado
Simpático
Sensível
Sincero
Sonhador
Teimoso
Sempre na lua


Agora é assim, os blogues aos quais oferecia já foram escolhidos :(
Assim quem quizer é só escolher o selo e levar…
Obrigado

sábado, 31 de Outubro de 2009

"Gostava tanto..."



Aprendi o saber de não ter pressa.
Aprendi que o amor pode ser silêncio.
E porque o amor pode ser apenas silêncio,
ela, não respondeu.
Porque eu não tinha perguntado.
Assim, aprendi a não tentar adivinhar o passo seguinte
porque me pode poupar da desilusão.
Aprendi a conjugar o verbo ser
nos tempos todos, meus e vossos.
Aprendi o poder do abraço,
a linguagem do sorriso dos lábios,
a beleza inimitável do olhar,
e dessa forma, fitei-a nos olhos apenas, e li-a.
E ela desvendou-se,
Abriu-me a alma do seu olhar.
Aprendi um pouco de tudo,
no tamanho possível que me foi concedido.
Então sussurrei-lhe:
“Gostava tanto…”
Um dedo fino nos meus lábios,
Uma mão em concha na minha face
E percebi,
Afinal, ela já sabia.
E eu não perguntei
Ela já me tinha respondido.
Agora, já não tenho pressa de mais nada…
Deixem-me viver, mesmo que enganado
acerca do verbo e do próprio tempo.




quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

No trilho da memória


Fui traído pela minha imutável apatia, e atraiçoado pelo sono. Com água numa simples garrafa afastei todas as almas deste e do outro mundo. Bastava-me a companhia do silêncio e da garrafa de água para me saciar a sede do invariável.
Percorri a estrada problemática e sinuosa do pensamento.
Durante o trajecto, não vislumbrei cruzamentos nem paragens obrigatórias. Pelo menos não vi.
Senti latejar o meu cérebro. As têmporas pareciam um tambor numa parada militar.
Estacionei o carro. Apaguei os faróis. A luz transformada em nostalgia.
O espelho retrovisor lado a lado com a solidão. De súbito acendi o brilho, sem rasgar a sombra, solitária e antiquíssima e calquei de novo o asfalto negro do pensamento.
Pela janela, observava a marcha veloz da paisagem, de seguida como embriagado fitei a inerte e poeirenta pupila da lua.
A boca não falava: a boca escutava metástases de omnívora iluminação.
De forma maquinal desci o vidro da janela e sob a sombra dos olhos deixei penetrar a noite como um corpo desenhado na álea dos ossos.
Afinal é nas colinas acessíveis e tardias que o mundo envelhece.
Senti a memória do sangue do céu-da-boca despovoada da fala, o silêncio libertado.
Deslizei para o espasmo factício do corpo enluarado, cuja morfologia desentendo.
Palpo o calor branco, o calor frio. O calor branco do calor do frio da terra batida.
O corpo esgueira-se do mercúrio trinta e oito pontos dois, e sobe: poalha lunar e mudez esclarecedora.
Doía-me todo o corpo. Naquele momento, a dor cingia-se apenas num furo em cuja abertura assoma uma formiga construtora, de forma a cismar a cigarra da dor no seu eterno e pobre canto, apenas para certificar-se da sua construção, pensei.
Sem mover um dedo, sem remorder a implacável solidão, nem uma torção esbocei, nenhuma entorse na ignição. Apenas o mutismo como que esperando alguém, um alguém feito de tinta permanente, que me pegasse na mão, que me aprumasse o céu nas minhas garras, afagando-o ali, no meu covil.
Cai-me o corpo nas mãos. De certo é a lua a transpor a escuridão da morte, a virar a página sob uma nuvem movente. Dói a dor, na sua ameaça.
Não sei se te perdi, ou se tu me perdeste. Ou, se acaso, ambos nos perdemos?
Ou na realidade, nunca nos encontrámos!
Talvez viva a doce ilusão do milho rei, na cor diferente, do bando perdido de pessoas sóbrias.

sábado, 24 de Outubro de 2009

Rosas de um vermelho desbotado


Sob o olhar aceso de uma lâmpada fusca, pousam os nossos corpos cansados.
Deixo pernoitar a utopia no deserto do meu peito.
Respirações loucas traduzem a emoção, de horas e minutos passados. Duas almas vendidas a um amor incerto, crentes num feliz final.
No mistério dos afectos inexplicáveis que se debruçam sobre ti, e te encontram quase nua, envolta em pequenos pedaços de desejo, é nesta breve cantata de solene toque sagrado, que me dispo e me disponho para ti.
Numa faísca, trago uma coberta bordada de palavras mágicas que te aquecem os seios, fazendo-os enrijecer apenas ao toque da palavra desejo.
Depois deixo-te as tuas flores eleitas sobre a mesa, rosas de um vermelho desbotado como os teus lábios, que se alisam quando se provocam, beijando o ar quente que passa e deleitando-se com o prazer do momento.
Abro uma garrafa do melhor néctar, na esperança de me embriagar junto da fantasia que me enlouquece, até que a noite caía , e com ela as minhas ilusões.

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Sou um viciado



Tu em mim, eu em ti, como um só corpo.
Olhos nos olhos, falando amor.
Mão na mão, para espreitarmos o toque da pele.
A vida que passa por nós cheia de esperança e vontade de ficar.
Eu em ti, tu em mim como dois corpos fundidos pelo anseio e pela lembrança profunda de um desejo incompleto, inacabado.
A vida a passar depressa, a ansiedade do jamais não se extingue.
Nós em nós, como em uníssono sentindo que existem dias eternos, momentos raros. Por vezes, dias raros vividos ao lado de momentos eternos.
Os nossos olhos colocados nas estrelas, postos numa recordação e a mão no peito que dói.
O padecer por uma vida que passou sem nos dar uma oportunidade de desvendar que os nossos corpos foram esculpidos para amar. E eu amo-te com a força que não tenho, com os meus passos incertos e trôpegos.
Amo-te com raiva. Amo-te com desespero e ânsia de ti. Amo-te com uma ternura louca. Amo-te sem-fim.
A saudade volta a tocar nos nossos corações e pinta-os de novo de vida, de eternidade, e de esperança.
Faz-se mundo de novo. Todavia sinto-me preso pelas grades da cela do medo.
Mas, a tinta volta a enxugar e as fissuras tornam a surgir nas paredes do coração. Odeio-me mais que a mim mesmo.
No entanto adoro os meus vícios. Preciso deles. Tenho-lhes afeição.
Sabem o que há entre um homem e o seu vício? Tudo e nada.
Dormimos com ele. Vivemos com ele. Respiramos com ele. Faz parte da pele. Faz parte de nós.
Não nos larga. Nunca. Senão não era um vício.
Qual é o meu vício? Outro cigarro, outro Eu, outra vida.
Meu Deus! Trago tantos segredos de amor nas pontas dos dedos e não tenho corpo onde os deixar.
Sou dono de dunas de memórias inquietas.
Mas, o brilho da lua não chega para as acalmar.
E é tão breve a essência do mundo no infinito do teu olhar.
Enorme o meu peito quando se abre dentro da palavra.
E, quando me tocas no silêncio que a minha boca encerra, beijas-me subtilmente o desejo de te ter, sem te ter.


Sou um viciado de ti.


domingo, 18 de Outubro de 2009

Amor inocente (2) - Continuação


Parte 2


Abalamos calmamente. Não era nossa intenção dar nas vistas, mas mesmo que fosse julgo que não ia surtir qualquer tipo de efeito sob aquelas almas, agora, complemente pedradas, absorvidas no seu mundo, muitas delas já a ressacar e a dormir, um coma profundo.
Quando alcançamos a rua, tudo muda.
Apercebo-me da sua beleza, à luz de um candeeiro, que emite uma luz dourada.
Os seus braços ganham, igualmente, essa tonalidade dourada, como se toda a sua pele tivesse sido submetida a um banho de ouro.
Era a sua aparência física que estava a ganhar riqueza perante os meus olhos, que se iam habituando a uma luz que tinha aumentado de intensidade.
A conversa começou a fluir, e não demos pelo tempo passar. A nossa conversa corria como um rio alvoraçado, preste a transbordar as suas margens. Encontrámos uma série de semelhanças, e parece que o nosso encontro, naquele pequeno apartamento, não tinha sido um acaso.
Muitas pessoas que lá se encontravam, a tomarem substâncias menos próprias eram amigos comuns. Outro aspecto relevante era a nossa dura batalha, que tínhamos vencido.
Não deixei de ficar preocupado, com a sua tristeza em relação a uma das suas amigas que estava cada vez pior, como me segredou.
A conversa prolongou-se até altas horas da noite. Dissemos tudo o que tínhamos para dizer um ao outro, dissemos tudo aquilo que não poderíamos ter tido na divisão daquele apartamento, circundados pela escuridão e envolvidos por aquele som ensurdecedor.
O meu coração palpitava como que alimentado por cinco cavalos de corrida. Pequenas gotículas de suor escorriam das minhas têmporas e axilas. Sentia-me nervoso.
Avizinhava-se a hora do fim e não queria estragar uma noite que até ali tinha sido perfeita.
Acompanhei-a até casa com passos curtos, fazendo com que o tempo também caminhasse devagar e com passada breve. Estanquei junto da porta. Agarrei-lhe suavemente na mão. Senti a sua linda mão a tremer, e olhei-a nos olhos.
Molhei os meus lábios, momentaneamente secos, e acalmei a minha respiração um pouco acelerada. Imaginei que a sua respiração também não estivesse dentro dos limites da normalidade, para alguém que está estático.
A nossa respiração estava certeira, era a respiração de quem estava enamorado, ou de alguém que tinha uma atracção especial.
Os nossos olhares fixaram-se por longos instantes. Aproximei os meus lábios dos seus, e fui-me aproximando cada vez mais, lentamente. Ela correspondeu. Selámos o nosso encontro com um beijo quente. Os seus lábios ferviam. Os meus abrasavam.
Uma nuvem nasceu no ar e baptizou com gotas frias o nosso encontro naquela madrugada resfriada. Despedimo-nos, deixando logo a saudade ali plantada: uma plantinha acabada de nascer, a necessitar de carinho e amor.
Era o que nós os dois necessitávamos, e isso, só nós o podíamos oferecer um ao outro. Circunstâncias da vida atraiçoaram o nosso “amor”. Apenas e só mais uma vez pude contemplar aquele ser frágil pintado a ouro.
Daquele acto de paixão sobrou apenas um corpo, o meu que conseguiu fintar a morte, mas o harmonioso corpo de Inês foi de forma purgante cobiçado e avassalado por uma galopante leucemia.
Vivia os dias com gáudio e a vivacidade dos seus dezoito anos quando foi atraiçoada.
A angústia caiu sobre todos como uma espessa cortina que nada deixava ver para além da tristeza negra e opaca.
Os pais e o irmão solidificaram no tempo, porque ela, por natureza ou falsa ingenuidade, encarava aquela doença como uma gripe que com alguns dias de cama e um chá de menta acabaria por entorpecer e ir embora.
Chegaram os resultados dos exames, das análises e a sentença do internamento.
A famigerada e odiada quimioterapia roubou-lhe, indiferente à idade e vontade de viver, o cabelo dum tom entre o ruivo e loiro mal definido e atirou-a para uma cama de hospital aonde ela continuava a cumprir o horário dos trabalhos de casa para passar nos exames.
Foi quase um ano de internamento por três hospitais que a Inês viveu, animando pais, irmão e demais família. Sempre confiante mesmo quando sem cabelo, usando uma boina, apregoava que o que viria a seguir seria mais forte e bonito, como quando ao fim de quatro meses de cama, tendo perdido o hábito de andar, se desculpava quando se desequilibrava, com o facto de os sapatos serem novos e duros.
Os tratamentos amainaram, e a recuperação parecia surgir finalmente.
A batalha entre os glóbulos brancos e vermelhos parecia estar vencida. Mas numa guerra, não há caído ou triunfante, mas sim vitimas das circunstâncias.
Voltou para casa para a brincadeira imparável com o cão, conversa com os vizinhos sempre chorosos de felicidade quando a encontravam, retorno à pesca no rio com o irmão, até surgir o desejo inultrapassável dum bom mergulho na piscina.
E concretizou-o com quase meia hora de natação.
Faleceu às 19,38 horas.
Foi sepultada com o vestido oferecido pelo padrinho que nunca mais apadrinhou alguém ao longo dos poucos anos que ainda lhe restaram.
Eu, já resolvi que serás sempre minha, mesmo ausente.
Podemos conversar como sempre. Viver a vida como sempre. Morrer a morte, se dela quiseres falar.Querida amiga, sabes de vida, morte e ressurreição muito mais do que eu.
Recebi hoje um postal natalício, daqueles feitos pelos deficientes de todo o mundo com uma destreza formidável que nem sempre atinge as culminâncias da arte.
É de um colega do trabalho, da nossa idade. Nada de raro: Saúde, felicidade, ano novo cheio de concretizações. Tudo pode ser uma concretização, até a morte!
Mas há alguns meses ele telefonou-me, preocupado com as notícias sobre a morte de outro colega, um tipo tenso e ginástico que levara vida profissional apagada e se divorciou por causa da amante, mas continuou a beber demais, a fumar em excesso, a andar num enervamento até cair fulminado.Respondi-lhe para lhe dizer que todos têm a sua hora. Uma banalidade e uma verdade. Amiga, penso muitas vezes em ti porque estás longe.
Amei esse impetuoso e exíguo e inocente amor de um homem por uma mulher.
Hoje de manhã olhei o céu soprei um beijo e como por sortilégio uma brisa fresca acariciou o meu rosto.
Sei que foi a tua réplica. Até sempre Inês!

sábado, 17 de Outubro de 2009

Amor inocente (1)

(O texto que se segue é baseado em factos reais. Uma crónica inocente e sentida. Nomes e locais foram alterados para preservar a intimidade dos intervenientes e respectivas famílias)


