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terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Amigo sinto saudades de sorrir



Considero-me um homem silente.
O “não” dificilmente faz parte do meu glossário do dia-a-dia. Nunca o questionei, mesmo quando percebia que estava errado.
Acostumei-me a ficar na sombra, quieto, bem sossegado.
Na escola, sentava-se na última carteira, escondido. Em casa, isolava-me no meu quarto, no meu mundo. Foi sem dúvida alguma um colossal erro.
O mais espantoso é que ninguém considera a minha presença importante. Talvez não a seja mesmo!
Os meus companheiros sempre foram os livros. Amava-os. Mesmo mudos podiam falar. Não tinha muitos, mas os que tinha, eram suficientes para me fazer sonhar.
Cultivei assim o gosto de brincar com as palavras, de desabafar com as frases do meu desencanto.
A noite é a minha confidente, a lua, a minha eterna amante, as estrelas iluminam a minha galáxia de desilusão.
Amigo sinto saudades de sorrir. Saudades de partilhar a fracção oculta da minha existência.
Todos os dias de manhã, as pálpebras permanecem fixas ao meu mundo. As pernas inertes recusam-se a caminhar.
A custo e sem estímulo aninho-me junto ao espelho da casa de banho. Tenho de avançar. Necessito viver. Mas a imagem reflectida lança-me a negação da minha acanhada vontade.
Hoje especialmente olhei-me nos olhos fixamente. Após alguns minutos experimentei o frio do gueto onde habito percorrer-me as veias, até me rasgarem o coração.
As pernas vacilavam como poáceas fustigadas pelo vento forte da inércia, do desencanto.
Partilhei com o espelho, a dúvida, o sabor da incerteza e o medo do futuro sempre tão incógnito.
Como resposta apenas obtive o som da água que em cascata caía do lavatório já apinhado.
Fui assaltado pelo cônscio que existe num dos hemisférios do meu cérebro. Reconheço que o tempo age e transformava os seres, mas as esperanças mantêm-se firmes.
Conheci-te há muito amigo, se assim te poderei chamar, muitas vezes atenuas-te a pressão do meu dia-a-dia.
Contigo folguei, contigo estudei, contigo viajei, cantei e chorei.
Quando se fala em sentimentos, a palavra amizade germina e tudo circunda à volta dela.
Amizade não passa afinal de uma palavra que define muito, mas que nem sempre, significa aquilo que demonstramos e praticamos.
Dizemos que um gesto vale por mil palavras. Todavia não ouvi uma palavra, nem deslumbrei um simples gesto da tua parte.
Quando o astro-rei brilha, quando o céu está azul, desprovido de nuvens é fácil ser amigo, difícil é, quando existe a necessidade de o demonstrar nos momentos mais delicados da vida como num céu cerrado de nuvens negras que se agrupam como que aconchegadas conferenciando sobre a vida cá em baixo, que vai correndo à sua revelia.
Nas horas difíceis e de provação, nos minutos tristes e de sofrimento, tu não estiveste. Onde estavas afinal?
Amigo preocupa-se, luta, estende a mão mesmo em silêncio, confia. Oculta os segredos mais íntimos, que outrora desabafamos.
Amigo é aquela que afronta de uma molde ordeiro os problemas de frente sem necessidade de se esconder.
Amigo não deixa de ser homem se compuser um pedido de desculpas.
Amigo não se compra, conquista-se! E acredita, que a decepção de uma amizade é muito dura. Tão dura quanto a perda de um amor.
Amizade verdadeira existe? De facto estou cada vez mais céptico.
Como é possível alguém que se diz amigo, ferir verbalmente sangue do meu sangue? Será por as silhuetas serem idênticas. Sofrem ambas do mesmo mal.
O respeito, a humildade, o estar sempre tudo bem. Se soubesses como me sinto? Como uma andorinha a quem partiram uma asa.
Pois é… Amizade confiante é aquela para todos os instantes, nos momentos de alegrias ou de dor.
Para mostrar amizade não é necessário um banquete na mesa redonda para evidenciar que estamos todos ao mesmo nível, tal Cavaleiros da Távola Redonda. Para mim basta-me um naco de pão oferecido com generosidade e de coração aberto.
Desculpem-me aqueles que estão a ler este desabafo, mas é preciso arejar, estou cansado de ser um palhaço, submisso a esta falsa afeição. Mas as atitudes perduram no tempo. A vida é madrasta e quando menos se espera prega-nos uma partida. É amigo, Ele não dorme.
Agora volto ao meu mundo. Está na hora de ajeitar a noite para que durma de novo o amor pela vida que mesmo paupérrima perdura.
Não quero perder a fé. Não quero perder a esperança, mas resta-me apenas viver com o eco do silêncio a ruir no espaço vazio onde me encontro!
Mas nada foi surpresa… apenas me deixei ir no absinto e na inércia da minha aceitação.




"Devemos comportar-nos com os nossos amigos do mesmo modo que gostaríamos que eles se comportassem connosco"
Autor: Aristóteles

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Elisabete


“Que lindo par!
Ele, belo com essa beleza que distingue o homem; ela, bela com essa beleza que Deus dá só à mulher! Ai! Um sorriso que se desprendesse dos lábios formosos daquela virgem mataria de amores um homem! Um olhar meigo e terno que brilhasse por entre aquelas pestanas aveludadas venceria o mundo!
Naquele tempo da faculdade, Elisabete dançava impreterivelmente todos os domingos. Das sete à meia-noite. Vestido rosa, rabo-de-cavalo, sapato baixinho, ainda. Batom e algumas gotas de perfume francês, roubadas do frasco da mãe.
Naquele tempo, toda noite tinha lua. Com ou sem estrelas. Toda noite era azul e linda. Aos domingos.
O baile começava cedo e ela fingia não notar os olhares insistentes dos rapazes. Dançava displicente com uns e outros. Ar de enfado. Até que, depois do intervalo, ele aparecia. Às dez. Sempre. Como um deus sob a luz negra do salão.
Dançavam até o último segundo, última música. Sempre. Depois, beijo rápido à saída. Quase casto, não fora o calor que lhes subia coxa acima.
A cada domingo, tudo se repetia. Então, um dia, ele não veio. Todas as noites tornaram-se escuras. Sem lua. Para sempre. Nunca mais dançou.
Às vezes, uma lágrima humedecia-lhe o olhar quando ouvia a canção antiga.
Tempos depois, um convívio de final de ano lectivo de alunos e professores. Sorriu ao ouvir a mesma música. Mal acreditou, quando ele a convidou para dançar. Às dez. Como antes. Surgido do nada. Com a lua que, súbito, inundou a noite. Como se nunca houvesse o tempo passado.
Apenas mudou o beijo à saída. O gosto de vida vivida que, para sempre, lhe marcou a boca. Ele tinha casado. O filho era aluno na mesma escola. Nunca mais lhe conheceram namorados a sério após a faculdade. Obviamente nunca casou.”


In: "Asas de borboleta" (Não editado)

sábado, 19 de dezembro de 2009

Parabéns ROSY


"A Traição de Psiquê"





Apenas poderia existir um vencedor e perante a forma como encarou este desafio e por acertar sempre num dos títulos... Tenho o maior prazer em oferecer o exemplar d' A Traição de Psiquê, à minha querida amiga ROSY do blogue

http://versoslivres-rosy.blogspot.com/




Os dois textos seleccionados para a colectânea foram:

Poema dos cinco sentidos
Desespero do só

sábado, 12 de dezembro de 2009

Desafio "A traição de Psiquê"





Para quem gosta de poesia e/ou prosa poética sobre o tema do amor e do erotismo, um exemplar da colectânea "A traição de Psiquê" será oferecido a quem em primeiro lugar acertar nos títulos dos meus dois textos que foram seleccionados e que integram a referida colectânea.


O prazo termina às 00 horas do próximo sábado (dia 19).



sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Os sonhos também se abatem

(...)

Uma névoa cobria o grandioso edifício do hospital. Uma nébula cor de chumbo que irritava os olhos. O calor tornava o ar rarefeito e os pulmões tinham crostas sólidas que tornavam a respiração um inédito trabalho consciente. Era meio-dia e o estio não havia maneira de abandonar a estação do tempo.
Meio-dia e um minuto. Desde madrugada que tinha travado uma contenda contra o tempo. Furtado abandona o hospital e dirige-se para a estação do metro. Esperava como uma raiz apodrecida pelo comboio. Uma menina esboçava um sorriso. Não era uma menina qualquer. Tinha a tez alva, de uma nórdica. Os olhos vítreos de um azul-marinho, encimados por supercílios traçados a lápis de cera. O rosto era ornamentado por maçãs salientes e róseas. Os lábios de Vénus, e um nariz que não saberia definir, mas que possivelmente associou aos das deusas celtas. Da fronte ampla e lisa, emergia uma farta cabeleira azeviche e sedosa, parcialmente presa na nuca. Ela olhava na sua direcção, para o vácuo e sorria. O médico, atónito, tremia. Ignorava o motivo, mas era fácil supor. Nunca uma menina lhe tinha sorrido daquele modo. Nem em sonhos. Nenhuma, jamais o iria certamente fitar com tanta meiguice e carinho quanto aquela menina que parecia uma pétala de poesia.

Acordou a meio da noite com suores frios. Depois da preguiça, espreguiça.
Esticou os braços e tremeu como aqueles que querem não tremer. Gesticulou e fez uma careta alongada ao ritmo de uma breve flatulência. De seguida desfez um Xanax num copo que continha uma réstia de cerveja. Encostou-se na almofada e fechou os olhos. Tudo era negro como breu. Uma espécie de contentamento iluminou o nirvana de ascese moderna.
Todas as imagens eram ficção. Esperava que aquele quadro negro permanecesse eternamente. Pelo menos até ao amanhecer. Assim, não pensaria sequer a dormir. Arrebatado, cego, estático. Não existem introduções para a epifania.
Uma visão não tem prólogo nem epílogo. Simplesmente acontece.
Após algumas horas acordou de novo sem dar conta de si. Deambulou pelas diversas divisões. Nenhuma delas o cativou. Transitava sem posição, apenas e só perspectiva.
Passou pela cozinha. Bebeu água de forma lenta como que saboreando cada trago, cada gesto.
Retornou ao quarto. Pensou um pouco no sonho e não deu muita importância, afinal já estava habituado aqueles sonhos nos quais “ela” sempre agia assim. Simplesmente sorria para o nada.
Voltou para a cama. A imagem da menina deusa girou-lhe de novo nos olhos. Sabia que tinha sonhado. Por vezes um, noutras, vários e em muitas das noites, nenhum.
Fechamos os olhos e a alma dorme noutro lugar. Sonhar é bom. Sonhar é viver, amar, sentir. Mas, os sonhos também se abatem.
(...)


In: A filha que nunca tive

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A Nobreza na despedida


Esta noite a insónia, o desespero e a desilusão não me largaram um segundo.
A necessidade de respirar a vida ergueu-me do leito bem cedo.
O sol envergonhado conduziu-me até à beira mar.
Há dias assim, em que se pesca e repesca no fundo do baú, na esperança de encontrar qualquer coisa. Não precisa ser valiosa, nem imponente, nem dourada, basta que seja uma qualquer coisa.
Fiz uma retrospectiva da minha vida. Pensei muito. A dor inundou-me. A desilusão agarrou-me com os seus tenazes braços e não me largou.
Vou morrer virgem de tantas coisas, de tantos sentimentos e sensações que nunca provei, que não sei como são. Julgo que tirando a minha mãe ninguém me embalou. É assim, sei que irei morrer, sem provar o sabor da acalmia da mente, da alma, o sabor do verdadeiro amor, sem represálias, sem tiranias, de alguém que se intitula de perfeccionista e única.
Mas que se desengane, porque não o é, não o foi nem será. Que pratica o que condena no outro. Que magoa da mesma forma que todo o ser. Que toma por vezes atitudes certas e as posturas erradas como todos.
Pensei na minha mãe, doente. Meditei no meu pai igualmente enfermo. Para quê tanto ódio se amanhã poderei já não fazer parte dos que me amam ou dos que me desiludem.
Assaltou-me a ideia do amor que tanta gente apregoa sem o praticar.
Se pensarmos na vida, ela é tão curta, para quê ferirmos o coração? Para que nos serve destroçarmos a alma de alguém que dizemos amar?
Será que vale a pena? Seremos eternos?
Afinal vingança é sinónimo de amor?
Se o destino existe mesmo, ele que me aniquile e me faça renascer noutra vida, e essa outra que virá um dia que me ofereça a paz de espírito, sem assombros de fantasmas da infância, sem o peso de todos as responsabilidades e principalmente sem esta lucidez que, como um espelho gigante e multifacetado, me mostra clara e nitidamente os meus erros, omissões e faltas. Tenho saudades do que não conheço, mas que revejo na vida dos outros. Afinal errar é humano… e não é apenas um que falha…
Tenho pena desta minha existência, desta passagem pela vida, tão imperfeita. irónico é que, desde que me lembro de ser gente, sonhei com esse colo, esse abraço protector, esse escudo contra os desgostos ridículos e as amarguras de lágrimas de raiva e sangue. Sonhei-o sempre. Nada de especial, nada de fantástico. Apenas alguém capaz de me amar como sou, que saiba quem sou. Que me ouse conhecer para além do óbvio e de me cuidar, como um livro antigo ou uma peça sem outro valor senão o da saudade.
Se é o fim, que seja, mas que seja com honestidade, com a nobreza que ambos merecemos.