Quando germinou foi angariada pelos pais como maravilhosa bênção de Deus. Já tinha neste mundo um irmão com dois anos de vida que ansiosamente a esperava para formarem o casal ambicionado. E Inês chegou.
Como todos nós, maquiada com os produtos do ventre da nossa mãe e não só. Chorou quanto pode e depois esqueceu-se de chorar para o resto da vida.
Perspicaz e hiperactiva, aprendeu desde muito cedo a pesar as palavras e a utilizá-las na medida certa de forma a não magoar.
Para ela todos os mais velhos que os pais eram avós. Simplesmente.
Na escola tentava esconder as suas capacidades com uma capa de modéstia, roçando por vezes a humildade excessiva, que a levava quase a um pedido de perdão quando obtinha resultados excelentes, com um: “Não tenho culpa!
Eu também não tive culpa de me cruzar contigo. Não tive culpa que os meus olhos repousassem nos teus.
Sei que trinta e dois anos-luz me separam do teu olhar, dos teus abraços, dos teus beijos.
Não quis ter mais amigos quando te conheci, tu também não. E no entanto é bom ter amigos, podem fazer-nos bem. Sabes?
Não preciso de te escrever, pegar na caneta, alisar o papel, és tu sempre que bates à porta da minha imaginação e te sentas à beira da minha cama que tantas vezes usámos como cenário para as nossas conversas sem ponto final.
Disse, cenário? Disse mal! A palavra pode implicar representação. Digo antes, que a minha cama continua a ser tudo como se o meu quarto fosse o próprio universo que nele se contém, porque é apenas um e está todo lá quando conversamos.
Hoje está frio.
Arranjo mantas próprias para os joelhos, Fui buscar o jarro de sangria que sempre apreciaste, porque tem a cor do sangue da vida.
Desculpa, não está assim tão gelada, mas podemos fazer de conta para estarmos de acordo com a época em que nos conhecemos. Um inverno de granizo até aos tornozelos, de fome, medo, silêncio, coisas assim.
A festa de aniversário do Ricardo era nesse dia. Também estavas convidada.
A minha memória está turva como o ambiente que nos envolvia.
Um odor a “erva” paira no ar, como se um rastilho de incenso tivesse sido deixado a arder durante várias horas.
O cheiro infiltra-se nas paredes, nos corpos dos jovens que ali se encontram, e partilham conversas menos apropriadas, e desvendam aquilo que provavelmente não conseguiriam numa situação rotineira, desprovidos do efeito de uma droga, que se encontra à venda ao virar da esquina.
Um jovem “snifa” um resto de cocaína que se encontra numa mesa improvisada. Um sinal de STOP, que roubaram certamente numa das suas noites de distúrbios, assenta num tronco de madeira maciço de base redondo.
Outro jovem com salpicos de barba dança agitado e eufórico ao som de uma música mais exaltada, uma música de ritmo mais dançante.
Nem se apercebe das outras pessoas que o rodeiam. No entanto, esta euforia artificial dura pouco tempo. Cai, de seguida, num adormecimento profundo, numa angústia tal, que não consegue mexer uma palha e mergulha na escuridão.
Um grupo, rondando os seus 16,17 anos, partilha mais um “tesouro” que vão rodando cuidadosamente num pequeno círculo. Encontram-se sentados em cadeiras um pouco desconfortáveis. Não ligam a esse pormenor. Estão, ali, em amena cavaqueira e partilham o cigarro sentindo-se bem e soltos pelo efeito provocado.
Um clima de obscuridade invade a sala. A luz não é propriamente bem-vinda naquele ambiente.
O negrume é rainha e senhora, e apenas por vezes um flash de uma luz psicadélica irrompe pelo escuro da sala, quebrando assim a monotonia da cor. Mas, nem todos se entregam às malhas narcóticas.
Encontro-me num canto a observar este cenário de autêntica destruição pessoal, e tento abstrair-me do que se passa à minha volta.
Há uma rapariga que também está sozinha do outro lado da sala, com um copo na mão. Bebe, uma bebida qualquer. Daqui, parece-me um sumo de laranja.
Constato, no momento, em que um dos flashes decide reaparecer e dar um pouco de luz à sala mergulhada na escuridão.
Enxergo o sumo a invadir o seu corpo frágil, como um metal detectado numa banal radiografia, uma vez que nos encontramos numa sala totalmente, desprovida de luz.
Tento, assim, aproximar-se dela e começar uma conversa pelo ponto que nos une: somos decerto os únicos naquele ambiente que não estamos sob o efeito de qualquer narcótico.
Remoí o meu cérebro tentando achar as palavras certas para uma primeira abordagem, uma vez, que se falhasse, viria a única pessoa, que me despertou interesse naquela sala, dar-me com os pés na cara e não me dar qualquer tipo de atenção, e preferir estar sozinha, como se tinha encontrado até então.
No entanto, tudo se resolveu, e penso que tinha escolhido as palavras exactas.
Já me tinha cruzado com ela, inúmeras vezes, contudo nunca lhe tinha dirigido a palavra. Pensei que talvez não fosse o momento exacto para travar uma conversa, num ambiente tão depreciativo como aquele.
Sentia-me sozinho, disso não havia qualquer dúvida e ela era a única pessoa que poderia ter alguma conversa construtiva.
Decidi, então fazer-me à estrada, ao pequeno troço que nos separava, e toquei-lhe no braço, antes de encostar a minha boca, no seu ouvido direito.
A música estava demasiado alta, o que tornava a comunicação algo difícil. Convidei-a a sair daquele local, uma vez, que notei que ela também não estava confortável com todo aquele panorama.
Ninguém deu pela nossa saída.




(Continua)

segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

Poema dos cinco sentidos


Sempre que te dispo e experimento a tua nudez envergonhada, envolve-me uma sensação de êxtase por te ver alinhada ao meu lado.
Rasgo com as unhas rentes, muito devagar, o tempo que cessa.
Alimento a paixão dos dias e noites que nos funde aos poucos quando nos envolvem os lençóis esverdeados de esperança.
Absorvo-te o sumo das palavras que escorrem agora pelos meus dedos que me ensopam os cinco sentidos.

Vejo o teu corpo ondulado cercar o meu, como raízes aéreas que me inundam com a tua seiva. O suor a gotejar pelo teu ventre por mim descoberto, por mim flagelado.
Ausculto o arfar do desejo que emana como um fogo farto no teu peito e, que finda num gemido inexprimível.
Cheiro o odor a suor repleto de moléculas de prazer espicaçado pelo movimento da maré do amor.
Sinto a oscilação desse teu corpo em harpejo como um pentagrama de uma só linha que me exibe o teu canto Gregoriano, numa só melodia.
Provo-te com o delírio do “umami” da tua carne, o doce da tua pele sedosa de trigo, o amargo a fel da míngua da minha vida, a acidez untuosa da minha pobre existência, o salgado das tuas lágrimas de emoção que se soltam nos olhos do teu coração.

E quando te abandonas nos meus braços, deixo de ver, encoberto pelas lágrimas de sal, sempre que sinto o reflexo em cada lua cheia.
Tu perdida em êxtase por me ter, no labirinto da minha existência, fazes-te a fêmea outrora adormecida e surge a mulher sem máscara, já desfolhada de roupas e incertezas.
Mas hoje só quero a ausência como companhia, e o silêncio como alento.
Faz por esquecer quem eu sou, neste instante e para sempre, porque eu hei-de esquecer-te, tal como o amor se esqueceu de nós.
Mas como diz o poeta:
“Enquanto não há amanhã... Ilumina-me!”

quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

Quero esconder-me do mundo


Com a alma em carne viva saí ontem à noite acompanhado simplesmente pela minha sombra, única companhia que ainda me tolera.
Na esquina de uma estrada avisto uma silhueta igualmente perdida da vida.
- Olá – Disse sedento de falar com alguém. Já não suportava a minha voz em mim.
Seguiram-se momentos de silêncio, não sei quanto tempo fora mas parecia uma eternidade.
- Hoje não tenho onde ficar – Verbalizei de súbito.
- Bonito... Queres tomar um copo? Vem comigo. – Disse abrindo um sorriso forçado, tentando mostrar-se simpática.
Levou-me por meio da escuridão até um sítio pardacento, isolado onde havia uma carruagem abandonada, com manchas de zinco no topo a tentar tapar uns quantos buracos. Dentro do tugúrio havia um colchão podre e verde. As seringas estavam espalhadas por todo lado. Pegou numa botelha, num fósforo e repentinamente fomos inundados por uma luz dançante.
- É aqui…
- É a minha mansão, onde levo a minha vida.
- Dormes cá?
- Não tenho mais lugar nenhum. É um bom sítio. Aqui só estou eu e a lua.
- Posso ficar cá?
- Nem penses.
- Vá lá, deixa-me ficar, só hoje.
- Já disse que não!
- Porquê? Tens um colchão e tudo. Não deve ser a primeira vez…
- Porra que és estúpido! Porque preciso de dormir e só há uma cama. Para "brincar" uma cama chega, para dormir já é outra conversa!
Mas, hoje precisava de me esconder do mundo. Sentei-me também no colchão. Como pode ela viver aqui? É um lugar pequeno, sufocante, tão escuro. Ergui os dedos e apalpei a madeira que protegia a porta. Feri-me com alguns pregos arrebitados. Gritei, mas ninguém me ouviu.
Penso que grito baixo demais. Julgo que já tenho os meus dez dedos a sangrar. Coloco-os um a um na boca, chupo aquele doce acre vermelho. Afinal apenas o indicador da mão esquerda pungia.
Sinto muita dor nas costas, pois o tecto é baixo demais. Fico assim, encolhido, os meus joelhos quase que tocavam o queixo. Aliás, se bocejo os meus dentes vão arranhar os joelhos, e sei que também eles estão a sangrar.
Não me consigo virar, nem para esquerda, nem para direita, nem para trás. Mas escuto muitas vozes no lado de fora.
A vida caminha normalmente. Gritos, cães que ladram, a voz de Marlyn Mason tão perto que consigo visualizar as suas unhas negras arranhando-me a cara.
Uma velha televisão pisca ondas de luz coloridas que me fere os olhos. Mas ela disse-me que a primeira coisa que fazia era dar ao botão. Quando os clientes somem, ali fica o dia inteiro até o final da tarde, sentada ou deitada no colchão verde, tendo como companhia apenas e só as pulgas. Mas confidenciou-me que paralisava pela magnitude das catorze polegadas, onde cabe o sucesso, brilho, beleza, guerras fenomenais, amores arrebatadores e performances de delitos do mundo inteiro. Era hora do jornal nacional e depois a esperança da heroína da novela. Parece que está emocionada, pois ouço, “Jesus do céu!” Olho de lado para o sorriso do presidente da república. Mas não posso nesta minha posição desconfortável expressar merda nenhuma. No momento estou ocupado, e não posso fazer grandes coisas pelo meu país. Quem sabe nas próximas eleições? Assisto, somente. Queria só sair dali. Afinal de contas, a vida continua. De repente apercebi-me de quanto era absurdo, tudo aquilo que estava a fazer.
Andei todo o dia à deriva pelos recantos da cidade, sem saber como agir. Estou sem cabeça para pensar em soluções, e portanto vagueio, sem sentido pelos recantos do meu cérebro em busca de uma solução.
Não podia ser descoberto, essa era a prioridade das minhas preocupações. Durante muito tempo abria-me para os outros, sem constrangimentos, até que aprendi que o homem calado tem muito mais a ganhar.


Texto: In "A filha que nunca tive" (Não editado)


Imagem: Google

domingo, 4 de Outubro de 2009

Amor aluado


A noite passada, fui visitado pela incómoda e pedante insónia.
Pensei no que melhor pode existir, o amor. Embora nunca o tenha encarado de frente, olhos nos olhos, ele sente-se e refolha o nosso coração inundando-o umas vezes de loucura, outras de tristeza.
Mas amor só existe para alguns. Tu, mesmo com todas as tuas recordações, fazes parte daqueles a quem não foi dado o amor.
Tu e tu, muitos milhões de outros. Tal como as enormes multidões deste planeta, que obedecem a reflexos condicionados.
Todos alienados pela religião, pela política, pela imprensa, pela televisão, pelo cinema, pela literatura, a boa e a má, que miam nos telhados, a cada minuto a cada segundo, o amor, sempre o amor.
Não há amor, para todos esses desprovidos, condicionados e que vivem redondamente enganados.
Para esses que só tentam obedecer ao instinto reprodutor, existe um só terror comum, o medo da solidão.
A dois partilha-se melhor o peso do isolamento. Então, não importa quem, não importa o quê, tudo menos a sensação de angústia. É a isso que se chama amor. O medo da angústia. O terror de viver só, no lado escuro da lua.
Apenas os eleitos, podem construir castelos inacessíveis. Os outros constroem cabanas, que são levadas pelo vento, que o tempo gasta e estraga. Para estes não existe amor, apenas amores mortos, embalsamados, que dão, a grande distância a ilusão da vida.
O verdadeiro é sempre trágico e doentio. É o que viviam Tristão e Isolda, com a espada no centro do leito. É o que perseguia D. Quixote nas planícies da Mancha, na caça à sombra, essa busca exaustiva e raramente triunfante.
Finalmente, o vento do sul vence o vento do norte. Chove e a paisagem está desbotada. Painéis de bruma escondem o horizonte.
Na praia, algumas rochas são fustigadas pelo mar.
Preciso trabalhar. Para começar, terminar o prólogo das páginas que ando a escrever.
Preparo um chá de menta. Acendo o rádio. Falam do Vaticano e do novo papa. Eu pessoalmente admirava o João Paulo II. Eu escuto, mas não oiço. Depois, insiste numa marca de aperitivos. Tudo isso se afoga numa música dos Queen, que cantam “The show must go on”.
De facto o espectáculo tem de continuar.
Se encararmos a vida como um espectáculo esta deverá continuar, tentando dar-lhe um final feliz, como a maioria das representações.
Penso em Regina a minha primeira mulher. Olhos castanhos esverdeados. Era louca, dessa loucura organizada das mulheres que não têm nada para fazer, senão inventar uma loucura para se distrair. Adorava, a psicanalise.
Num dos meus livros, fiz o retrato a cores e de corpo inteiro de Regina e dos seus obtusos amigos e essa foi uma das razões do nosso divórcio.
No rádio, e na vida, Freddy morreu. Regina talvez também tenha morrido; há cinco anos que não tenho notícias dela.


Texto: In "O lado escuro da lua" (Não editado)
Imagem: Google

quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

Primeiro amor

Dizem que o primeiro amor nunca esquece. Eu sei que não e quando o primeiro é único, permanece na nossa memória para sempre.
Os teus olhos percorreram a distância toda do ar e pousaram nos dela, que espreitavam de uma janela do 3º andar, do prédio na rua junto à escola primária.
Ficaram muito tempo a olhar até que a rapariga se lembrou de te enviar um beijo na ponta dos dedos, e tu respondeste no mesmo gesto, cheio de felicidade.
Embora já se conhecessem, o amor dos dois nasceu naquele dia: era um dia azul de Agosto e nessa noite, foram com as sombras deitar-se na relva húmida do jardim, ao lado da igreja onde, anos mais tarde, desesperados entraram para pedir ao padre que os casasse.
Amaram-se como nunca haviam amado alguém, lutando contra todos os obstáculos que lhes surgiam pela frente; choravam muitas vezes, atados um no outro, dizendo palavras que mal conheciam.
O corpo imberbe da rapariga crescia nas mãos cegas do rapaz.
Um corpo macio de seda onde a pureza do sexo nascia não se sabe de onde. Eles não o sabiam.
Naquele tempo, cicatrizados por tantos sentidos proibidos que encontraram na vida, chegaram à conclusão de que ninguém nasce livre ou que não havia liberdade, tão pouco lhes importava.
Perseguidos pelo medo do que os outros pudessem pensar, faziam-se passar por irmãos ou primos e iam viver momentos eternos como se só eles existissem no mundo.
Amavam-se no baloiço do parque, vigiados pelos olhares mudos das aves; as horas saltavam tão depressa que um dia representava um breve instante onde era impossível mostrar tanto amor.
Brincavam à apanhada junto ao campo de basquete do Liceu e ele deixava-se apanhar e colocava-a às cavalitas, as mãos pequeninas dela leves à volta do pescoço e o murmúrio dos lábios quentes faziam-no estremecer e amar e sonhar cada vez mais.
Às vezes caía uma tristeza tão grande no meio deles que os deixava confusos e tudo parecia feio e frio e sem sentido: o próprio jardim para onde iam brincar não estava assim tão afastado do mundo como desejavam e as flores que ele apanhava para lhe oferecer não eram as flores que ela aceitava com aquele sorriso de pétala vermelha, pegando-as com ambas as mãos, colocando-as depois por entre os seios que cresciam devagar.
Qualquer coisa murchava e eles não o sabiam. À noite, aproveitando a ausência da mãe que já dormia, ela ia para a varanda coberta de sombras e apaixonada escrevia mensagens que lançava para baixo onde ele, como um desesperado, pedia com os olhos que ela o amasse para sempre.
Apanhava os papelinhos ainda no ar, volteando por sobre a sua cabeça e ficava feliz com tanto amor fechado nas mãos. Depois despediam-se, beijando a distância que os separava.
Fechado no quarto, insone, ele escrevia no caderno dos seus poemas o, quanto a amava; coisas que não sabia dizer-lhe.
Um dia entraram numa igreja mas o padre (que fora professor de moral dele) não estava.
Não era importante no momento. Casaram-se em silêncio junto à pia da água benta e juraram amarem-se para sempre.
Festejaram a lua-de-mel numa obra abandonada, onde improvisaram a sua própria casa.
Havia bolachas, cervejas e chocolates e fizeram amor em cima de duas tábuas.
Um ano depois, conseguiram autorização da mãe dela para saírem juntos quando quisessem.
Nessa tarde ele foi buscá-la a casa para irem ao cinema. No dia seguinte ela telefonou-lhe a dizer que estava tudo acabado.
História triste dirá... a maioria. Para os protagonistas talvez fosse a libertação e a felicidade.

Nunca o saberemos...