7-12-2009

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Mulher! Sei que sou a última pétala da tua flor...


Mulher! És Febe deusa da lua, diva de mistérios e segredos.
Mulher bela com os seios nus, voando pelo céu e levando numa das mãos um cântaro de prata.
Anseio pelo dia que possa contigo voar pelo firmamento. Beijar teus lábios entre o brilho da lua histérica repleta de fascinação, que risca o céu, desvirginando as madrugadas.
Mulher! Nunca percebi muito bem o porquê dos teus números ímpares, se o teu nome é par.
Tudo em ti é impar. Único e indivisível.
De duas belas e sublimes flores que te entreguei escolheste apenas uma.
Um Malmequer. Começaste de forma ronceira o jogo cândido de o desfolhar na minha frente. Mal me quer. Bem me quer. Mal me quer.
Eu sorvia cada uma das tuas palavras tornadas pétalas e permanecia expectante pelo teu desfecho.
Aliás o meu desfecho em ti. Mas tu não me permitiste entender.
Mal me quer foi, certamente, a última das pétalas que arrancaste.
Eu fui, sem dúvida, a última pétala que arrebataste.


2008

domingo, 29 de novembro de 2009

“…uns tocam-nos o corpo sem nunca nos terem tocado a alma... e outros tocam-nos a alma sem nunca nos terem tocado o corpo..."

Neste lugar, as árvores são objectos de Van Gogh.
Fico longos momentos ao sol, para as ver retorcer, bater, suplicarem e chorarem sob os ataques de vento.
Levantei-me cedo e tentei encontrar Igor. Nem a sua sombra.
Agora só um café. Sem a cafeína matinal sentia-me um tronco inanimado, sem vontade própria, sem reacção.
Fui a pé. Sem pressas e tentando encarnar na minha mente a percepção do malogrado pintor.
Tento-o muitas vezes. Quando o consigo, vejo o mundo a cores.
Toda a gama dos azuis. Azul lavanda do céu, azul-marinho do mar e o azul mais deleitoso do horizonte.
Os verdes. Prateado das oliveiras, pouco mais escuro, como o das videiras, mais escuro ainda das moitas de mato.
Os brancos, reflectidos em cada casa da povoação, tanto à sombra como ao sol.
A gama dos ocres, o avermelhado dos telhados, ocre beige da igreja, ocre quase castanho de um pedaço de terra a meus pés.
Mas, curiosamente tenho medo das telas e até dos espelhos. Olho para as portas com desconfiança, julgando-as capazes de se fecharem brutalmente atrás de mim para não mais se abrirem.
É urgente que eu vá até à povoação e ao café, para me libertar desta angústia. Soltar-me do lado escuro da lua.
É necessário que eu desça de onde estou, correr apesar do vento que de forma matreira me tenta travar, que se enfurece de me deixar passar.
Recordo-me que no Verão passado Amélia estava junto à porta do café com Sofia, a mulher do meu amigo Filipe. Aliás foi através dele que ficara a conhecer como a palma das minhas mãos a vila.
Eu apaixonado pela mulher de Filipe como um garoto. Mas, impossível encenar com ela o jogo, cem vezes repetido da sedução.
Paralisado pela sua beleza, pelo seu humor e segurança. Eu pensava que as coisas por vezes são assim. Sonhar pelo menos uma vez com amor, em vez de o fazer. Entender o que uma vez li algures; “…uns tocam-nos o corpo sem nunca nos terem tocado a alma... e outros tocam-nos a alma sem nunca nos terem tocado o corpo..."


In: O lado escuro da lua (Não editado)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Teatro da vida

Reconheço que sempre estive sentado na margem errada do rio, na beira desacertada da vida.
Naquele lado cinzento que pronuncia tempestades de ilusão.
Não há vontade de partir.
Não há vontade de ficar.
Vou fazendo horas. Metade da vida é uma perdulária expectativa, tonta, ansiosa e inútil.
Tal como um espectro que se senta numa gare de caminho-de-ferro, à espera de um comboio que não se sabe quando passará e qual o seu destino. Certeza, apenas a visão trémula dos carris que parecem fundir-se num só.
Certeza absoluta, apenas o local de espera e às vezes a própria espera.
Vê o que temos feito de nós… Essencialmente, não temos amado. Não aceitamos o que não entendemos porque não queremos. Com que fim?
Temos amontoado a alma de coisas, coisas e coisas, mas não nos temos um ao outro. Que objectivo?
Apenas vamos construído catedrais, e ficando do lado de fora. Talvez, porque as catedrais que nós mesmos construímos, podem vir a ser armadilhas. Ultimamente, não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer a sua cércea de ódio, de ciúme e de contradições.
Temos disfarçado com o pequeno medo, o medo maior, e por isso nunca falamos o que realmente importa.
Temos chamado de fraqueza a nossa candura.
Eu sei que o meu mundo nunca foi azul celestial, nem a minha vida foi colorida como o arco-íris que ressuscita nas alturas.
No alto e por breves momentos, consigo ver-te, relembro o beijo de ardor, o abraço da alma, e todos os momentos que envolveram dois seres sedentos de amor e carinho.
Disse a mim mesmo que não chorava mais, mas não.
A minha dor está lá e não consigo dilui-la doutro jeito. Começo a chorar. No coração está presente a ferida de uma criança crescida embebida num homem imberbe... tenho medo!
Estarei sempre na espera de um toque suave no meu ombro, um abraço apertado e um beijo intenso. Lembras-te? Eu recordo aquele toque dos teus dedos na minha mão sedenta do teu amor. Sinto-os a percorrem-me os sulcos da espinha até chegar ao meu cérebro, sinto o meu corpo arrepiado transpirando de prazer. Sinto-te. O teu prazer também se intensifica e aqui estamos nós mais uma vez no enorme palco vazio de endereços, de público, sem a presença de um encenador que nos possa conduzir ao perfeito diálogo.
Sim, sei que já fomos assaltados várias vezes pelas pancadas de Moliére, mas nenhum de nós quis o papel principal.
Mas, ambos sabemos que este drama estará em cena até ao fim dos nossos dias.
Relembro o derradeiro diálogo da peça, uma encenação da nossa tríade da vida.
“Como eu te quero.” Digo em sussurro.
A lua ilumina o teu rosto, os teus olhos negros brilham de novo.
“Como eu esperei por este dia!” Exclamas.
O meu sorriso volta.
“Estou aqui contigo.”
“Tu estás aqui comigo?”
“Sim…”
“Então, derrama o teu sabor em mim.”
“Porquê?”
“Quero deslizar sobre o teu corpo delirante de paixão, como uma patinadora de dança num lago gelado!”

Novembro/2009

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Metáfora da liberdade



O tempo. Simultaneamente, inimigo e aliado.
Enquanto nos sorve a vida pelas beiradas, repara os estragos que ela causou no nosso âmago. Com o passar do tempo percebemos que um simples sorriso faz a diferença. Um simples abraço transforma segundos em longos minutos. Que o som de uma guitarra nos remete a outro mundo. Que estar só requer um equilíbrio emocional. Entendemos o real valor das pessoas, que todas são diferentes. Criamos novas expectativas. Queremos andar sozinhos, mas não queremos estar sós. Essencialmente com o passar do tempo aprendemos que o tempo passou mas não em vão. E, para mim, o tempo tinha sido um adversário difícil de combater. Se tinha.
Lembro-me muito bem de como era ser criança. O tempo era infinito e não havia morte. Nem sequer nela pensávamos. Passávamos-lhe sempre ao lado com a nossa inocência e vivacidade. “Só os velhos morrem.”
O mundo era uma imensidão. O relvado da escola primária parecia uma imensa pradaria americana. Os espaços pareciam tão imensos que nos perdíamos na nossa casa.
Os jogadores de futebol pareciam uns homens feitos, velhos. As miúdas dos concursos moldavam os fatos de banho a preto e branco como mulheres sensuais e com ar escanado.
As férias grandes eram mesmo grandes e no fim das mesmas tínhamos dado um “pulo” imenso, pelo menos era o que os adultos nos diziam. As emoções ainda eram grandes demais para nós, por isso submergiam-nos. A nossa casa era um claustro, de tecto alto e inatingível.
Tudo era possível. Os adultos tinham todas as respostas, por isso a nossa própria ignorância não nos afligia muito. Pensar? Apenas nas participativas corridas de caricas que tinham lugar no lancil dos passeios, ou nos jogos de hóquei em sapatilhas com uma bola de matraquilhos que com o “estique” lançávamos contra as sarjetas.
Deus era uma certeza. Estava em todo o lado. Olhava por nós.
Mas o tempo não perdoa e quando acordamos vimos por cima do ombro, o passado tão perto, que por vezes o queremos agarrar.
Como uma metáfora da liberdade, atirar-me apanhar uma gaivota e voar por aí sobre os mares, sem rumo, esquecer quem sou e o tempo que não tenho, esquecer as lágrimas perdidas e no cimo da vida pular de contentamento, esquecer os pensamentos ensanguentados e ser eu próprio assim como nunca fui nas asas de uma gaivota.
Queria eu vencer as batalhas todas de seguida, numa rajada inspirar o amor que sinto não existir no coração dos outros e como se eu fosse genuíno, mais puro do que as águas cristalinas como as que jorram de escusas cascatas, ver reflectidos em mim os sonhos deles sem pontas de ódio ou de ruptura... só e apenas assim ser nas asas de uma gaivota.
Cala-te boca! Cala lá todas estas palavras porque hoje a loucura é muita e a febre de me sentir vence, porque hoje a vontade de ir me surpreende. Tomara eu ser Fernão Capelo e voaria sempre ávido de liberdade desafiando as regras impostas por gente que se julga dona do mundo e alertando-os a abrir os olhos para a liberdade que só o conhecimento pode trazer.
Entretanto, assim como Fernão Capelo Gaivota, acredito que somos ideias perfeitas e ilimitadas de liberdade, porque o perfeito vem da busca infinita pelo melhor.
"Para as pessoas que sabem que a vida é algo mais do que aquilo que nossos olhos vêem.”



In "A filha que nunca tive"

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Fragmentos


Há quanto tempo a cadeira ficou vazia? Não sei, mas o teu lugar permanece por ocupar!
Lembro-me com saudade daqueles caíres de tarde em que com o olhar de anjo agreste me inquirias o que estava a ler.
Se eu pudesse ter prendido esse olhar ao meu, certamente a cadeira continuaria ocupada, a mesa de madeira estaria ainda decorada pelo teu cabelo encaracolado de negro.
Cinquenta anos nos ombros e ainda tenho receio de decidir. Irei necessitar de mais outro meio século, até eu embarcar na derradeira carruagem e hesitarei sempre.
Eu andava numa de literatura russa. Manias dos anos setenta. Acordava com a noite ainda a descansar no seu leito ficcional de etéreas reminiscências.
Na ligeireza da velocidade da luz engolia metade de uma banana, bebia um copo de leite e num som abafado bocejava deixando sair o aperto da saudade sentida durante a noite.
As portas da biblioteca escancaravam-se às nove da manhã e não queria perder a cadeira habitual, o odor, o ritual de sempre.
Sentado na mesa de madeira transversal à estante, sentia-me o monarca dos livros. A leitura sempre cativante fazia-me perder o mundo exterior, trocando-o pela vida cravada nas folhas de papel dos clássicos.
Portanto, deixei-me desvanecer dos propósitos sociais da vida, e unha com carne percorria a lombada poeirenta dos livros expostos à espera que os avivassem.
Comia um pedaço de pão, nunca desviando uma nesga a atenção das páginas pálidas de tão amarelas.
No dia seguinte o ciclo recomeçava. Um dia ela apareceu escondida debaixo dos óculos de massa pretos. Acariciava os livros com mãos delicadas, roçava-as nas capas dos romances.
Levantava-se a meu lado, bocejava com os braços em arco esticava a coluna, arregalava os olhos para mim, como se eu fosse inverosímil, um invento novo, ou o personagem de uma vida refundida.
Passaram alguns dias e a formalidade mantinha-se.
Não me precipitei. Um dia, ao fechar o último livro tomei-a nos braços como impressa e editada para mim.
Acariciei-lhe os lábios, a face e a minha boca tocou a sua com a suavidade estonteante do secretismo.
Afinal de contas, apenas tínhamos, Dostoiesvski, Tolstói, e o resto dos sábios como testemunhas.
Presentemente, as provas são os espectros do meu passado.
Agosto/2007

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Ensaio sobre o suicídio

«Depois, também sofri muito de amor e o sofrimento por amor é um sofrimento físico. Daniel falava-me de um dos seus pacientes adolescentes que tinha uma depressão muito grande e o rapaz dizia-lhe: “Olhe, gostaria de ter danificado um órgão para que me doesse só esse órgão, porque com a depressão dói tudo.” É assim o sofrimento por amor, dói tudo. É horrível. Esse foi um conhecimento da dor muito, muito grande».