A história teve um final feliz, casaram na realidade há mais de vinte anos, numa Igreja com Padre e pia da água benta.
Celebraram a lua-de-mel, num lugar digno da cerimónia. Não fizeram amor em cima de duas tábuas, mas numa cama previamente preparada para as desfeitas dos noivos num apartamento de duas assoalhadas em Queluz. Já não precisam da autorização da mãe dela para sair.
Nem ela já vai para a varanda coberta de sombras e apaixonada a escrever as tais mensagens que lançava para baixo onde ele, como um desesperado, pedia com os olhos que ela o amasse para sempre.
Ele já não apanha os papelinhos que guardava religiosamente no seu livro de poemas, que escondia no seu quarto. Já não precisam beijar a distância de três andares que os separam.
Ultrapassaram o medo do que os outros pudessem pensar, já não se fazem passar por irmãos ou primos, mas sim como marido e mulher mas sem o enlevo de como só eles existissem no mundo.
Já perderam a delícia de se amarem no baloiço do parque, o gozo de brincarem à apanhada junto ao campo de basquete. Já raramente vão ao cinema. No entanto não é de excluir nunca essa probabilidade.
Num dia ela poderá telefonar a dizer que está tudo acabado!
Texto: In "Ano Louco"
Imagem: Google

segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

"Sonhador mãos de tesoura”

Quantas vezes transmito formas algo esquivas aos actos deformados do meu pensamento, sempre que me descubro neste estado de apatia.
Apenas mais um dia como todos os que guardo na memória.
Penso muito, penso demasiado…
Não quero que dêem pela minha presença. Gosto de estar no meu canto, e ver as águas correr sempre no mesmo sentido. Na direcção oposta ao meu desejo.
As luzes delicadas à beira-mar reflectem-se na corrente negra, e deixam um rastro que sigo indiferente a tudo e todos.
A distância por vezes edifica um novo rumo, e os trilhos que outrora sorveram as vozes, distanciam-se agora de um único ponto. A saudade.
Não, não quero que dêem pela minha presença.
Desejo um amor sem pressa. Um amor vagaroso que me permita a busca de um pingo de luar.
Quero amar serenamente sem ter de derramar na água os lençóis esquecidos que fizeram de vela quando o vento soprou no mar.
Cada dia que aflora a minha vida, mais se sente a lacuna das raízes que não me amarram ao chão.
Quem me dera poder beijar o sol e incendiar os ventos da indiferença. Ter a coragem de olhar a lua de frente e mergulhar sem medo no mar exaltado, esquecer-me de mim e lavar os meus pecados. Penso muito, penso demasiado…
Serei eu um ladrão de sorrisos, que rapina júbilo a quem me rodeia?
Será que roubo pequenos pedaços de estrelas, sonhos e promessas?
Não, eu não colecciono gargalhadas, palavras de amizade e confiança, nem junto tesouros infindáveis numa cave escondida.
Volto a pensar se serei um “Eduardo mãos de tesoura” que por mais que faça acaba por magoar aqueles que ama?
Por que motivo ao estender as minhas mãos, provoco estranheza e dor?
Custa-me pensar que a única forma de não me magoar, nem magoar os outros, é pelo afastamento.
Terei de agir como o verdadeiro Eduardo? Isolar-me e viver numa mansão junto das estrelas, distante de todos, e exprimir o meu amor esculpindo pedaços de gelo para que as pessoas que amo me entendam, sintam o gélido sentir que me imputam?
Será que terei de viver como num conto de fadas, que, apesar da diferença que sinto, tenho sentimentos, amo, e também sou ferido?
Para mim, as mãos de tesoura de Eduardo são apenas uma metáfora da dificuldade em expressar sentimentos, em se relacionar com os outros como tantos de nós que vivemos este os ínfimos dias deste mundo.
E são dias impossíveis de serem iguais, os dias diferentes de todos os dias.
Somam-se as diferenças da igualdade e temos dois dias iguais. O somatório da verdade.

Serei um "Sonhador mãos de tesoura"?

quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

Quando a lua se esconde



Desde petiz que sempre pressenti que a noite nascia pelo seu odor. O aroma escuro acariciava-me as faces. Hoje avassala-me o espírito e a alma.
A de hoje estava particularmente abafada e o calor penetrava pelas janelas do meu quarto.
Estou agora na minha cama e nem sei como aqui cheguei.
Não, hoje não vou adormecer. Quero e necessito viver a noite. Coisa que não faço há imenso tempo, ou quase nunca fiz.
A tua presença está em mim e sinto-te. Tal como um sonho delirante, apenas te vejo a ti e vivo a vida num breve instante.
Vou ao teu encontro. Quero continuar a sonhar contigo a meu lado. São delírios de uma mente amante. Sonhos de um homem mendigo de amor que sonha de olhos abertos.
Sei que nunca me abandonaste, sempre me protegeste, respeitando as minhas escolhas, enquanto eu, me refugiava nos dias que passavam analisando as minhas inseguranças na esperança de obter respostas.
Mas há coisas que não têm explicação nem resposta, simplesmente são.
Sonho contigo e pensei que poderias ser a chave que balança hesitante no colo da fechadura do meu viver.
Sofro o desvario e a loucura porque me sinto uma semente vazia, um fruto podre no meu despotismo, sem folha, flor ou fruto.
Sinto-me um barco inacabado a percorrer águas estagnadas que me amarra ao leito do meu torpor, e perco-me nestes pensamentos, escondo a tristeza por entre a minha janela que se fecha na escuridão da noite. É como se ao sonho faltasse o delírio e como se ao delírio faltasse o sonho.
Abdiquei da saída noctívaga e narcotizei-me a pensar que acordava apenas daqui a uns anos num qualquer apeadeiro, numa cratera da lua.
Vi que das estrelas caíam palavras que juntinhas faziam uma frase de um texto nu.
No entanto sei que habitamos a força gravítica da terra onde podemos ser pensamento, mesmo triste, mas onde a vida existe. E, só ela responde quando a lua se esconde.

segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

Voltarei


"Nunca tiveste aquela sensação de amares alguém, de amares alguém muito, e as circunstâncias em que a tua vida acontece destruírem a possibilidade desse amor, apesar de ele continuar a existir dentro de ti?"

João Tordo in Hotel Memória

segunda-feira, 14 de Setembro de 2009

Striptease da alma



Chegaste numa noite de luar e disseste um “quero-te”, devagar.
Eu disse que sim.
Aliás, nunca soube dizer não, principalmente a uma menina bonita, nunca soube dizer que não, sobretudo a uma menina bonita enrolada num vestido curto, nunca soube dizer que não, especialmente a uma menina bonita enrolada num vestido curto, de alparcas nos pés e a sussurrar coisas cálidas ao ouvido.
Eu sorri-te e fomos felizes por um tempo. Recordo para todo o sempre o nosso primeiro dia em que nos beijámos atrás do pavilhão da ginástica. O tempo é sempre curto para fazermos tudo o que queremos. E é sempre longo demais porque passado algum tempo morre a pirexia do amor.
Esse dia reflecte-se hoje no tecto vazio para onde estou a olhar há duas horas e quarenta e sete minutos. Foi o princípio do fim.
Foi o princípio de um mês de ternura lubrificada em que cada momento e era intensificado ao limite. Fomos carne ardente de desejo por um tempo. Foi o princípio do fim da ilusão que pode haver calor para sempre, foi o fim do engano do “para sempre”.
Mas não podia ser de outra forma. Porque quando aos treze anos, no casamento de uma prima, dancei com a Lena, a tal menina, tive pela primeira vez consciência do desejo.
Nessa altura deveria andar apaixonado pelas doze colegas de turma ou por alguma rapariga mais nova da turma do Pardal.
Mas a Lena foi, nessa dança, o amor. Sim… nesse tempo longínquo existia amor, paixão, fantasia e alguma dose de inocência.
Sou um homem de cinquenta anos e avistem que ter cinquenta anos hoje é muito diferente de tê-los há cinquenta anos atrás.
Perguntam vocês, porquê?
Porque somos pessoas de dois séculos. Conhecemos o século passado e o presente. Crescemos nas pré-tecnologias informáticas do “ZXSpectrum” e assistimos à mudança de toda uma sociedade que se encontrava amordaçada e que sem arreios galgou sem prudência o muro da liberdade. Pertencemos a dois mundos, um, quase medieval, o outro, que lembra as histórias de ficção científica do “Espaço 1999”.
Ter hoje cinquenta anos vale mais do que nunca!
Mas o que me trás a este tema?
Há bastante tempo que me deparo com coisas neste mundo virtual, que é capaz de abolir a paciência a um “Santo”.
Que o mundo é cruel, todos nós sabemos. Que é cruel, porque as pessoas o são, também todos sabemos.
Em tempo de tanta mulher exposta, eu continuo a afirmar que gosto de as despir nuas, para as poder pintar na sua essência. Trabalhá-las com as mãos de um artesão como uma peça de porcelana.
Porque hoje em dia talvez a verdadeira excitação esteja em ver uma mulher despir-se na sua verdade, desnudar-se emocionalmente.
A banalização da nudez explícita que se observa pelos cantos é devastadora para a mulher e castrante para o homem.
O que não falta é candidata para tirar a roupa.
Serviu de figurante numa novela, tem um corpo jeitoso… Capa de revista da Playboy. É prima aluada de um jogador de futebol posa nua, porque o primo mete a cunha na Maxmen.
Caiu de um terceiro andar e saiu ilesa. Entrevista para a televisão… E já agora umas fotos para um artigo da FHM?
Ganham uns euros. O marido ou o namorado dá o seu apoio porque o dinheiro até faz falta, o pai fica orgulhoso, a mãe acha um acontecimento, as amigas invejam, então pudor para quê?
E porque a Concentração Internacional de Motos do Algarve não é só caveiras, fatos de cabedal e motociclistas de alta cilindrada, o palco principal do festival o aclamado concurso da Miss T-shirt Molhada. E chega para todas.
As motards mais desinibidas e com alguns atributos também têm a sua oportunidade de mostrar que a sensualidade também anda sobre duas rodas."Gosto muito do strip, seja de mulheres ou de homens", garantia uma jovem espanhola, na primeira fila a um amigo que nunca faltava a este e outros eventos do género. Coreografias, arte e expressão não eram o principal motivo para a jovem estar atenta ao palco. "Quero mesmo é ver corpos nus."
Não será muito mais intenso assistir a uma mulher desabotoar os botões da sua fantasia, da sua dor ou da sua história?
Não é muito mais erótico ver uma mulher que sorri, que chora, que vacila, que fica linda sendo sincera, que fica uma delícia sendo divertida, que deixa qualquer um maluco sendo inteligente.
Não é fácil tirar a roupa e ficar pendurada numa banca de jornal mas, difícil por difícil, também é complicado abrir mão de pudores verbais, expor segredos e insanidades, revelar o interior.
Despir a nossa alma e mostrar quem somos, o que vestimos por dentro.
Mas desnudar-se assim não é para qualquer mulher porque só mulheres especiais e maduras o fazem com intensidade.
Eu não conheço striptease mais sedutor?
E, vocês?
Já agora… vale a pena pensar nisto!




Este texto nasceu após a leitura de uma crónica da jornalista Martha Medeiros (Outro tipo de mulher nua…)


Imagem: Google

segunda-feira, 7 de Setembro de 2009

O sono da mentira

Não falamos, nem sorrimos. Os olhos sentem vergonha de nós e por essa razão evitam-se.
O meu sono teima em chegar, o teu abraça-te e leva-te para um mundo de mistério e luz.
A tua boca entreaberta em finos sopros de hálito quente tolhe-me o pensamento e o sossego.
Os anos galoparam como um cavalo de corrida. A distância da meta era diferente para cada um de nós e, quando se corre sem o mesmo objectivo, o percurso é sinuoso, torturante e o triunfo quase sempre intangível.
E depois do apogeu, sempre chega o declínio, e não tardou muito até que o nosso idílio de amor se revelasse como uma tragédia de Shakespeare.
E como “ser ou não ser, eis a questão:”, lembro com nostalgia a nossa epopeia. Uma trajectória algo atribulada e nem sempre pacífica.
Eras uma pequena rebelde, extravagante e imprevisível. Mas na mesma dose de bravura que te caracterizava, possuías ao mesmo tempo uma serenidade estranha, que me cativou.
O teu corpo era tão feito de sol que aquecia meus poros cristalizados de lua... e, eu via a lua através do teu corpo, e a noite lunar que te aflorava o rosto.
Passaste a dormir no início do meu segredo. Dormias por ti e por mim.
Eu continuava mudo de voz e de sentimentos. Respirava as horas suspensas no ar e aspirava música rock debitada por um rádio a pilhas enquanto recostava no corpo da noite que me fazia companhia.
Já alterei algumas coisas na minha forma de estar, mas não me peçam mais daquilo que posso dar.
Não prometo o que não sei se posso cumprir. Tento, luto por, mas não invento nem crio falsas expectativas.
Por essa razão idealizei fantasias, ilusões. Nada, tudo sem qualquer resultado.
Em surdina começo a ouvir vozes que me fizeram acreditar em algumas coisas na vida, que me deram conselhos, mas também houve outras que me derrubaram, fizeram-me cair, sentir-me num precipício. As vozes passam a ecoar cada vez mais alto. Estão dentro da minha cabeça, parecem querer estoirar-me os miolos.
Desamparadamente deixo-me cair. Teria alguma vez sido amado?
Será que conheço o verdadeiro significado do amor? Na realidade, não sei se sei.
Sei sim que me sinto fraco. Desgastado por meio século de existência e muitos anos de marasmo.
Por vezes quero sorrir, mas a tristeza está vincada na expressão dos meus olhos. Já não logro ninguém. Cada vez mais, acredito no que diz o poeta La Rochefoucauld, quando diz que “O verdadeiro amor é como a aparição dos espíritos: toda a gente fala dele, mas poucos o viram.”
·
Uma noite de insónia e tracei no papel da memória o percurso da minha sombra.
Não se ela também deixou de me seguir.
Eu numa apatia aterradora diária deixo-me enterrar no sofá de sempre, acende o cigarro da angústia, levo-o serenamente aos lábios, e inundo os pulmões de alcatrão, para que o negro possa cobrir igualmente a minha alma que acredito estar dentro do peito.
As malas meio feitas, os olhos postos num horizonte que também já não existe. A hesitação. Ainda, e sempre, a hesitação.
Para trás, o sonho que um dia também foi meu. Meto as malas no carro. Lembro-me que me esqueci do casaco de camurça. Não volto atrás para o ir buscar. Apenas um ser me segue. Aproxima-se para se despedir. Rogava-me apenas uma simples festa. Para ele é suficiente. Se ficasse, agora, seria por ele. Por aqueles olhos tristes que não entendem. Sento-me no carro, fecho a porta, ligo o motor. O portão está à minha frente, à espera. E eu preciso de me encontrar, e por isso vou.
Nem por aqueles olhos tristes poderei ficar, se ficasse agora, toda esta luta ficaria por ganhar.
Passo o portão e olho uma última vez pelo retrovisor onde antevejo os dias passados, as tardes cor-de-laranja, o barulho das folhas das árvores, e os sorrisos. Levo-os todos na mala, quase feita.
Nunca poderei olhar nos olhos daqueles que me poderão fazer ficar, porque sei que à mínima hesitação, eu fico. Por essa razão não me deixo fracassar e sem mesmo olhar, conduzo, mantendo os olhos no horizonte inexistente que desenho a cada segundo.
Respiro profundamente, fecho os olhos por segundos e sei que irei na direcção certa, ao passar aquele portão. A verdade está no horizonte à minha frente.
E o horizonte ao crepúsculo tem a mesma cor dos olhos que vejo reflectido em ti. Mas, parto. Resoluto. Decidido. Sem me despedir de ti, sem me despedir do lugar, dos vizinhos, sem me despedir sequer do cão de olhos tristes.
Quanto a ti, meu querido amigo, recordarei sempre os teus olhos melancólicos, o olhar de cãozinho abandonado, o teu ar sorumbático, e se estiver escrito sei que me voltarei a encontrar contigo noutra volta do caminho. Parto, pois. De olhos postos no horizonte.
Partir é necessário. Levo aos lábios um cigarro que retiro do maço Ritz. Aquele será o primeiro cigarro do resto da minha vida. O maço é preto, a luz é alva. A noite é morna. A estrada corria monótona e sem fim.
Acompanhado pela maresia da noite e pelo borbulhar das ondas do genérico do “Oceano Pacifico” viajei sem rota certa.
Íamos pela beira-mar sem darmos as mãos. Já não dávamos as mãos nessa altura. Lembras-te? Passava a vida alheado. Naquela tarde junto às ondas que vinham descansar na areia por breves segundos partilhámos o ar morno do fim da tarde pois já nada mais havia a fazer. Senão aproveitar o momento.
Todos os momentos são preciosos e, esses instantes, as únicas coisas que tínhamos em comum. O momento.
E a vida é composta por momentos ritmados como as notas de uma sinfonia de Vivaldi.
Mas recordas que sempre me senti num espaço que não me pertencia.
Um estranho no meu próprio espaço. Por vezes odeio aquele que me envolve. Como abomino esta cidade com capa de puritana.
Como detesto os habitantes da desgraça que se recolhem nos templos para rezarem a um Deus sem rosto que não sorri. Saírem de lá como se tivessem a alma lavada para, depois, meterem as mãos entre as coxas da cidade a babarem-se como touros com meia dúzia de ferros e carícias de olhos arregalados, os lábios a endurecerem com o cheiro de um corpo à espera onde deixam a solidão, a mudez da mulher, a correria dos filhos, a indiferença do cachorro.
Eu sempre alheado de tudo e todos. Cada vez sentindo uma alienação mais contundente.
Nada do que me dizias me poderia interessar. Eu já não era dali. Não era teu. E sabias. Não te dava muita paz.
As rochas da praia eram minhas. As gaivotas do céu eram tuas. E assim se faziam as partilhas entre nós que em breve estaríamos apartados para sempre.
Vou fugir? Talvez de mim.
O céu espera-me, os rios pertencem-me. Posso mergulhar neles quando o desejar. Chapinhar na água e fingir que os peixes gostam de mim. O vento e a chuva já não me assustam.
Vou ser como os pardais que saltitam de árvore em árvore, que buscam a comida no chão num bicar desaforado entre folhas e pó.
A sombra continuava a deambular na procura de mim e de ti.
Encontrou-te na esplanada. Sentou-se e pediu um café, tu uma água com gás. Bebidas de sabor distinto. Porque já éramos distantes. Foi acontecendo assim a separação de quem era há muito separado. Unidos tínhamos sido embora que leve e fugazmente. Tão efémero foi o acordo que não poderia ter sido mais inverosímil a consequência. Um filho, que deixarei para o mundo como um decalque de mim. O decalque de mim foi crescendo, eu encolhi. Encafuei-me no lar, ganhei bolor, julgo que apodreci a comer cebola todos os dias a todas as refeições.
Os vizinhos deixaram de me reconhecer, os cães começaram a ladrar-me. E eu não sei mesmo como sossegar, porque mesmo morto permanecerei deste lado. Aqui!
Se me custa a vida, mais me custa uma morte em que perco o que me resta, o meu derradeiro poder de decidir se fico em casa ou saio, se faço ou deixo por fazer.
Morto, sem apelo nem agravo, virão primeiro uns tipos de bata branca despir-me, amassar-me, invadir-me. Posteriormente virão outros de fato preto, camisa branca perfumarem-me de incenso e taparem-me o corpo gélido com um lençol branco e que emana o mesmo odor. Mas, morto, sou como um pedaço de carne de matadouro, que só ninguém come porque ainda não chegou a fome! Mas, não faltará muito.
Como fazer o que é preciso fazer? Como escapar a esta ideia de que morremos e ficamos à mercê dos indiferentes ou dos inimigos? Pura e simplesmente desaparecer - desaparecer mesmo desaparecer - como esses de que fala o jornal da noite na televisão, que desapareceram sem ninguém dar conta e por isso ninguém há-de encontrar. Porque de facto ainda estamos no princípio… De quê?
·
Entretanto a madrugada engoliu a noite, e a brisa folheava-a aleatoriamente, descortinando os segredos ali apostos, incitando os sonhos que rondavam o sono que me chegara muito profundamente.
Acordei como um sonâmbulo. Passei água fria no rosto. O espelho devolveu-me uma figura sem expressão, sem vida, sem esperança, onde apenas era visível a barba de dois dias que me cobria as rugas do desespero.
Entreabri a janela. A custo mirei de longe a velha, caquéctica, amarga e dócil, Lisboa.
O Tejo já tinha despertado e os cacilheiros já lhe provocavam pregas profundas nas suas águas deixando um rasto de espuma como o do champanhe aberto no Maxime por uma espanhola da vida já em fim de digressão que recebe um cliente bêbado a cantar em voz rouca “o fado da sina” para despejar a dor de corno e o ciúme.