[Conversas de António Lobo Antunes - Maria Luisa Blanco]


Existem tantas pontes, que por vezes fico parado a olhar para cada uma delas de olhos arregalados, às diversas possibilidades, e fico errante a pensar em cada uma delas. Fundamental é que nos chamem de longe para um, ou para o outro lado, alertando-nos para o labirinto inventado. O pior de tudo é que ninguém me evocou.
Não sei qual será a decisão que Ele irá ter comigo. Eventualmente não me permitirá pegar de novo na caixa rosa, ou poderá trocar a cor da caixa enganando-me, tal como os outros o fazem, e tal como eu me tenho enganado a mim próprio.






A minha vida está estraçalhada como as nuvens baixas que são empurradas pelos ventos fortes do inverno. Não é possível ainda enxergar ao longe, mas creio que não há muito que fazer, a não ser seguir em frente.
O que gostava era poder avançar no trilho da vida com uma das mãos protegendo os olhos, e a outra, agarrada aos amigos.
Até está um dia bonito: chuva fina, nuvens, ar de Outono e um passarinho que implica com alguma coisa invisível ali adiante do fio de alta tensão.
A minha mente vagueia freneticamente pelos meandros sujos e estreitos corredores da depressão, já há algum tempo.
A noite serve de albergue à minha pobre alma. No escuro vejo a realidade. Na negrura da noite reconheço que tudo findou.
Fui feliz, fui Homem, fui amado, amei e amo alguém que ainda não me conhece. Alguém que me confunde, inebriada por embustes da destruição.
Queria ter conseguido explicar-te por gestos virtuosos que não são apenas só os ratos que vagueiam nos túneis escuros, onde o cheiro nauseabundo mostra a decadência que somos.
A saudade inunda-me de dor. Porque mudou, o que mudou?
Quem te fez alterar a doçura do olhar e trocá-la pelo azedume do confronto.
Porque me abates por constrangimento de uma inquisição de uma máscara do degredo.
Sinto-me esgotado, nauseado, fragilizado e farto desta azáfama que acompanha a realidade dos dias, sempre repetitivos, exaustivamente vazios.
Estou exausto pela briga de palavras sem fim, que destruíram o que de belo existia.
Agarras-te aos meus parcos cabelos e segues viagem comigo?
Aqui na terra nada tem sentido!
A única solidariedade que se recebe dos outros é ignorância e o desprezo. E a vida é tão curta e célere. Porquê tanto amor desfeito em mágoa?
Quem sabe se encontraríamos a felicidade, o tal amor que apregoas, que escreves e que revelas com tanto enleio.
Mas, apenas as moscas que me bebem as lágrimas me fazem sentir que ainda tenho uma réstia de vida.
A embalagem era extremamente apelativa. Não sei se era a cor rosada que emanava e me feria os olhos esbugalhados por mais uma noite de insónia, ou se o rótulo meio desfeito onde apenas sobressaia umas letras desfocadas onde se conseguia ler, “Manter fora do alcance de crianças”. Estava ali à minha disposição; em cima da mesinha de cabeceira. Era apenas uma caixinha que ela usava para ter à mão os comprimidos que a faziam dormir. Nunca liguei qualquer importância ao valor daquela caixinha e, no entanto, ela continha o passaporte para uma viagem sem retorno, apenas de ida.
Irei levar algumas rosas, alecrim, para que o seu perfume e o sentido da Primavera perdurem.
É lá que me quero refugiar.
Nunca tinha pensado nisso, excepto aquela noite. Uma noite em que acabara de chegar de mais um dia de trabalhos forçados. Comi uma maça para poder ingerir um bom pedaço de álcool para me aquecer a alma tão fria e tão dormente que já nem a sentia. E eu que nem prezo álcool.
Também, para que queria eu uma alma? Que é que ela me dá ou me faz?
Julgo que é daqueles dias, em que não devia ter nascido!
A caixinha rosa continuava ali. Quantos comprimidos teria ela deixado?
A minha mão direita estendeu-se tremulamente para aquela caixinha tão apelativa e consoladora pelo imaginário que já me estava a provocar.
Não custaria nada e dormiria para sempre; tão bom. Era disso que eu estava a precisar ou seria de mais um pouco de tinto?
Estava só. Levantei-me e fui ver a panóplia de garrafas que tinha no bar em perfeito alinhamento, porque nunca tinha desfeito a parada.
Mas para tomar os comprimidos eu precisava de beber alguma coisa e essa coisa estava também ali à mão. Peguei numa ao acaso, afinal tudo me sabia a fel, tal como a vida. Mirei-a de alto a baixo e verifiquei que já tinha sido aberta. Talvez no século anterior. Época em que ainda alguns confrades apareciam cá por casa.
Teria ainda algum líquido? O suficiente para engolir os comprimidos? Já não tinha forças para me levantar novamente e ir buscar outra garrafa.
A caixinha rosa choque continuava ali e a minha mão já estava em cima dela.
Senti-lhe a textura sob os meus trémulos dedos e senti-a fria.
Se me agarrar com a força necessária a essa caixa rosa ficarei lá em cima, sim… onde o horizonte se confunde com o rendilhado das nuvens que parecem fugir de algum sarilho também.
Um arrepio percorreu-me a espinha; ou teria sido outro tipo de arrepio? Não sei quanto tempo estive com aquela caixinha na mão. Não sei quanto tempo demorei a tomar uma decisão. Não sei quanto tempo a olhei com um olhar turvo e abstracto.
Não sei por que razão, não lhe peguei com a decisão com que me propusera.
Dei por mim a olhar para aquele objecto sem saber para que é que servia e naquele momento, apenas me apeteceu dormir.
Afinal, tão perto do derradeiro sono; tão desejado; ali tão à mão.
Reparei então que estava deitado sobre o lugar dela com o braço direito estendido para a mesinha de cabeceira segurando a caixinha rosa que continha o passaporte para a derradeira viagem. Tantas vezes assim estivemos.
Quantas vezes senti o seu calor, o seu respirar, o seu arfar. Tantas vezes assim fiquei depois de fazer amor. E, neste estúpido momento, repetia aquela posição estendendo a minha mão para uma viagem. Não consegui conter o choro; não consegui aguentar as lágrimas; não consegui segurar a caixinha rosa. Não consegui partir.
Restou-me a certeza que as noites serão de um frio impotente. Que os dias serão certamente mais despidos de roupagem florida e cobertos de mágoa, dor e muita lágrima.
Se é para enlouquecer, quero dar em louco nas nuvens!