Reza-te a sina/Nas linhas traçadas/Na palma da mão/Que duas vidas/Se encontram cruzadas/No teu coração/Sinal de amargura/De dor e tortura/De esperança perdida/Indício marcado/De amor destroçado/Na linha da vida. (1)

A minha sina é sofrer, sarar feridas originadas por cada aresta da vida. Queimam no peito as cicatrizes profundas que ainda sangram e pulsam.
É tempo de fazer uma pausa na monotonia do tempo. Até o próprio cansaço descansa em mim. Triste sina a minha que embarquei neste barco sem amarras que assoprado pelo vento percorre mares desconhecidos.
Soltam-se as vozes na escuridão e no espaço que me engole. Escuto o fado, sentindo o pecado, que me leva para onde não quero estar.

(1)"FADO DA SINA"
LETRA E MÚSICA: AMADEU DO VALE E JAIME MENDES

In: A filha que nunca tive (não editado)

Imagem: Google

JC

sábado, 5 de Setembro de 2009

A ferida do silêncio


"Existe no silêncio uma tão profunda sabedoria que às vezes ele se transforma na mais perfeita das respostas!"
(Fernando Pessoa)


É mesmo verdade, cheguei aos cinquenta anos. Não dei por qualquer transformação. Não senti a mágica que me devia ter invadido. O tempo passou como a coruscante luz de um relâmpago numa noite de estio.
Sei que não sou, não quero, não ambiciono, nem tenho o atrevimento, de querer ser exemplo para alguém. Devo ser o mais perfeito exemplo da imperfeição.
Penso nas cinquenta voltas da minha vida, nas promessas de eternidade que nunca se cumprem.
Penso nas relações que se juram sólidas e ao cair do calendário acabam. Penso nos dias que me levanto com a alma reduzida e me deito com a sensação de que nada na vida é eterno.
Flutuam emoções que vão mudando. Houve um tempo em que sabia que a minha vida ia ser especial, distinta. Ideais, valores e razões para lutar. Hoje vejo-me preso na monotonia, na cor cinza, na existência com uma única razão a de lutar por mim mesmo sem grande firmeza. No fundo vivo longe do mundo submergido na deliciosa melancolia.
E sei que enquanto sentir medo da chuva, todos os pingos serão uma ameaça e eu, apenas uma poça de água no teu inverno.
Como seria bom levar-te a ver o mundo nos meus olhos.
Sabes, as pessoas são como livros. Apaixonantes, divertidos, aborrecidos, insuportáveis.
Há os que tem somente três páginas mas inesquecíveis, há os que duram meses e gostas muito mas não os voltas a ler, há os que não te dizem nada e há aqueles que não voltas a olhar mas recordaras para o resto da tua vida. É tão difícil encontrar as boas pessoas como os bons livros. Obrigado a todos que são para mim como os meus livros de companhia. Nunca deixarei de reler as vossas páginas com amor.
Há quem não goste do silêncio. Muitos têm medo dele porque faz pensar. No silêncio a mente indaga de si para si e algumas pessoas preferem tudo já explicado e esclarecido pelos outros.
Eu não tenho medo do silêncio em que me perco.
Mas estou cansado. Sempre me entreguei complectamente.
Ja não há nada que me possam extorquir, porque já nada tenho. Sou um corpo sem dono, pertenço ao fundo dos grandes oceanos, ao voo das aves errantes.
Nunca amei e nunca fui amado? Ignoro se isto é verdade. Não sei responder. As dúvidas assolam-me o coração
Olha, quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti. Cobre-me o corpo gélido com um desses lençóis com odor amantético que alagamos de beijos quando as horas eram outras nos relógios do mundo. Depois leva-o depois para junto do mar, onde possa ser apenas mais um poema.
Quando eu morrer, deixa-me a ver o mar do alto de um penhasco e não chores, nem toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me que rasgas todos os meus escritos em pedaços tão pequenos como pequenos foram sempre os meus ódios e depois parte sem olhar para trás nenhuma vez. Se um dia, alguém os vir de longe brilhando na poeira, cuidara que são flores que o vento despiu, estrelas que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.
Afinal porque teria medo do silêncio em que eternamente me perdi.
JC
Imagem: Google

segunda-feira, 31 de Agosto de 2009

Adeus a mim!

A tristeza inunda-me o coração. A dor é inaudível, mas feroz. A alma, essa já não padece. Anda perdida num oásis despojado de água, sentimento e esperança.
Preciso pensar…
Mas será que ainda o sei fazer? Já duvido de mim, e de tudo o que me rodeia. Será que alguma vez soube pensar?
Porque vivo em perfeito desassossego na companhia da nefasta solidão?
Porque existe um silêncio constrangedor entre nós? Um silêncio danado que devora todas as palavras que dizemos um ao outro?
E eu que consumo palavras para que não morra, que gasto a tinta das minhas veias para desenhar na folha branca o verbo copulativo do meu sujeito e do teu predicado. Devia descer para a plataforma do destino e morrer para ressuscitar! Só assim poderia recomeçar a ser eu. Recomeçar de novo.
Porque me perdi de mim?
Porque te perdeste de ti?
Porque nos expulsámos de nós?
Como eu me anojo do meu mesquinho mundo.
Preciso pensar…
Que esconso espectro nos separa da vida como uma paralalia diagnosticada numa simples rotina médica.
Eventualmente apenas nos resta a Lua que temos vigiado e vivido todas as noites.
Por isso e sem demora vamos deitar-nos no seu leito antes que ela se dane e nos deixe desamparados como dois espantalhos arraigados em terra.
Preciso pensar…
Sei que não sou eloquente como devia, frutífero como queria, mas sou afectuoso como o repousar do crepúsculo no teu rosto, meigo como o espumar das ondas do mar quando à noite vêm beijar a areia da praia.
Tenho noção que há o tal espaço que nos afasta, mesmo quando os meus braços te embalam para que adormeças na tranquilidade do meu calor. Existe um tempo que nos separa, mesmo no ritmo sinusal do bater do nosso coração.
Quem sabe se não existe um fecundo silêncio que diga tudo o que as meras palavras não dizem.
Preciso mesmo pensar… Dizer adeus.
Adeus a mim!

JC

Imagem: Google

segunda-feira, 24 de Agosto de 2009

Encontro Ocasional


Desta forma o sonho tornou-se realidade.
O abismo que separa o sonho da realidade tinha sido superado. Não havia forma de retroceder.
Estava feito e agora sim, a velocidade em que percorria o carreiro deste ano era já de cruzeiro.
O ritmo iria aumentar subitamente e de forma aterradora.

Entro num café. Sento-me numa mesa.
Dessa mesa que se encontra mais perto da montra, sigo as gotas que serpenteiam, distorcendo o trânsito da hora de ponta.
Ainda não escureceu completamente e sobre Lisboa, uma nuvem escura paira, resultado imaginado do cúmulo de todas as “neuras” dos periurbanos que regressam atravessando o rio.
Apesar de escuro, o céu nublado não suaviza os contornos da praça.
Em vez disso a luz filtrada pelas nuvens pesadas de chumbo destaca cada racha, fissura ou telha musgosa dando aos prédios distribuídos em ferradura um ar tristemente ameaçador.
Pendurado no cigarro, na ponta dessa corda mágica que se desenrola em hesitantes convulsões até ao tecto, pareço representar para um público invisível.
Levo lentamente o cigarro à boca e aspiro, concentrando toda a minha atenção no som do tabaco que se incendeia. A incorporação do fumo dilui a minha existência material, aproximando-me do estado etéreo, longe da plataforma do comboio em que me despeço de mais uma tentativa envergonhada a uma vida “normal”.
“Tabaco só na máquina!” Atira pelo canto da boca o empregado do balcão.
“Então podia-me trocar esta nota de 20 Euros?” A voz é feminina e a maneira como se arrasta nos ”nh’s” deixa transparecer uma ponta de periferia.
Estou de costas para a porta. Já conheço o empregado e guardo por ele uma embirração especial. Conheço-lhe o prazer de desagradar tão pouco condizente com a sua profissão, mas tão presente nos criados de Lisboa.
Dirige-se para a máquina. Estou de costas para ela enquanto oiço o som das moedas a entrar na ranhura. Tantas melancolias há instantes. O etéreo e tudo isso. A perda... sentimentos um pouco doces de tão pesados, rapidamente afastados pela mão desta ajudante de cena que agora atira para o bar (des) povoado de clientes e pelo empregado ordinário:
“Nunca faço isto! Entrar num bar vazio!”
Falar para a nuca de um homem que bebe cerveja, pendurado pelo nariz à última réstia de consciência?
Consigo ouvi-la inspirar lentamente e sigo algures na sua zona occipital o peito dela a elevar-se por baixo da camisola de lã.
“Isto de comprar tabaco. Normalmente fumo o que me dão.” Viro a cabeça e sinto-me na obrigação de esboçar um sorriso. A franja, que não consegue decidir se avançada ou extremamente fora de moda, esconde-lhe um pouco dos olhos redondos.
Tira o maço da máquina e senta-se na cadeira à minha frente “Posso?” Finamente sorrindo.
“Podias ter dito!” Indico com a mão o maço. Acende o cigarro e fica para ali a ser admirada. Eu faço-lhe a vontade. Enquanto os meus olhos se passeiam pela linha da cintura e pelos seios pequenas ela rebola os olhos com um canto da boca revirado (por prazer ou feitio) até se fixar nas gotas que escorrem na vidraça.
Chego a uma conclusão engraçada, se estivermos atentos, sedução e luxúria estão por toda a parte, rodeia-nos de tal maneira que se queremos sair é deveras complicado furar a barreira que nos circunda.
Mais complicado ainda é depois de inseridos, tentar que as coisas passem ao lado.
É deveras complicado. A tentação é muita e a idade desperta-nos um requinte que nos era anteriormente desconhecido.
Talvez, também nos dê um certo charme que joga a nosso favor.
Já a conhecia de algum tempo a esta parte.


Texto: in "Ano Louco"
Imagem: Google

domingo, 16 de Agosto de 2009

Praia


Não há nada como uma ida à praia para, me pôr bem-disposto! O sol a abraçar-me a pele, a areia nos cantos mais recônditos do nosso corpo e foi com este pensamento que ao fim do dia me dirigi à praia.
Sinto-me no fim do mundo, porque nesta praia quase vazia, parece que estou completamente só. Sento-me numa duna, abraço as pernas e aplaco o mar com o meu olhar. Num devaneio olho para o lado e vejo-a sentada noutra duna a cerca de dez metros de mim.
"Não é possível!" Penso para comigo, quase espantado por existir. Mas é verdade estás ali, no mesmo local que eu, à mesma hora, sem que nada o previsse.
Sorris-me, como se adivinhasses a minha surpresa, ou a esperasses há já muito tempo.
Enquanto me sorris, eu levanto-me e vou ao teu encontro.
- Olá mulher linda. Disse eu sorrindo.
- Tive saudades tuas. Dizes com um sorriso de olhos, aqueles em que me perdi na primeira vez que te vi.
Pego-lhe num fio de cabelo, que sorrateiramente se esgueirava para dentro do vestido e puxa-o para fora. Brinco com ele, enrolando-o nos dedos.
Deixei escorregar, a mão ao de leve pelo seu peito, em seguida pelos ombros, pelo pescoço, traçando os contornos, como se as minhas mãos fossem um lápis.
- Quero desenhar-te.
- Já o estás a fazer. Diz ela com a voz quase em surdina.
- Mas quero desenhar-te toda. A minha mão continua traçando linhas já existentes, até às suas pernas.
Destapo-lhe o resto do seio, que indiscretamente se mostrava, e toquei-o, fazendo pequenos círculos à sua volta, deixando-o rijo, arrepiado e enchendo-a de desejo.
Preparo-me para a beijar e nesse instante, com toda a agilidade ela foge. Corro atrás dela, e nem hesito em ir apanhá-la ao mar.
Já na água, o meu braço molda-lhe a cintura enquanto ela solta risos de criança, e pegando-a ao colo, coloco-a novamente na areia.
Deito-a na areia e o meu corpo cobre o dela. Olha-me com insistência e essa imensidão de olhos é devastadora para a minha alma, pois invade-me como jamais o senti.
Nem sequer dá para evitar deixar que isso transpareça. Penso em a beijar, tocar, acariciar e que o amor se fará naquela praia (deve ser o que desejo), mas surpreendeu-me, pois abraçou-me e disse-me ao ouvido que esperou por mim a vida inteira.
Em seguida, levantou-se, secou o corpo embebido em água que o vestido absorveu, pegou-me na mão e conduziu-me perto do seu carro.
- Esperei por ti a tarde inteira naquela duna. Sabia que virias até cá, como sei que nos vamos voltar a ver?
- Mas, como sabias que viria aqui? Perguntei eu.
- Li o teu pensamento, ainda antes de o teres pensado.
Beijei-a e sorri com um ar de ternura, enquanto lhe afago os cabelos, para logo a seguir me afastar lentamente, olhando para aquela imagem que ia ficando menor à medida que me afastava.
Há, pelo menos uma certeza que tenho, é que nos voltaremos a ver.