Nota: Por motivos pessoais terei de fazer uma pausa nos meus blogues.

Regressarei assim que me for possível.

A quem me tem acompanhado o meu obrigado.

sábado, 14 de novembro de 2009

Homem de cinquenta...

(Este texto pretende ser uma sátira aos homens de cinquenta… pronto! Como eu. É uma adaptação de um excerto do livro Ano Louco, e pretendo com ele dar a conhecer uma faceta mais prosaica do Sonhadoremfulltime… Divirtam-se, se for esse o caso…)



Todas as sextas-feiras tento a sorte que meio mundo anseia… o Euromilhões. Sabem porquê?
Porque quando somos ricos podemos tratar muito melhor do nosso aspecto. E eu estou na idade apropriada para o fazer.
Vejam os retoques que esse pessoal de Hollywood protagoniza além das películas em que participa.
Embora a grande maioria ainda nem se abeire dos quarenta, mas quem tem “money”, tem tudo.
A partir dos cinquenta anos, começamos a sentir o peso da idade, ou seja, começamos a procurar sinais da idade.
Até lá um tipo não tem idade, é simplesmente novo, alegremente sem idade, nem sequer sabe o que é isso da idade.
Depois, bem depois, quando dá por isso, apercebe-se que já não pode renovar o cartão jovem, é confrontado com o facto de que afinal já começa a ter idade.
Diz-se que a primeira crise, começa com a ternura dos quarenta. Começamos com aquele saborzinho diferente, o da descoberta, o da procura dos sinais e efeitos da idade, espécie de obsessão genética.
O problema é que em mim são difíceis de encontrar esses sinais e ainda mais os efeitos, é verdade! Acreditem… percorro o corpo em busca de sulcos, mas não encontro. Pelo menos não os vislumbro, nem os apalpo.
Claro que visto de cima, pareço-me cada vez mais com o Santo António, mas tento nunca me baixar na presença feminina para que não me descubram a careca. Depois também nunca fui de fazer parar o trânsito e tirando aqueles detalhes fisionómicos, algumas proeminências na zona abdominal de ténue importância, não encontro nada de verdadeiramente significativo.
Não ocorre em mim neste momento nenhum processo de degradação física ou intelectual visível, qualquer sintoma de senilidade mental... o que é que eu estava a falar mesmo?
Ah, a única alteração que ocorreu em mim, foi de um momento para o outro julgar que tenho as bainhas da maioria das minhas calças subidas de mais.
Deixei de suportar andar com a boca das calças a dançarem-se-me nas canelas quando ando.
Quando aperto o passo o efeito ainda agrava. Fui eu que cresci? Será que ainda estou a crescer?
A partir de agora a calça tem que roçar o chão sem lhe tocar, sem que, no entanto não esconda a marca da meia quando cruzar as pernas. Fundamental!
Confesso que ainda não dou mais valor ao interior que ao exterior duma gaja, mas talvez para me redimir, passei a dar mais valor à minha roupa interior que exterior.
De marca, impreterivelmente, tenho actualmente um invejável stock de meias e cuecas tipo boxer, justinhas e de excelente qualidade.
Que melhor sinal dos cinquenta que este! Também devo dizer de outra alteração significativa...
Passei a dar importância ao barulho que os sapatos fazem quando ando.
É verdade, o que este gajo se lembra!
Insisto com a elegante mania de só usar sapatos pretos com atacadores, mas a sola e o tacão ganharam significados completamente novos para mim.
De modo que naturalmente numa próxima visita à sapataria, levarei em conta tais pormenores e pedirei à empregada que me deixe medi-los antes de ensaiar o andar em diversos tipos de solo.
Se virem alguém experimentar sapatos nos canteiros das plantas, teste de som em solo arenoso, muito provavelmente serei eu.
Se usar boxers Calvin Klein, então serei eu de certeza absoluta.
De resto, cabelos brancos, alguns, calos nos pés, alguns (nos quintos pododactilos… julgo que é assim que se chamam os mindinhos dos pés).
Estou, como diria o “Hermano”, melhor que nunca e não fui acusado de pedofilia, de cheirar mal dos pés, de não ter declarado todos os meus desastrosos negócios bolsistas no IRS e não tenho ninguém atrás de mim exigindo-me uma pensão de alimentos.
Sinto-me em forma e comecei a beber dois litros de água com chá da Herbalife por dia no trabalho, outro sinal da idade, mas também resultado das leituras fugazes que faço da Mens Health, (onde ainda tento descobrir a Sylvia Kristel, do meu tempo) por acaso outro sinal da idade.
Vivo num meio-termo nirvânico, conseguindo por um lado pagar as contas triviais, água, luz, aspirinas, ir ao cinema quando o rei faz anos... e pouco mais.
Cadeias de fast-food, moderadamente, mas por outro não consigo chegar a um Smart Roadster e ter uma casa com uma vista deslumbrante para o mar nas Açoteias...
Bom! Também não terei desgastes nem aborrecimentos.
Passados uns aninhos, muitos aninhos lá para a frente, uma miúda do liceu irá confundir-me com o namorado com quem acabou ontem. É que os seus namoros nunca resultaram com miúdos mais novos que ela.
Os meus amigos esquecidos da escola primária vão reconhecer-me e à saída de um restaurante imediatamente perguntar-me-ão:
- Desculpe, penso que andei com o seu pai na escola...
Jamais terei umas rugas de expressão (idade, velhice) como o Jack Nicholson.
Que idade terá o tipo?
Já terá passado dos cinquenta?
O homem é um galã, logo nunca deve passar dos trintas e tal.
Não! Esperem lá. Eu assisti ao “Voando sobre um ninho de cucos”, na estreia do filme em Portugal.
Esperem… estou a fazer as contas… afinal o tipo já tem setenta e dois…
Afinal ainda sou um jovem…

Texto: Ano Louco

Foto: Google

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Ajuda-me!



Apetece-me gritar, hoje. Rasgar a garganta em sustenidos de dor.
Não me perguntem as razões, não me perguntem nada.
A letargia em que me encontro prende-me as pernas, amarra-me o coração, acorrenta-me o corpo.
Quero libertar-me, voar sem rumo, agarrar-me às asas de uma gaivota e em cuidado altaneiro sobrevoar o teu corpo composto por grãos de areia que se esvaem na impotência das minhas mãos.
Quero refrescar o corpo e alma nas ondas geladas do mar revolto e de seguida descansar sobre a areia morna do teu corpo.
Precisava de ti neste momento a olhar comigo para o vácuo, mesmo que permanecêssemos no silêncio dos afectos inconfessáveis!
Dá-me a tua mão e agarra-me com a força do vento que verga o pinheiro bravo.
Mostra-me que a amizade é muito mais que uma palavra, que não passa apenas de uma miragem sem retorno. A tua, eu tenho, e a dos outros?
Amizade! Palavra mágica que está a morrer a extinguir-se como a chama de uma vela acabada.
Diz-me através dos teus olhos negros onde estão os meus amigos. Os meus já não vêem, estão cegos pela escuridão que me assola a alma.
Já não vislumbro sorrisos forçados, já não oiço vozes falsas que me querem dizer a verdade.
Quero fugir dos lábios que me beijam, que me tocam a pele da face, com uma carícia forçada e enganosa.
Oiço o grito da minha própria voz e não o reconheço. Quero abandonar o mundo da perfídia e do misantropismo.
Vou preparar a partida. Algumas peças de roupa, e não vou esquecer de levar um pouco da lua na balbúrdia da minha mala. Não irei esquecer de num cantinho levar um pedaço de ti.
Será esse fragmento teu que me irá amparar, e envolver-me num véu transparente de verdade e encher-me o peito desguarnecido de alento.
Não, não quero ficar. Não quero pensar… mas não consigo deixar de o fazer.
Eu quero, mas nada faço para me ajudar e apenas escrevendo me consigo calar.
Porque nos escondemos em tanta contradição?
Os afectos deturpam-se, interrompem-se à mínima contrariedade.
Se é assim onde está a autenticidade?
Que realidade é esta? O desassossego que me acompanha, dia após dia, tem o mesmo sabor da atrocidade que se comete a cada momento em que fingimos, que nada vemos, que nada sentimos, que nada fazemos.
Ajuda-me a irradiar o que de pérfido está no mundo, e porventura em mim.
Age ligeira porque as lágrimas rolam, uma após outra e queimam-me a face de saudade, raiva, tristeza, dor, amor. Sim, amor também faz sofrer.
Deixa correr este rio que há tanto tempo acorrento, que se quer soltar e ir desaguar ao teu regaço.
A modorra fez-me perder a asa da gaivota que me iria levar até ti. Não irei jamais contemplar o teu corpo de areia, escutar o teu sorriso, o paladar da chama dos teus olhos, nem ver o colorido da tua voz quando me chama.
Neste momento, com o breu que me tinge a alma, apenas me poderei agarrar ao patágio de um qualquer morcego até que este me largue em qualquer algar escuro e pérfido tal troglóbio onde possa depositar o meu corpo na vertical, tal como a minha consciência.
Ajuda-me a ser eu!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

As saudades que eu tenho de ter saudades


Queria conseguir arranjar verbos para o que sinto neste momento, mas as palavras, como eu e tu, não se juntam para formarem as frases que desejo, como eu e tu, que não queremos moldar o desejo em palavras.
E é embrenhado nesta saudade infinita que mergulho o meu corpo e o desejo de te abraçar.
Abraçando sentimentos jamais extintos.
Quero tanto recordar! Quero tanto acariciar a saudade de momentos vividos, instantes belos trocados e sentidos em noites de chuva, mas sempre iluminados pela presença da fase da lua.
A lua alterou de fase mordida pela sombra do sol, enquanto nós alterámos de faces mutilados pelas garras da obtusidade.
Chove! Neste fim de tarde. As gotas ensopadas de dor invadem a minha alma de saudade. E, nesta hibernante nostalgia recordo momentos de amor, instantes de mim em ti.
De coração rasgado, olhos encharcados, não sei se de lágrimas, ou pela chuva molhados, devoro o teu corpo em minha mente.
Uso o meu corpo débil que há muito entrou em erupção, derramando magma incandescente sobre uma alma demente e delirante.
Mesmo magoado, torturado, cansado e abandonado pelo acaso serás sempre a chama viva que meu peito acolhe num corpo enfeitiçado, como um prisioneiro seduzido entre a loucura e a paixão.
As saudades que eu tenho de ter saudades.

sábado, 7 de novembro de 2009

Dont't leave me now - Supertramp

(Uma das minhas músicas... )


Don't leave me now
Leave me out in the pouring rain
With my back against the wall
Don't leave me now
Don't leave me now
Leave me out with nowhere to go
As the shadows start to fall
Don't leave me now
Don't leave me now
Leave me out on this lonely road
As the wind begins to howl
Don't leave me now
Don't leave me now
All alone in this darkest night
Feeling old and cold and grey
Don't leave me now
Don't leave me now
Leave me holding an empty heart
As the curtain starts to fall
Don't leave me now
Don't leave me now
All alone in this crazy world
When I'm old and cold and grey and time is gone...

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Demência...

(...)

Beto era um parceiro de longa data. Companheiro desde a escola primária. Era um quarentão exuberante, um lunático de charme.
Possuidor de uma ostentação desmedida era um homem da tela.
Apesar do hedonismo, apenas tinha entrado em películas, hard-core. Tínhamos passado imensas férias juntos.
Um escritor frustrado e um actor que era conhecido, pela ostentação e tamanho do pénis, é sem dúvida, uma simbiose perfeita.
Igor por sua vez lembra-me de algumas façanhas vividas com Beto. Tem uma memória de elefante.
Tanto lugar pacífico e ignorado, abruptamente abrasado, revolucionado pela nossa louca fúria.
Vítimas incontáveis e ridicularizadas, por bêbados desvairados, à procura da sua sombra.
É tudo isso que o russo conta.
O striptease das meninas que faziam a primeira comunhão, a tourada nos aristocráticos jardins do palácio de Queluz, o enjaulamento no jardim zoológico do proprietário do Bogotá, a corrida maluca de carro através de Albufeira, o fogo de artificio no cemitério dos Prazeres.
Os estridentes vómitos e flatulências do meu amigo no hotel Tivoli de Sintra, após um belo repasto, acompanhado de um bom e muito vinho.
Enfim uma farra por mês, uma purga tanto física como moral.
Este era o retrato de dois pseudo-artistas frustrados com o mundo e com a vida.
Relembro uma entrevista, não sei para que jornal, que uma jovem jornalista me fizera, devido à instabilidade provocada pelo fogo de artificio no cemitério.
Claro que estivemos com os costados na tarimba da esquadra da Polícia durante uns dias, mas o gozo valera a pena.
- Qual o motivo que o levou a fazer tal coisa?
- O ímpeto.
- Nem mediu as consequências de tal acto?
- Não! Apenas me apeteceu…
- Se não escrevesse, senhor Daniel, que faria?
- Seria gangster, menina. Al Capone... conhece? Vem no dicionário. Escrever provoca doença.
- Que tipo de doença?
- Doença de tudo. Doença da alma, da cabeça e da própria consciência.
- Qual o seu remédio?
- Não existe remédio, boneca…
- O senhor Daniel é um anarquista.
- E a menina, uma grande burra!
(...)
Texto: In "O lado escuro da lua" (Não editado)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O sorriso da lágrima