(Só espero que da próxima vez, pelo menos consiga desbloquear-me e perguntar-lhe o nome...)
Afinal nem a voltei a ver nem fiquei a saber o seu nome.



Texto: In Ano Louco


Imagem: Google

domingo, 9 de Agosto de 2009

Utopia


Olho o horizonte e avisto utopia!
Revejo-me à procura da nossa melodia perdida.

Uma vida de sonho, eu não consigo ter!
O íntimo sinto perder... o vazio estranho vejo crescer.

Procuro por mim, procuro por ti
Quero emoções que outrora senti.

Procuro um olhar
Desejo-te amar...

A solidão que sinto ao luar...
És tu sereia do mar.

A mão que se perde à procura da tua
Como a minha pele ardente e nua...

Desejo o teu corpo amarrado ao meu
Anseio ternura do teu olhar que já se perdeu?

Agora é noite na minha alma
Noite inacessível, noite cerrada

Noite sem estrelas, noite sem ternura
Noite sem ti, noite sem aventura

Noite... e mais nada.
Espero,
Desespero;

E continuo à tua espera… sempre!
JC


terça-feira, 4 de Agosto de 2009

Dor de amor




Dizem os entendidos, que a dor de amor dói para sempre. Não sou especialista nem o pretendo, mas julgo que o tempo varre as folhas caducas das árvores e sopra para longe os estigmas do amor.

Uma amiga disse-me um dia, que pensava seriamente que a dor que sentia iria durar para sempre. Que seria eterna.
Sabia que não era dor física, daquelas que um simples analgésico faria travar, ou mesmo amenizar.
Dizia-me ela que não tinha tido a sorte de ter encontrado um amor tranquilo. Era um amor dificultado por diversas razões. Claro que eu conheci-a bem e sabia do que falava.

- Sinto o meu coração esfarrapado como trapos finos e gastos. Dói.
Eu tinha consciência que aquele coração estava ferido que sangrava com o rasgo da dor.
Na sua cabeça, apenas via a imagem do amor na silhueta de um homem.
Que algum tempo a esta parte sentia o chão a fugir-lhe aos pés, um enorme buraco em que não queria cair. Mas, que por vezes pensava em lá se sepultar.
Não, queria viver. Viver bastante para lhe gritar aos ouvidos até o ensurdecer com a palavra amor.
Viver, para explodir o peito com tanto chorar.
Viver, para se poder matar e matá-lo.
Viver, para o matar para tentar renascer.
Viver, para sorrir quando ele sorria, chorar quando ele chorava, enfim poder transmitir-lhe o que sentia, de modo a que ele igualmente o sentisse da mesma forma.

Por vezes queria ter o condão de lhe poder abrir o peito arrancar-lhe o coração e colocar lá o meu.
- Vá toma… experimenta amar-me como eu te amo.
Outras vezes, rasgar o meu peito, tirá-lo dentro de mim e dizer-lhe:
- Vai… esquece que eu existo. Vai… segue o teu caminho. Já não preciso de ti.
No entanto venci-me. Matei-o no meu coração. Doeu! Muito. Uma dor que não se apaga e que incendeia pelo enorme ardor que emana.
Oh, triste ilusão! Um amor deste tamanho não se consegue matar.
- Sonhei tantas vezes com o momento de te deixar que cheguei a odiar-te. Sabias? Amava-te, odiava- te. Odiava mas amava.
Sufocava-te com o meu desejo. Estava viciada em ti de tal modo que já não sentia sofrimento quando me injectavas com a agulha da tua apatia.
Viciavas-me com teu olhar, afogavas-me com a tua voz e afundaste-me com o teu beijo.
Sei que dificilmente vimos à tona depois de nos afogarmos nas águas revoltas de uma paixão. E enquanto disputamos as ondas do tempo que nos querem atirar de novo para o fundo de nós e novamente nos enlaçar com o eterno sofrimento, eis que o tempo corre… passa, e volta a passar.

Hoje tenho que dizer que tens razão. Ainda te amo. Mas calmamente, com a suavidade dos anos. Sim! Ainda te amo. Mas já não me consegues viciar com os mesmo olhar e agora permito-me amar outras pessoas.
Sim! Na realidade ainda te amo. Todavia já não me afogas com a mesma voz e permito-me viver sem ti.
Sim! É verdade que ainda te amo. Mas na realidade o teu beijo deixou de ter a força gigante de quando me afundava em ti e permito-me existir para mim.
Mas ainda te amo.

Texto: JC

Imagem : Google

sexta-feira, 31 de Julho de 2009

Sonho


Continuo a minha caminhada, ainda em velocidade lenta. Tão lenta de início que não me apercebo se é sonho ou realidade.
Sabes, esta noite sonhei contigo, “Manela”. Entraste pelo meu sonho adentro sem eu te dizer nada. Sorrias e estavas bonita, como as últimas memórias que guardo de ti, a lembrança da miúda mais bonita da turma.
Devia ser verão, pois estavas com uma t-shirt pequenina que deixava perceber o biquíni, e sorrias como as flores coloridas que trazias por baixo.
Nesta noite falámos muito, contei-te as novidades todas, contaste as tuas novidades todas, falámos do tempo todo que passou, do teu curso inacabado e até falamos daquele concurso de misses em que entraste e ganhaste um prémio. Sorrias, bonita como sempre e como um filme que acaba passadas duas horas, naquela brevidade de tempo nocturno fomos felizes.
Desembrulho-me dos lençóis ternurentos e volto a ficar sozinho, dispo a roupa, (nunca gostei de pijamas, mas o frio irónico obriga a alterar as convicções) entro no duche e a água quente acorda-me para a brutalidade da manhã.
O microondas inteligente aquece o leite. Saio para a vida lá fora. Recebo um toque no telemóvel: “Cheguei. Estou à entrada, vem cá ter. Até já. Bjs.”
Cheguei à Fnac do Chiado e com um par de beijos seguidos de um café que aquece a tarde, quebrámos o gelo.
“Vem a minha casa. É bonita.” Dizes. “Vou oferecer-te qualquer coisa para a tornar ainda mais bonita!” Sorrio… só. Ficas sentada no sofá enquanto eu ponho um disco a tocar, música calma, uma escolha premeditada: tu gostas do piano de Bill Evans, eu coloco um disco de Bill Evans. “Sunday at the Village Vanguard”.
É domingo, não estamos em Nova Iorque nem num clube de jazz de uma zona fina da cidade, mas a tarde cai devagar e sabe bem.
Vais dizendo coisas variadas e mostras as compras acabadas de fazer: duas camisolas e roupa interior comprada na loja Women’s Secret.
Mostras-me como é o teu top e eu digo que não gosto das tuas compras, tu provocas-me dizendo que vestido fica muito melhor.
Não chegamos a confirmar a veracidade das tuas palavras, que fazes sempre acompanhar de um sorriso onde ocultas a possível maldade com uma dose de inocência verdadeira.
Sinto-me culpado desta amizade sexy e fico a pensar na improbabilidade de se ser fiel. Dizes que é tarde e tens de ir dormir, mas prometes, sem fazer figas, que me irás visitar em breve.

Saio à rua e o jornal triste não traz notícias sorridentes. Sento-me no café a observar as pessoas aceleradas que passam, um rapaz de cabelo grande tropeça e espalha livros e folhas pelo chão e a multidão segue apressada.
Demoro-me à mesa com a chávena vazia e mirar títulos cinzentos e penso em como morder a vida. Envio um SMS. Poucos minutos depois, o telemóvel nervoso avisa-me que vens.
Trouxeste o cabelo escondido, no rabo-de-cavalo do costume, a ocultar a magia toda que os cabelos soltos prometem. Naquela noite fomos o mundo todo.
Os copos de um vinho verde, Gatão, doce e suave como os teus lábios, amoleceram os corpos que se deixaram deslizar pela brandura quente da noite.
Comecei por ferver água para o chá e começaste por deixar transparecer dois centímetros da blusa à medida que me abrias a alma.
Fomos desejo ondulante guiado pelas músicas ternas ouvidas no Lamy, deixei a aparelhagem ligada toda a tarde e toda a noite, e mesmo deste lado do Oceano não se perdia nem uma tecla de emoção, as vidas destes desconhecidos tristes eram as mesmas.
Beijámo-nos demoradamente, acendeste um cigarro e adormecemos a pensar que foi bom.
Na manhã seguinte conseguiste ser mais fria que a pedra de gelo que arrefeceu o meu moscatel da noite anterior e foste embora sem fazer barulho.
Continuei perdido no mundo e não foste tu quem me salvou. Durante a noite sonhei com a “Manela”...
Acordei ainda com o sabor daqueles beijos, que me despertaram uma luxúria que não entendi.
Seria excelente que sonhasse todas as noites desta maneira, com mulheres bonitas, dóceis e sensuais.
Era mais que convincente que tinha dado início a uma fase da vida que me excitava e que de outra forma me trazia um sentimento de culpa que me ardia na alma.
Tinha pecado em sonho? Ou teria tido esta iniquidade acordado?
Em sonho ou acordado, tinha cometido um erro que por enquanto não era grave... mas, teria de admitir que os outros, também fugissem ao caminho rectilíneo da vida... nem que fosse igualmente em sonho.

Texto: In "Ano Louco" JC


Imagem: Google

segunda-feira, 27 de Julho de 2009

Sonho incompleto


É a realidade. Mas nem tudo é real na nossa passagem pelo universo. Por vezes o sonho parece-nos realidade. A realidade por vezes parece-nos um sonho.
Por vezes sonhamos cada coisa...
Uma noite fui esperar o meu rapaz e alguns colegas numa das escapadelas nocturnas que eles tanto apreciam.
Tinha combinado ir esperá-los ao Largo de Camões, mas como ainda era um pouco antes da hora previamente estabelecida, ao percorrer a rua da escola Politécnica, vislumbrei um lugar de estacionamento, por coincidência junto do Pavilhão Chinês, um milagre às sextas-feiras à noite por aquelas banda do Bairro Alto.
Por ali fiquei dentro do carro, cerca de uma hora, ouvindo rádio e observando o estugar dos jovens de um lado para o outro entre risos e uns tragos de cerveja.
O local fixou-se de tal forma na minha mente que uma destas noites sonhei com o local e como sempre em todas as fantasias, com alguém que faz parte da nossa convivência ou algo parecido.

Os olhos arredondaram-se-lhe. Agora já não se parece tanto com aquela que entrava no Pavilhão Chinês. Bar actualmente na moda da vida nocturna Lisboeta.
Há algo de Paula nela. Na maneira como revira o canto da boca um pouco divertida e na forma como me diz ainda olhando para a janela: “desde os meus catorze anos que os homens são para mim o meu desporto.” Vê-se pela tibieza da carne dos seus braços, a suavidade da textura das suas pernas.
Sinto-as quando as olho, elásticas, mas tenras como a carne de um animal só alimentado a prazer. “Na minha primeira vez tive que sair pela janela da cave que dava para a Almirante de Reis.”
Ri-se como uma menina de catorze anos, mostrando os dentes brancos que rapidamente oculta por timidez tardia. Está finalmente noite lá fora.
A súbita agitação provocada pela passagem do autocarro sobre o alcatrão molhado acompanha a porta que se abre de rompante.
Alguém agitado entra no bar praticamente vazio e fica a olhar para as minhas costas. Sustento o olhar até que um arrepio me percorre a nuca, forçando-me a virar.
A cara de quem entrou, está ligeiramente oculta na sombra, causada por qualquer estranho efeito que me escapa. Fico ali a olhar para ele, este homem alto, por baixo de uma gabardina bogartiana.
“Sim?” Agora a cara sorri e sai da sombra, “Janeca?!”
O que faz aqui o “Janas” que conheci nas “Baútas”?
Está mais alto... e largo. Estranho, só se passaram seis meses.
Januário contorna a coluna que está entre a porta e a mesa e no mesmo movimento senta-se entre mim e a jovem mulher.
“Estou à rasca, percebes?” Diz-me muito perto da cara ainda com aquele sorriso apalhaçado.
Decresceu. Devia ser da sombra. “Lembras os longos telefonemas para Lisboa com uma tipa de Tomar?”
Pára e fica à espera como quem acabou de contar uma anedota e ninguém se riu.
“Vagamente...” De onde terá surgido a terceira cadeira? A rapariga olha os dois com um ar trocista. “Deixou-me... a ISABEL, diz que não tem a certeza... que não que ir para cama comigo!”
Mas pareceu-me ouvir outro nome, apesar da boca do Januário ter sido rodeada pelas letras I-S-A-B-E-L quando pronunciou o nome da dita.
”Está a dar comigo em doido! Ela vai telefonar...” O sorriso palerma não lhe sai da cara. Estava capaz de o esbofetear. O meu telemóvel toca.
“ É ela. Atende que tu já a conheces bem e talvez a convenças.”
Não, claro que não conheço ninguém de Tomar.
O sorriso e a campainha do telemóvel incomodam-me quase à náusea.
A luz que ilumina o bar é fraca, no máximo 25 Watts a pingarem sobre mesa.
Atendo a medo. “Está! João?” A voz rasga barreiras talvez impostas por mim, sem intenção possivelmente. “Isabel... como sabias que estava aqui?”
A voz dela aquece-me uma parte escura e fria algures entre a segunda e a terceira costela. “A tua voz João... é sempre tão doce. Sabes que ao fim de tantos anos continuo apaixonada por ela?” “Guardei um pouquinho numa caixa e quando me sinto só, liberto uma pequena sílaba que aspiro lentamente... já tenho poucas, por isso se não te importas vou guardar todas as frases que disseres a esse telefone.”
Um silêncio. “Com o Januário... é difícil... parece um pouco, como nós naquela última vez nos Açores.”
Fico confuso, da sombra estranha que agora cobre outra vez, a atónita cara do ”Janeca“ … este telefonema… tudo me confunde.
Mas, de uma coisa tenho a certeza: com a Isabel, só estive em Lisboa nos anos que a coisa durou com o Januário. “ Lembraste da lagoa?”
Não estive lá e agora faço memória e lembro-me do cinzento do mar, os seixos muito brancos e dos lagartos pretos de língua vermelha.
Dos cabelos dela ao vento junto ao farol dos Capelinhos. Nele, consigo cheirar o mar e tudo se torna cinzento.
Lentamente, percebo-me a emergir do colchão no qual estive embebido durante um tempo incomensurável.
Os dentes doem-me. Provavelmente estive um longo período de maxila fortemente fechada.
O sonho desvanece-se lentamente, substituído por uma enraizada mágoa, cocktail de sabores conhecidos.
Não repúdio a mágoa. Somos velhos conhecidos, e quando me surge de vez em vez, sorrio-lhe e percebo que o meu mundo é incompleto sem esta companheira de ilusão.
A mágoa, tal como a memória de Isabel, propagavam-se através do Oceano calmo do sonho.
Uma tempestade antiga que afundou barcos escavou furnas em encostas, onde o seu eco ainda se repete nas plácidas manhãs de Junho. Deu voltas ao globo da minha consciência amansando-a e ao tempo com o seu buril uniformizador.
Tempestades tão fortes não deixam de existir.
Mantêm-se como impressões digitais e criam o reticulado labiríntico da irracionalidade da alma.
Esta tempestade velha afaga ainda as margens da minha consciência como uma onda mansa pulsada do centro do imenso Oceano íntimo.
Está sempre lá, mas no ruído da vida acordada, o seu sinal perde-se.
Durante a placidez lisa e cinzenta do sono a mágoa volta como um arrepio sobre o mar aveludado em dia de nevoeiro quando sopra um farrapo de vento perdido.
A boca sabe-me a tabaco. A pele cheira a tabaco.
Não devia ter fumado tanto ontem.

Sempre o tabaco...


Texto: In "Ano Louco" de JC


Imagem: Google

terça-feira, 21 de Julho de 2009

Rute, não cresças!



Numa manhã de forte nevoeiro que abraçava Lisboa, F.J., sussurrou-me entre dentes e dois fumegantes cafés:

“Permiti que o coruscante do luar se aproximasse dos meus olhos e parti do Bairro Alto com as minhas mãos emporcalhadas na vergonha.”

Eu não me melindro com facilidade. Mas hoje de manhã no comboio ouvi uma conversa entre duas meninas, na primeira fase da adolescência, quase crianças, que, sinceramente me deixou chocado. Que raio de mundo é que nós vivemos, afinal?
Meninas de doze, treze anos que nem sequer sabem o que é masturbar-se, passam logo para o “vamos ver”.
Passar de brincar com bonecas, para o banco de trás do carro de um marmanjo qualquer, assim, directo, sem passar pela casa de partida, é falsear o jogo do crescimento.
O F.J., amigo de longa data, já tinha desvirtuado um dia uma nena, como se diz nas Beiras, de onde é natural.
Recordo com mágoa a narração, que não conseguiu evitar, por ele e principalmente por ela.
Hoje ser homem não é tarefa fácil. Quando nos abeiramos de uma mulher, devemos fazê-lo com bisturi e luva cirúrgica. Contava-me ele com maresia no olhar e a cabeça encolhida nos ombros como querendo pedir desculpa pelo injustificável.

“A rua estava enfarpelada de arraial, o cheiro da sardinha e do manjerico inundava-me as narinas provocando em mim um sentimento de liberdade festivaleira. De quem seria aquela saia preta que rodopiava de forma estonteante no arraial, e na mente de quem a via.
A música era uma grota que nos invadia os ouvidos, o vinho e a cerveja, a goela. Tal como a saia preta, também rodopiámos os copos em estridentes brindes e o álcool apoderava-se das veias do cérebro e do absurdo.
Havia o esplendor de um sorrir em meia-lua daquela jovem mulher. Inebriado com o flamante daqueles olhos verdes supliquei que me levasse em braços no delírio de uma dança.
A magia do momento caía-nos às carradas pelas faces vermelhas e insolentes de desejo.
Embalámo-nos adunados toda a noite. E nesse frenesim sem escolha esquecemo-nos por caminhos rodeados de silêncio, e duma escuridão conivente.
A ansiedade e o mórbido desejo cabiam-nos como fato em corpo nu. A brisa calava a música e os braços caíram nas dunas da ilusão.
Breves eram os toques dos seus lábios pintados de carmim, persistente o odor do perfume que vinha embalado em gotas de mar que nos salpicavam o corpo de sal temperando ainda mais o nu de roupa e de vergonha. A noite prolongava-se nos teus seios rijos e fartos de sonhos. Era ali que se espraiava a vontade dos excessos.
Libertaste a cor dos seios. A seda do teu corpo, a felpa íntima, a liberdade em fúria dos teus cabelos de trigo.
Eliminaste qualquer pudor e entregaste-me os teus gemidos esfomeados de gente. Perdi-me na voz da razão e atraquei na foz do teu corpo. Num grito escorreu-te a alma em sangue.
Ainda tentei encontrar romantismo na tua face vermelha, mas encontrei uma menina pálida de pavor. Chamei uma razão, mas apenas encontrei uma memória turva de uma saia que rodopiava nos meus olhos sem parar. Fugiste-me desamparada no momento, já feita mulher.
Desta vida ébria levo um travo amargo na boca desses teus olhos cor do mar revolto, que nunca mais provarei.”

F.J. tinha nesse ano de mil novecentos e noventa e dois, trinta e quatro anos, e seis enlaçados a uma mulher, que amou, amava e ainda ama, mas que Deus levou em dois mil e quatro, numa viagem a Angola sem retorno.
Rute completava dezasseis anos apenas em Novembro desse mesmo ano.
Hoje, entendo o desvaire do meu amigo. Crescem depressa demais. As bonecas são substituídas por sapatos de salto acrobático, batom e rímel. Os vestidos, por curtas saias, as blusas, por tops de rigorosos decotes.

“Sabes, eu na pior das hipóteses diria que ela tinha vinte anos.”

Como tu, Rute, muitas meninas semelhantes tentam parecer aquilo que não são. Porque abdicam de brincar? Com que motivo desafiam o percurso do tempo?
Tal como escreveu Philip Chesterfield numa carta a seu filho, “quem tem pressa demonstra que aquilo que está a fazer é demasiado grande para si.”

Eu por mim, concordo com o diplomata e escritor Britânico, e ainda sonho e procedo como uma criança castigada por ter crescido.

Texto: JC

Imagem Google

terça-feira, 14 de Julho de 2009

Em busca do tempo perdido #5 (Fim)


Hoje engravidei de sonhos. Se me fosse permitido sonhar sempre que o desejasse voava pela vida toda, escolhia nuvens balofas para percorrer o infinito, descansava nos coqueiros que ornamentam as praias dos nossos devaneios e só descia para nadar em ti. Dar braçadas no teu pescoço intensamente brilhante pela insinuação do perfume que lhe colocas.
A música continua e aproxima as mãos, e a noite ousa transformar-se em madrugada. É demasiado cedo para o arrependimento e demasiado tarde para o abandono, o néon fascinante que se avista no topo dos edifícios ainda nos apaixona. É tempo de uma tragédia sentimental.
Somos dois amantes que se amam loucamente mas que nunca olhámos profundamente nos olhos vazios um do outro. Tinha designado amar-te desde o primeiro dia e isso era tudo o que necessitava.
Dei-te a mão no escuro de um concerto no Coliseu, e tu não te importaste que estivesse demasiado escuro para sentir devidamente quem te tocava. Sabias de antemão que era a minha. Apertaste-a com maior intensidade conforme aumentava a grandiosidade do som da guitarra de João Cabeleira.
De seguida planei o braço uns segundos no ar, hesitando, e aterrei de mansinho como numa flor delicada, os meus dedos no teu colo.
- Amo-te muito! Dizes-me tu.
- Eu também. Respondo de imediato.
- Também gostas muito de ti, é?
- Não! Gosto muito, mais de ti.
- E de ti, não gostas?
- Por acaso, nem por isso...
-...
- Bom... talvez goste daquela parte que gosta de ti!
Corre, foge. Como se fosse possível eu pensar a perfeição. És mais bonita do que aquela Dora da discoteca que à noite era mais graciosa que durante o dia.
Sente o suor que escorre de mim e diz-me boa noite, embora seja apenas tarde e neste cubículo fechado que tresanda a mofo, vem ter comigo de vez, mata a ansiedade que chove em mim, pesada, deixa-me ser teu assim muitas vezes fechado em suor ou então só mais uma vez mas, com o tempo todo, para que o mundo acabe em encantada perfeição.
Num reflexo de criança, levo os dedos ao nariz para cheirar o líquido quente, melodioso com cheiro a ti e este percorre-me uma das narinas. Com pouco esforço, puxo a narina que quer ceder e toda a asa que compõe o meu nariz aquilino.
O ruído ensurdecedor de uma buzina de um vizinho soou estridente e provocou eco na minha cabeça completamente zonza.
E, ao acordar, dei-me conta que não estavas. A cama, com os lençóis brancos molhados, exalava um cheiro que reconheci como sendo o teu. Mas como?
O odor era o mesmo que trajavas no dia em que te conheci, e te sentaste a meu lado naquele autocarro.
Quando despertei finalmente, percebi que deras lugar a um pedaço de mim, descomposto em ti.
Embora para todos não passasse de um reles que passava os dias isolado, algumas noites deambulando pelas velhas calçadas, e noutras só com a intimidade nas mãos, enquanto tinha sonhos eróticos com as coxas das mulheres mais velhas que conhecia, agora sabia o que era saudade, amor, desejo e paixão.
Ainda atordoado de sono, os meus olhos, reflectiam aquele pedaço de papel que te tinha entregado, como me entreguei a ti, todos os dias e noites durante meses e dois anos.
Afinal, não te irei um dia contar a nossa história, nem morrerei no teu aconchegado regaço.
Terá algum aristocrata cobiçado a tua simpatia, o teu amor, o teu ventre?
Nada sei de ti miúda da franja.
Voltei a deitar-me sobre o catre de superfície plana e rija. Antes de o fazer estendi com um ritual profano uma colcha de riscas vermelhas. Uma coberta feita pela minha avó materna, toda ela de retalhos que abrigou o meu corpo derrotado. O livro já meio desconcertado pelas sucessivas leituras estava a meu lado. Coloquei a brochura sobre o ventre. Sei que apenas posso esperar um milagre de poder contemplar a minha menina da franja. O sono entrapou-o enlaçando-o em frangalhos de memória. Mas ainda assim sentiu que pedalava com força na velha bicicleta, por campos sem fim. Sem vislumbrar o se sonho, o rapaz do segundo direito pedalava cada vez com maior intensidade. Exausto quedou-se junto a uma fonte de água límpida e cristalina. A garganta sabia-lhe a sarro. O pó invadia-lhe a traqueia. Sentia um cansaço descomunal. A água não conseguia furar o muro de pó que tinha na goela. Sentia-se asfixiar, as cores da natureza antes vivas e fortes, esbranquiçavam como um caldo de cal. Tudo era branco. O Pencas sentia-se mal, muito mal. Dois dias depois eu e Dora fomos dar com o corpo enrugado do rapaz. A ausência de ruído despoletou a curiosidade feminina. A presença do mistério aguçou a curiosidade masculina.
O corpo do rapaz do segundo direito estava vestido com um fato preto, o único que tinha, mas que estava imaculadamente limpo. Desta vez não pegou na guitarra, e junto dele apenas um simples livro gasto e esmaecido o acompanhou na sua última viagem de amor, no seu derradeiro sonho.
Existiam posters de meninas de franja e cabelo preto por todo o lado nas paredes da estreita e esconsa sala. O silêncio tem dias, e em determinadas situações consegue ser mais pesado que toda a força que possamos querer ter.
Dora e eu deixámo-nos ficar, imóveis e mudos, junto do corpo inerte do infeliz rapaz.
Lá fora uma discussão animava a rua, cá dentro, nós éramos estátuas de gente sem nada, estátuas inundadas de melancolia. Eu ajoelhei-me e rezei pela alma azarenta daquele jovem. Dora imitou-me a intenção e o gesto. Na realidade, existe apenas uma condição para morrer… é estar vivo. Tinha vinte e dois anos de extravagância, muitos de solidão e certamente alguns de desilusão.

Era uma madrugada indistinta, sombria e chuvosa como qualquer madrugada de Dezembro, quando a campainha ribombou no segundo direito.
Surpreendi-me com aquele toque de campainha e como flutuando no espaço, dei por mim a espreitar por uma pequena brecha da janela do quarto. Dora dormia em perfeito mutismo.
Uma jovem de longa franja estava prostrada na soleira do prédio e olhava para cima. Pestanejava frequentemente devido aos grossos pingos de chuva que caiam em cadência.
Com as costas da mão direita, esfregou os pingos de chuva dos olhos afastando a franja que lhe cobria metade do rosto e uns olhos esverdeados sobreluziam no rosto simples, mas belo como uma aguarela de William Turner.
Depois de ver aqueles olhos compreendi que por vezes não sabemos apreciar o que de bom se nos é oferecido num olhar! Entendi que saber olhar é amar! Saber olhar... é compreender que a dimensão de um olhar é incomparável.
A expressão daquela jovem e do seu esbelto corpo estava somente num simples olhar.
E num simples olhar percebi o motivo pelo qual o rapaz do segundo direito já não o ocupava.


FIM



Texto: JC


Imagem: Google

segunda-feira, 13 de Julho de 2009

Em busca do tempo perdido #4


Estava insolente, melancólico. Deitado no sofá adormeceu de cansaço e tédio. Incutido pela façanha amorosa de Noah e Allie imaginou-se com a cabeça no colo da jovem de franja e esperava que ela lhe cofiasse o cabelo enquanto ele aflorava ao de leve, as riscas vermelhas das meias que lhe cobriam as coxas bem esboçadas.
Sentia os desenhos que ela lhe fazia com as unhas sobre o pescoço. Desenhos imperfeitos enquanto lhe dizia “adoro-te” e, que nos seus braços morreria. Ele pensava que de qualquer outra forma também morreria. Queria e gostava de um dia morrer naquele regaço. Uma estúpida e deprimente canção de amor percorria o sonho e cada veia dos seus corpos quietos, em surdina a escutá-la, quase que enganavam quem os visse: talvez pensem que nos amamos. Talvez um dia.
Viajo no teu regaço como um abrigo onde levas contigo os meus olhos de cão triste. Sinto-me criança de novo. Vejo-te uma menininha de saia curta e meias requintadas. E, a franja vem desse tempo?
Avisto dois catraios andando de bicicletas… A pularmos o muro impossível e a corremos sem parar pelo meio dos pinheiros em fintas invisíveis e imprevistas e a terra forrada a mato é o destino fatal quando o anjo do equilíbrio nos falhar. E tanta vez nos falhou.
Enche os bolsos dos calções de nozes, não esqueças… traz o mapa do tesouro, e não desprezes nunca das nozes… podem-nos salvar a vida. Aprendi com o meu avô.
Lá fora, os caracóis insistem na vida, fogem da escuridão e espraiam-se ao sol matreiro. Arrastam-se lentamente pelas folhas verdes, sem horários nem obrigação de voltar para casa antes das cinco para o lanche de marmelada.
Recordas-te daquela senhora que tinha dois filhos trintões e solteirões a viverem lá em casa? E da cena da caixa de correio que ela abria serenamente e donde saiu uma lagartixa e um susto que a levou ao hospital? Sabias bem que a senhora era fraca de coração!
Mas o tempo avança acutilante, e mesmo nos sonhos, apressasse a correr deixando-nos por vezes tristes por despertarmos para a verídica existência. Agora, neste momento já estás vestida com aquelas roupas esquisitas.
Cresceste … e eu?
Eu, não quero crescer. Quero ser sempre o jovem que sonha, que tem medo de envelhecer.
Não quero um dia narrar-te a nossa harmoniosa história enquanto te observas ao espelho e ele te devolve, uma imagem de demência.
Não quero descrever a nossa história a alguém que não a alcança.
Não! Prefiro recordar-te como a menina bonita, com a franja a cobrir-te os olhos esverdeados, saia curta, de coxas bem torneadas e cobertas por umas meias às riscas vermelhas. A menina de roupas extravagantes.
Lembras-te o que te disse naquele dia magnífico Agosto? E a humidade toda que as coxas entrelaçadas prometeram?
Tenho vontade de me deitar contigo agora… e não após a assemia te ter invadido o débil corpo devorado pela doença.
Desejo deitar-me a teu lado, na mesma cama que te acolhe e não te deixar partir, quando cerras os olhos, e eu cruzo os braços sobre o ventre, à tua espera sentindo um frio funesto invadindo-me o corpo e a alma.
Olhas-me nos olhos, como se toda a verdade estivesse neles e explicas-me que as crianças sorriam e cantavam a alegria em gargalhadas, tal como tu o fazias.
Um dia que está a uma imensa distância, como também imensa é toda a água que hoje te salga a pele. Chegaste agora a casa, vinda da praia e uma estúpida alegria baila-te no corpo, na epiderme e nos olhos. Deitas-te na cama. O ténue vestido de linho a antever-te a nudez. Por baixo do vestido reduzido, adivinho a intimidade que hoje ainda me entregarás.
Com a voz que desconheço contas-me que as crianças de seguida compraram gelados; que pegaram nas bicicletas e andaram, andaram, andaram. Deram às pernas nas bicicletas até a pele ficar abrasada e os bafos saírem-lhes pela boca, como as chaminés da fábrica que, da janela do quarto, vemos muito ao longe. Estás feliz, uma sinestesia eufórica embriagou-nos os sentidos e quase dizes amo-te, mas quando peço que repitas, devolves um anda cá. E eu vou. Inseguro, com medo de tanta alegria, preparado para o pior.
Abraço-te. Digo adoro-te, e tu beijas-me o lábio superior, trincas-me o ombro e dizes, “esta vai deixar marca” e aí, ainda fora de mim, cheio de tanta atenção tua, só penso que tens razão, que este momento vai mesmo deixar marca. É certo e sabido que tão cedo não te verei assim feliz.


(Continua)


Texto: JC


Imagem: Google

domingo, 12 de Julho de 2009

Em busca do tempo perdido #3


Os dias passaram, as noites ousavam transformarem-se em madrugadas à espera do Verão, a cidade ficou vazia de gente. Tão despojada, como o seu coração que percorrias as ruas de Lisboa, na tentativa de encontrar uma franja sobre uns olhos verdes, ou umas coxas protegidas por meias riscadas de vermelho. O vermelhar do sol deu lugar ao cinzento do Inverno, e as pessoas fecharam-se em casa.
Nem vivalma nas ruas. O frio e a chuva submetiam os seres vivos ao recolhimento. As memórias dos olhos verdes da rapariga traziam-lhe a esperança inalcançável.
Mesmo debaixo da intempérie, Pencas percorria a cidade de lés a lés em busca do sonho, de um rosto, de um nome. O inverno deixou de novo a cidade e o verão acampou durante uns tempos em Lisboa.
O rapaz do segundo direito voltou a viver imerso no pó dos livros que contavam histórias de amor impossíveis e tristes. Amor de Perdição do malogrado Camilo Castelo Branco foi um deles.
Todavia, a imagem da menina do autocarro bailava nos seus sonhos com o sorriso que ela plantou para sempre no meu rosto.
Releu dezenas de vezes o “Diário da nossa Paixão”, e sempre que o tornava a ler, a silhueta da jovem sem nome invadia-lhe a memória. O verde dos olhos dela faziam-lhe doer o coração e a alma, mas acalentavam-lhe a esperança.
Imaginava o fascinante cenário da história como um quadro de Monet.
Verdadeiro encanto... a água... os nenúfares... e por fim os cisnes e toda a imagem fica envolvida num tom rosa mágico.
Ensaiava o que sentia através das personagens com maresia nos olhos e o coração inundado de dor.
A agulha já raramente percorria o vinil. O silêncio perpetuava o segundo direito, do número dez, da estrada de Benfica.
Numa noite, o rapaz vestiu um fato preto, o único que tinha, mas que estava imaculadamente limpo, pegou numa guitarra que tinha esquecida no exíguo roupeiro entre meias e sapatos, e colocou-a ao ombro.
Nessa noite, triste de nuvens e sem estrelas, o rapaz do segundo direito vestiu o fato, saiu de casa com a guitarra ao ombro e passeou orgulhosamente sobre o largo do Rossio em busca do tempo perdido.
A noite não estava fria, mas num instante, a brisa transformou-se num arrepio que varreu as lâmpadas municipais. Em redor não passavam carros, o silêncio cobria a noite. Sentou-se nos degraus frios e gastos do antigo teatro D. Maria II olhou para o céu e soaram alguns acordes.
O rapaz do segundo direito sabia que aquele momento breve numa tarde de calor tinha sido o amor, igual àquele que tinha lido tantas vezes nos livros, daquele amor que levava à loucura, ao desespero e à morte.
O Pencas sabia que a vida, ao contrário de alguns livros, não tem finais felizes. Quando se sentiu cansado dos acordes musicais, decorados impacientemente no braço da guitarra, foi até à paragem do autocarro para rapidamente se esconder em casa.
(continua)
Texto: JC
Imagem: Google

quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Em busca do tempo perdido #2


Um dia, fintou a rotina e saiu de casa por volta do meio-dia. Os olhos cobertos por uns Ray Ban comprados numa banca aciganada para os lados de Sintra desempenhavam o seu papel, mal e porcamente. É que aqueles olhos, apenas estavam habituados ao brilho da lua.
Apanhou um autocarro que o vomitou no Rossio. Há muito que não admirava aquela praça com a luz do sol.
Subiu o Carmo e quedou-se junto a uma livraria. Entrou e folheou alguns exemplares que se encontravam nos escaparates.
Constatou que estava mesmo desactualizado. Aqueles livros e autores nada lhe diziam.
Que pobreza, nem “Os Miseráveis de Victor Hugo” encontrava por ali.
Continuou a olhar os exemplares escarrapachados na montra. Vislumbrou alguns dos volumes de “Em busca do tempo perdido de Marcel Proust”. “Algo de jeito…” ruminou ele entre dentes.
Já um pouco fastidioso dirigia-se para a saída, quando reparou na capa de um livro. Parou, retirou os óculos de sol, folheou o volume várias vezes num ritual já memorizado, notava-se pela forma descontraída e metódica com que o fazia, e junto à caixa disse: “Levo este!”
Saiu da livraria e apanhou um autocarro da Carris. Sentou-se num dos bancos livres na traseira e sem dar atenção a quer que fosse, começou por folhear de novo o livro com tal empenho que dava a impressão que procurava algo no miolo daquelas páginas.
Abstracto, não notou que ao seu lado, uma jovem se sentara bem juntinho a ele. Era uma rapariga mais nova, bonita, com uma franja a cobrir-lhe os olhos esverdeados e no conjunto sobressaía a saia curta que deixava escapar umas coxas bem torneadas e cobertas por umas meias às riscas vermelhas. Era para o baixo e um pouco estranha na forma de vestir. As roupas um pouco extravagantes não impediam, mas tentavam disfarçar, uma beleza também ela singular.
Um aroma a sândalo invadiu as narinas que terminavam o longo nariz do rapaz.
Olhou para o lado, sempre coberto pelos óculos de sol, que lhe montavam o nariz e lhe cobria as lágrimas dos olhos pouco habituados aos raios solares.
Ambos permaneceram em sepulcral silêncio até que Pencas, atrapalhado, lançou um valente espirro que ecoou e percorreu todo o autocarro.
Ainda com o rosto e o nariz ruborizados, o jovem lançou um olhar acanhado para o lado e esboçou um sorriso.
Atravessou os esverdeados olhos da jovem e ficou ainda mais nacarado. Recebeu na volta do correio, um sorriso esbelto como a silhueta coberta pelas roupas estroinas da rapariga.
Então reparou que ela estava a ler o mesmo livro que ele colocara de novo debaixo do braço, enquanto tirava um lenço e o passava pelas largas narinas. A mesma encadernação, cor e letra, não lhe provocavam incertezas… “The notebook de Nicholas Sparks”, era o livro que ambos traziam. Não tinha justificação por ter adquirido um livro recente. O jovem não morria de amores por estes autores da actualidade.
Os dois entreolharam-se e sentiram que aquela não era certamente a época deles, nem o livro que ambos traziam fazia parte deles. Sabiam. Sabiam que ambos viajavam no tempo cavalgando folhas amarelecidas de livros clássicos. Ele sentia-se um alfaraz em tempo de guerra.
Talvez nunca encontrassem o tempo e lugar ideais, mas as jornadas valiam sempre a pena.
A menina das meias às riscas prolongou o sorriso mais do que o habitual e o rapaz do segundo direito deixou-se afundar na água quente dos olhos verdes e interessados.
Ela levantou-se, ele deu-lhe um papel com uma morada: número dez, segundo direito, estrada de Benfica.
(continua)
Texto:JC
Imagem:Google

segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Em busca do tempo perdido #1

Adoro Lisboa. Não sei se é a paisagem pitoresca, as figuras ambulantes que a percorrem, a contradição entre prédios a cair por falta de conservação, rodeados por edificações de linhas planas e hodiernas, ou se os pombos que conspurcam por toda a cidade as estátuas dos ilustres perecidos dando um aspecto esverdeado às mesmas, ou se as rocambolescas peripécias vividas neste grande palco, mas fascina-me.
Quando conheci a Dora numa discoteca, escura e apinhada de gente arranjada e bem vestida, não imaginei vê-la agora assim. Ela era gira. De noite era mais e quando a vi de dia pensei que nem tudo o que parece é.
Dora era afeada e por essa razão, ao fim de alguns meses de prazer, o contentamento diminuiu e os nossos encontros escasseavam no seu ninho para onde tinha levado alguma farpela e um pedaço da minha alma, por súplica dela.
Como num pesadelo disfarçado ou como naquela música conhecida dos Supertramp, nunca se levantava a tempo do pequeno-almoço e tinha que ir embora mais cedo que as aves migratórias.
Deixava no ar o perfume da aventura noctívaga e aquele último olhar vincado a lápis e rímel rasca que se pega e não nos quer largar por muitos anos que se possam viver. Num simples gesto atirava com a andrinopla para o chão, um breve “vou”, e num ápice a porta aferrolhava com um estrondo que fazia tremer o chão desbastado pelos anos e pelos passos cadenciados certamente pelas almas que o tinham já habitado.
Era um apartamento acanhado, mas bem decorado embora na verdade não tivesse grande vizinhança.
Todavia de que nos servia isso, da janela via-se o entulho das obras, não sei onde havia tantas obras para haver tanto lixo, às vezes o pó entrava-nos pela fresta da cozinha que tínhamos de ter fechada e passávamos assim dias sem ar de respirar, só ar de gente, ar já gasto, se o ar era gasto não sei, mas sei, que não era bom.
Mas como alguém me diz sempre, “Um dia a seguir ao outro”. E eu assim faço!
***
Nesse prédio envelhecido de dois andares prostrado na estrada de Benfica onde emparelhei meia dúzia de meses, conheci um jovem de comportamento pouco ortodoxo.
Habitava o segundo direito, ou melhor via-me a mim de forma superior, pois Dora partilhava o primeiro direito com o Renato, um colega de faculdade. Eu, era apenas um intruso com direito a catre, quando ela por compaixão não se enrolava com o Renato, ou resolvia passar a noite na discoteca e regressar de táxi a altas horas da noite, com um cheiro insuportável a etílico martelado.
O jovem, que mais tarde vim a saber ter sido baptizado com o nome de Alberto, era simplesmente conhecido por Pencas, devido à peculiar preguiça portuguesa e à presença ornamental de um apêndice respiratório um pouco anormal que ostentava na frente do rosto avermelhado.
O Pencas dormia de manhã, acordava ao fim da tarde e vivia durante a noite. Para além de ser noctívago, também tinha um penteado esquisito, uma marrafa que fazia lembrar um Sioux. O rapaz era único, enfarpelado em mistério e segredos, e ninguém sabia o que fazia. Desconfiavam mesmo que nem sequer tinha cartão do cidadão, como se designa actualmente.
O segundo andar do prédio de Benfica onde o Pencas se refugiava era um gaiola apertada onde se amontoavam um canapé, livros ornamentados com pó, algumas fotos antigas e imensos discos de vinil. Naquela fabulosa colecção de discos estavam incluídos todos os negros americanos que fizeram a história da música do século vinte. Os discos foram herdados de um avô, um velho poeta que, numa noite bêbada, teve morte trágica.
O Pencas passava dias inteiros fechado em casa e horas a sentir toda a música do mundo, que para ele terminava no início dos anos sessenta. Para ele, o Maio de 1968 não tinha acontecido. Vivia solitário e isolado da vida actual de Lisboa. Enclausurado no cubículo, não conhecia ninguém. Era uma Carmelita que dedicava a vida à crença da música da poesia e de alguns romances, essencialmente os clássicos.
As estações do ano passavam por ele sem que se apercebesse. Quando chovia, o Pencas alheava-se da meteorologia em casa. Observava através dos vidros molhados e estreitos da janela, as ruas vazias. Depois, enroscava-se no sofá, a folhear um livro ao acaso e a comer pêra enlatada com a data de validade ultrapassada.




(continua)


Fotografia: António Feliciano

segunda-feira, 29 de Junho de 2009

TU e EU


Naquele dia acordei um pouco melancólico. Diria mesmo... triste! Se me perguntassem as razões dessa melancolia. Eu mesmo não saberia responder.
Depois do duche e do habitual pequeno-almoço (sumo de laranja natural, cereais integrais com leite e café sem açúcar) meti-me no carro e conduzi sem rumo.
Quando dei por mim estava na orla da cidade. O sol e a cor da areia contrastavam com a vegetação.
O mar estava fantástico, calmíssimo! Resolvi parar o carro. Saí, caminhei um pouco pela areia, acabando por me deitar. Cogitando nos meus pensamentos e envolvido naquela calmaria da maresia, deixei-me adormecer...
"Lembro-me da sensação incomodativa de pequenas gotículas de suor na minha testa e no meu corpo. Olhei ao meu redor. Não se via vivalma. A praia estava completamente deserta!”
Resolvi dar azo a um desejo meu e despi-me, mergulhando no oceano.
“Afinal que perigo poderia advir? Não estava eu só naquela praia?”
O choque frio das ondas envolvia o meu corpo como um banho revigorante.
Nadei um pouco. Que sensação agradável! De repente, sentia-me de novo no ventre materno. Eu, tal como vim ao mundo, aquele mar infindável e Deus.
Ao fim de algum tempo, já cansado, nadei em direcção à praia.
Deitado de barriga para baixo, sentia a rebentação das ondas no meu corpo! Que sensação incrível.
Eis senão, quando, olhando em direcção às minhas roupas, ali estavas tu, com um sorriso malandro nos lábios.
Um pouco desconcertado, escondi com as mãos a parte mais íntima do meu corpo perguntando-te com um calor no corpo molhado...
- Mas, e agora?
Respondeste com um sorriso nos lábios, um misto de simpatia, carinho e ironia:
- Calma! Deixa-te ir, relaxa...
Fiquei sem saber o que dizer, um pouco constrangido com a minha nudez, porque isso dos homens não sentirem pudor com a nudez, não passa quanto a mim, de um mito.
Quase de seguida (para mim esse espaço de tempo pareceu uma eternidade), levantaste-te sempre sem tirar os olhos de meu corpo e começaste a despir-te.
Eu não parava de tremer e, o teu corpo, também já ele nu, deixava-me perdido de emoções.
Completamente despida de preconceitos, mergulhaste no oceano deixando-me só, deitado na areia.
Parecias uma sereia dos mares. Quanta beleza, e sensualidade.
Depois de algumas braçadas nadaste na minha direcção. Colocaste os braços em torno do meu pescoço e beijaste-me... sôfrega.
Correspondi ao teu beijo, entregando-me. Senti tua língua, preguiçosamente explorando a minha boca. Beijo ardente, beijo carente, beijo de entrega total. Beijo, carinho, ternura... SEDUÇÃO!
Enquanto me beijavas, as minhas mãos iam percorrendo o teu corpo. De repente, ergui-te no meu colo e, como se de uma peça de porcelana se tratasse, transportei-te para a areia com todo o carinho.
Deitei-te, com suavidade, com imensa sensualidade, como que a preparar aquela que muito rapidamente se tornaria minha mulher.
Sorvendo com a tua boca, todas as gotículas de água salgada que "vestiam" o meu corpo, iniciaste um ritual de desejo e loucura. Primeiro no pescoço, descendo pelos ombros e, finalmente... quanta paixão!
Acordei. Minha boca com o teu sabor... com o sabor do mar.
Sinto-me molhado... meu corpo húmido e o desejo de te ter!
Como te quero! Vem, meu Amor. Amemo-nos em uníssono. Ensina-me a amar como nunca me amaram.
Dois corpos num só, vibrantes de desejo até ao êxtase. Quero-te. Mas penso que te perdi.



In "Ano Louco"


Imagem:Google

quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Num sonho de realidade



Ontem, ou hoje? Lisboa estava insuportável. A canícula era imensa e eu mal conseguia respirar.
Olhei curioso para um placard, que me respondia em néon de tom amarelado, “19:28”; “32º”.
Apenas queria chegar ao lar. Mas, não sabia para onde me dirigir. Que casa? Onde moro? Eventualmente habito apenas no mundo, e moro o teu coração! Caminhava absorto de corpo e alma… andava apenas entre caras sisudas e crespadas que nada me diziam. Por vezes quase que comigo colidiam, no entanto eu desviava maquinalmente o meu percurso.
Vaguei por aqui e por ali sem sequer me sentir, mas a viagem tem mais sabor quando cada cruzamento é uma incógnita.
A minha mente apenas me devolvia uma mácula de mulher, uma silhueta de ti. E no teu contorno me perdi…
Quase onze e meia da noite e lá em cima da noite, a lua parece pendurada numa rede atada a coqueiros do espaço, uma alcalada onde me escondo e me deixo embalar, contigo ao lado, no meio das estrelas que sorriem quando passam por nós.
Procurei bem no fundo da pasta inerte e suspensa no meu ombro esquerdo, a chave do teu coração que me tinhas dado no primeiro dia que me viste.
Afinal nem foi necessária, pois tinhas a portada semiaberta. Entrei, estavas de costas e envolvi-te com os meus braços, daquela forma que tanto gostas, apertando-te contra o meu corpo enquanto as minhas mãos construídas por um tapume de cristais de gelo te aconchegam o ventre e te provocavam arrepios.
“Chegaste e eu nem dei por ti…”- disseste enquanto eu penetrava os meus dedos em pequenos fios de cabelo, como vírgulas, alojadas sobre a testa e junto às orelhas, que te transmitem aquele peculiar encanto que revivo sempre que te olhos te vêm.
O ambiente estava calmo. O silêncio dos nossos lábios contrastava com o pujante ruído dos nossos olhos.
Ao longe, a voz rouca e triste de Leonard Cohen enlaçava-nos com a derradeira estrofe - “Your eyes are soft with sorrow/Hey, that's no way to say goodbye.”
Teus lábios entreabriram-se e deixas-te escapar um sorriso. Eu fiquei em hipnosia, e montei o teu airoso sorriso de forma a chegar ainda mais perto de ti.
Quando as minhas mãos se deixam levar pelo desejo de conhecer a tua pele doce debaixo do teu vestido não te quero assaltar, não te quero levar nada, porque meu amor, tu já me roubaste o meu coração há muito tempo. Por isso não te amedrontes. Apenas quero conhecer um pouco mais de ti. Quero apenas que sejas um bocadinho mais minha. Sempre mais e mais… E de todas as vezes que te abraço com força, de todas as vezes que deixo a minha boca escorregar para o teu gracioso pescoço e de todas as vezes que esta destra mão investiga a perfeição do teu ventre, eu só te quero a ti. Nada mais. Apenas terminar a nossa noite e explorar a perfeição do corpo e a ânsia que nos une e consome o corpo e o espírito.
E, tu sabes que o que arde em nós é impossível de encobrir, a lembrança de cada dobra do teu corpo consome-me, agora é tarde, é impossível evitar este desejo imenso que me ofusca a luz do dia e me suspende o sono.
A reminiscência do sabor dos lábios é forte demais para que consiga atirar para trás da porta do teu coração a vontade de te consumir inteira na minha vida.
Quero apenas que te deixes antojar o que não existe, e simplesmente te deixes levar, pela música, pela noite e por este alquimista de sonhos feitos.
E no cantinho da nossa imaginação, enquanto te atenuo do peso exagerado da roupa que te cobre, a tua sedosa e perfumada pele olha para mim despreocupada mas ardente de desejo na alcofa do teu interior. Eu fico contigo despido de roupagem, de preconceitos, e de alguém que quer ser alvo de alomorfia.
No cantinho do nosso sentir, enquanto te deixo completamente aguada de beijos, o tempo e o espaço correm sem fim avassalando o nosso amor, tal como corroem a noite que está quase a cair. A noite pode ser muita coisa, pode ser um castigo ou pode ser um bálsamo, e já foi tudo isso no nosso universo. Tanta incerteza que viver é ambiguidade.
E na incerteza nocturna eu afastei-me das luzes e corri despido de roupa pelas ruas de ardósia dura, corri a noite toda às voltas tentando evitar o caminhos dos meus receios, ambiguidades e dúvidas.
E num sonho de realidade, eu tenho medo de morrer.


Texto: JC


Imagem: Google

segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Amor!


Amor!
Verbo sem tempos que vive do rorejar do coração e só sabe a quem sabe saborear do deleite, sentir o paladar de todos os sentidos misturados na descoberta do sensual, do perfume, do ofegante poder de beber e respirar outro ser.
Amar é como apreciar uma flor carregada de magia, de perfeição, odor e prazer. É deixarmo-nos entrelaçar pelas folhas verdes da esperança.
Amor! Possuidor de uma voz que não fala e um olhar que pela voz tudo diz. Tem uma neblina matinal para nos abraçar no nosso espaço. No nosso lugar. E do saber amar ficamos somente nós.
O fim da tarde estava frio. As pernas tremiam de agitação e palpitavam como o meu amargurado coração.
O vento gélido esbofeteava-me o rosto e invadia-me os olhos fazendo-os chorar. Por entre lágrimas de gelo acalentei o coração ingénito de sofrimento quando te vi.
Respirei fundo engasgando-me com o sopro do vento que solto corria e uivava como um lobo liberto ao luar.
O aroma do café que tomei com sofreguidão despertou-me do sonho. Olhei-te com a ternura que compus a melodia da alma.
Sorriste para mim, como só tu o fazes. O rubor cercou-me face e o alento.
Um baque inaudível retumbou no meu cérebro. O teu pé foi testemunha do embaraço de quem desperta de uma ilusão.
Aos poucos o teu ser prosperou, sorriu, venceu e em meu peito assentou como um beija-flor que pousa numa flor em busca do voluptuoso e inefável néctar.
O teu sorriso acaricia o coração, o teu olhar é penetrante e faz-me tremer. O teu beijo petrifica-me o corpo dormente de paixão e recheado de desejo.
Consegues perturbar a minha noite, no bom sentido, manter-me acordado a pensar e a sonhar… adormeço sempre um pouco mais feliz. Desejos reprimidos são como flechas envenenadas, que nos matam ou exploram estigmas esquecidos e despoletam outros perdidos.
A frustração por vezes cerca-me e mesmo sem permissão, invade-me o coração.
Quantas vezes, eu estou só no meio da multidão!
Pois! Já era para ter terminado, mas… que queres é a escrever que me dou, me entrego de corpo e alma. Quando escrevo desnudo-me perante mim, perante ti…
Muita coisa fica por dizer, mas oportunidades não irão faltar.
Quero também pedir desculpa por ser um pouco lunático. Por vezes a minha mente vagueia entre o sol e a o lado escuro da lua.

Apesar de tudo, Amo-te!

Sabias?

JC


Imagem: Google

Pink Floyd - Mudmen (de La Vallée)

domingo, 21 de Junho de 2009

Retalhos


Toda a nossa vida não passa de retalhos que ficam na nossa memória. Este é mais um pedaço que guardo no meu coração.
Duas linhas. Duas linhas que se estendem ao longo de muitos quilómetros.
Paralelas, produzidas em aço, nunca se encontram. Mas, todas elas têm um fim.
A tantos quilómetros temos de um lado, um vasto campo de oliveiras, do outro um pequeno ribeiro cruzado por uma velha ponte de madeira que nos leva a uma casa abandonada, como muitas que existem por todo o Ribatejo.

Faltam dois minutos para as três e naquele como nos outros dias, à hora certa o comboio atravessará a vila.
A minha tia olha clandestinamente para um e outro lado. Prepara-se para atravessar as duas linhas de aço. À sua frente, erecto junto ao banco da estação, encontra Avelino.
Tem os olhos rasados por lágrimas pequeninas e o rosto está vermelho rubro. O seu peito esgotado bombeia golfadas de sangue pelas suas veias. Sempre é verdade que a mulher tal como dizem, é uma infame adúltera.

“- Uma puta é o que ela é.”

Em breve esta atravessará a ponte de madeira que cruza o ribeiro para materializar a acusação.
O episódio já sobejamente contado e nunca documentado, agora corroborado pelos seus enraivecidos olhos azulados.
M. Do Carmo vê o marido do outro lado da linha e todos os seus olhos de maresia são Avelino. Percebe que ele já percebeu.
Que na sua perturbada mente, já sabe que aquilo que a mulher se prepara para fazer contraria o que lhe imprimiram, na sua educação.
Sabe que o acto que a mulher está prestes a cometer determinará o fim da já por si débil saúde. A mulher mantém-se de um lado, o marido do outro.
Olham-se. Olhos nos olhos como no primeiro encontro em que se conheceram.
Ela acena, ele olha apenas, estarrecido. Ela contínua, inclinando ligeiramente a cabeça para a esquerda, pedindo compreensão, mas a esse pedido Avelino responde com um rosto apático e distante.
O seu olhar invoca o frio dos serões sem lareira, passados na pequena casa. A mulher busca naquela distância que os separa o tempo suficiente para pedir a Avelino...
Por favor, não penses assim de mim. Naquela espera, a mulher busca o carinho do marido que perdeu há muito.
Pensa quando este chorava de noite e apenas repousava debaixo dos lençóis da cama que partilhava com ela...

●●●

É também outro menino, o menino feito homem, aquele que mira Natacha disposta em posição fetal sobre as portas metálicas de um frigorífico, transformado em cama de operações, sustentado por dois cavaletes de madeira; é outro menino o menino feito homem, aquele que recorda o rosto de sua tia quando ela o pegava ao colo e o acarinhava contra o seu peito.
Eu amava a minha tia. Era a minha predilecta. Hoje nada posso fazer.
Marcou-me de tal forma que ainda hoje e passados já alguns anos, sinto remorsos por a não ter apoiado.
Natacha foi-me trazida por um tal Eduardo ontem à noite. Eduardo é advogado de um sem número de refugiados de leste que acorrem ao país. É mais uma. Eduardo está apaixonado por ela. Consigo ler o amor dos dois nos olhos mortiços de Natacha.
Os olhos dela são os olhos de minha tia. Os mesmos olhos que me olharam, certo dia, uma última vez. Os olhos que por si choraram, os mesmos que ele fitou uma última vez antes da locomotiva a colherem.
Os olhos que ele olhou uma última vez, quando já o comboio travara e o corpo esfacelado, se separara em tantos bocados quantos os que os braços conseguiam abarcar. Eu, sozinho agarrando em cada membro de minha tia e o corpo de Natacha ali corrompido: frágil e precário cortado pela zona dos rins.
São sem duvida corpos diferentes em vidas distantes, mas os olhos são os mesmos de outrora.
Um violino passou pelo consultório e deixou uma música tão deprimente quanto insuportável no espaço.
Começo a chorar. É novamente o menino João, aquele que se deixa abraçar pelo corpo morto da sua querida tia M. Do Carmo.
Bem-Haja tia e que Deus te tenha atribuído um pedacinho de Céu...



* Texto baseado em factos reais


In "Ano Louco"
Imagem: Google


JC

segunda-feira, 15 de Junho de 2009

Juventude



Tinha feito quinze anos há cerca de um mês. Era já um rapazote. Penso mesmo que possuía já uma certa consciência política.
Dedicava-me, num país por tradição extremamente sufocante, a actividades consideradas subversivas para a época, convencido que partilhando a simples verdade do mundo tudo ia mudar para o melhor dos mundos.
Conheci o medo e a coragem. Pessoas nobres e que de repente desapareceram.
Frequentava o LNA. Aquele dia permaneceu para sempre na minha memória.
Levantei-me cedo como costume. Tinha o horário da manhã. Saí de casa ainda meio atordoado pelo sono. A noite anterior tinha sido longa. O Faustino tinha ido lá a casa, para me ensinar mais algumas notas de viola.
No trajecto, passei pelo café do Sr. António que me disse:
- Vais para o Liceu?
- Vou. Entro às oito e meia! Respondi com ar curioso.
- Vai mas é p’ra casa… disse-me ele com a testa cheia de gotículas de suor.
- Houve uma revolução e não há aulas, está tudo fechado.
Ainda ele não tinha finalizado a frase e já se ouvia o roncar dos motores dos aviões que cruzavam o céu a baixa altitude, como pássaros em busca da sua presa. Estremeci. Com o ruído e com a emoção.
“Será verdade”, pensei eu sentindo aquele tremor nas pernas que sentimos quando algo nos sucede extremamente bom ou extremamente mau.
Segui o meu caminho, após agradecer a preocupação do Sr. António, mas tinha de ir observar de facto o que se estava a passar.
Cheguei ao LNA. Deserto. Os portões fechados. Nem vivalma. Algo de grave se passa e o Sr. António tem razão.
Mais uma vez os aviões da Força Aérea passam por cima da minha cabeça de tal forma que senti a deslocação do ar. Os meus tímpanos queixaram-se.
Sem saber de onde aparece o Marques também junto do LNA.
- Jota! Já sabes dos acontecimentos? Perguntou-me o Marques, com o seu ar de intelectual forçado.
- Ouvi comentar! Disse com ar impaciente e algo intranquilo.
- Claro. Está tudo cheio de tropas! Continuou o Marques tentando predominar a conversa e chamando a atenção de meia dúzia de curiosos que entretanto se tinham juntado.
- Em Lisboa é que está quente a situação! Prosseguiu o Marques, conseguindo o que pretendia. Ser o âmago das atenções e mostrar a sua cultura de mente aberta e cultivada por um pai que na clandestinidade pertencia ao Partido Comunista.
Eu e os curiosos seguíamos com atenção todas as sílabas salientadas pelo Marques.
- O centro das operações é no Carmo. Os gajos têm tudo cercado. O Caetano está lá, mas não tem hipótese.
Tanto eu como os curiosos ouvíamos com todo a concentração a sapiência do Marques sobre os acontecimentos.
“Sou um principiante nestas coisas, pensei eu comigo próprio. Sentindo uma admiração pelo meu amigo que estava por dentro de todos os acontecimentos.
- Jota! Vamos a Lisboa? Ao Carmo? Interrogou o Marques, empurrando os óculos contra o nariz, o que lhe acentuava ainda mais aquele ar de sabichão.
- Embora. Respondi eu de imediato. Curioso, mas apreensivo.
Corremos para a estação e apanhamos o comboio, praticamente vazio para a hora. Até chegarmos à estação, só se observavam grupos de pessoas cochichando de forma imperceptível, tal era o medo acumulado durante décadas.
Mais uma vez e outra os aviões a romperem o céu, arrancando arrepios a quem os observava. Finalmente chegámos ao Rossio. Um mar de gente. Uns riam, outros cantavam e outros ainda choravam. De alegria. Diziam os que eram surpreendidos com as lágrimas nos olhos.
Subimos ao Carmo, rompendo pelo meio da multidão que gritava a plenos pulmões «LIBERDADE».
Nunca tinha visto tantos chaimites. As tropas, essas faziam com os dedos esticados, o “V” de vitória.
Nos canos das G3 sobressaíam cravos vermelhos espetados.
Na lapela da maioria dos presentes, um cravo vermelho predominava nas indumentárias na sua grande maioria de cor escura.
De súbito deixei de ver o Marques. Rodei a cabeça em todas as direcções, tentando em vão avistar onde ele poderia estar. Encontrões, pisadelas, mas principalmente muitos sorrisos e alegria.
Surgindo do nada, vejo o Marques com um riso de orelha a orelha e com dois cravos vermelhos na mão.
Deu-me um dos cravos que coloquei no bolso da camisa de modo a ser bem visível.
O Marques por seu lado colocou o cravo dele na orelha. Aproximou-se de mim e disse:
- Dá cá um abraço bem apertado!
Pegamos nos nossos cravos e com um braço no ar segurando firmemente cada um o seu, o mais alto que conseguia. Assim, demos o abraço da fraternidade.
No meio da multidão, dois jovens estavam ali abraçados com um cravo vermelho erguido, celebrando a Revolução dos cravos.
Estávamos no ano de 1974. O dia era; 25 de Abril. Nós nunca mais fomos os mesmos. Portugal também não.


In "Ano Louco"


JC