Sabes?
Hoje foi um dia difícil. Agora já noite sinto, no fundo da garganta, aquele arranhar, aquela vontade de chorar.
Foi um dia que não me lembro de ter há muito tempo. Ou será o inverso?
Quero chorar de raiva, de solidão, de amargura e de alívio. Não me lembro de me sentir tão só há tanto tempo. Quero chorar para tentar aliviar o coração, para tentar arrefecer todas as ilusões de amores e contos de fadas que cá dentro, ainda se acalentam e vivem da minha personalidade sonhadora.
Quero deitar-me na cama, agarrar a almofada e contar-lhe sonhos enquanto ela segura as minhas lágrimas que teimam em sair. Enquanto ela me sussurra canções de embalar como quando era menino, enquanto me ampara no seu regaço. Quero mostrar-lhe o quão salgado está o meu coração.
Mas não o vou fazer. Não vou carregar a minha almofada com lágrimas que me adormecem e não vou deixá-la cantar as músicas que me embalam na solidão. Não deixá-la tomar em si, os meus problemas e hoje vou tentar não dormir encolhida no meu mundo. Hoje vou deixar a minha mente vaguear, vou deixar o meu coração sorrir e não vou ter medo de acordar.

Hoje, mas só hoje, vou sorrir à lágrima.

domingo, 1 de novembro de 2009

Nota 10


Este fim-de-semana andei afastado um pouco da blogosfera, e hoje qual o meu espanto ao ver que tinha não um, não dois, mas sim três selos “Nota 10” para o meu cantinho de sonhos.
Agradeço do fundo do coração:

Á brilhante e amiga Luz
http://atomovida.blogspot.com/

Á minha amiga do desassossego Milhita
http://milhita-milhita.blogspot.com/

Á assídua leitora do meu espaço Carla
http://tatuagens-carla.blogspot.com/


1- Escrever uma lista com 8 características
2- Convidar 8 bloggers para receber o selo
3- Comentar no blog de quem lhe deu o selo
4- Comentar no blog de quem escolheu.

Não vai ser tarefa fácil, porque eu próprio não me conheço… aqui vai resumidamente:

Amigo
Apaixonado
Simpático
Sensível
Sincero
Sonhador
Teimoso
Sempre na lua


Agora é assim, os blogues aos quais oferecia já foram escolhidos :(
Assim quem quizer é só escolher o selo e levar…
Obrigado

sábado, 31 de outubro de 2009

"Gostava tanto..."



Aprendi o saber de não ter pressa.
Aprendi que o amor pode ser silêncio.
E porque o amor pode ser apenas silêncio,
ela, não respondeu.
Porque eu não tinha perguntado.
Assim, aprendi a não tentar adivinhar o passo seguinte
porque me pode poupar da desilusão.
Aprendi a conjugar o verbo ser
nos tempos todos, meus e vossos.
Aprendi o poder do abraço,
a linguagem do sorriso dos lábios,
a beleza inimitável do olhar,
e dessa forma, fitei-a nos olhos apenas, e li-a.
E ela desvendou-se,
Abriu-me a alma do seu olhar.
Aprendi um pouco de tudo,
no tamanho possível que me foi concedido.
Então sussurrei-lhe:
“Gostava tanto…”
Um dedo fino nos meus lábios,
Uma mão em concha na minha face
E percebi,
Afinal, ela já sabia.
E eu não perguntei
Ela já me tinha respondido.
Agora, já não tenho pressa de mais nada…
Deixem-me viver, mesmo que enganado
acerca do verbo e do próprio tempo.




quinta-feira, 29 de outubro de 2009

No trilho da memória


Fui traído pela minha imutável apatia, e atraiçoado pelo sono. Com água numa simples garrafa afastei todas as almas deste e do outro mundo. Bastava-me a companhia do silêncio e da garrafa de água para me saciar a sede do invariável.
Percorri a estrada problemática e sinuosa do pensamento.
Durante o trajecto, não vislumbrei cruzamentos nem paragens obrigatórias. Pelo menos não vi.
Senti latejar o meu cérebro. As têmporas pareciam um tambor numa parada militar.
Estacionei o carro. Apaguei os faróis. A luz transformada em nostalgia.
O espelho retrovisor lado a lado com a solidão. De súbito acendi o brilho, sem rasgar a sombra, solitária e antiquíssima e calquei de novo o asfalto negro do pensamento.
Pela janela, observava a marcha veloz da paisagem, de seguida como embriagado fitei a inerte e poeirenta pupila da lua.
A boca não falava: a boca escutava metástases de omnívora iluminação.
De forma maquinal desci o vidro da janela e sob a sombra dos olhos deixei penetrar a noite como um corpo desenhado na álea dos ossos.
Afinal é nas colinas acessíveis e tardias que o mundo envelhece.
Senti a memória do sangue do céu-da-boca despovoada da fala, o silêncio libertado.
Deslizei para o espasmo factício do corpo enluarado, cuja morfologia desentendo.
Palpo o calor branco, o calor frio. O calor branco do calor do frio da terra batida.
O corpo esgueira-se do mercúrio trinta e oito pontos dois, e sobe: poalha lunar e mudez esclarecedora.
Doía-me todo o corpo. Naquele momento, a dor cingia-se apenas num furo em cuja abertura assoma uma formiga construtora, de forma a cismar a cigarra da dor no seu eterno e pobre canto, apenas para certificar-se da sua construção, pensei.
Sem mover um dedo, sem remorder a implacável solidão, nem uma torção esbocei, nenhuma entorse na ignição. Apenas o mutismo como que esperando alguém, um alguém feito de tinta permanente, que me pegasse na mão, que me aprumasse o céu nas minhas garras, afagando-o ali, no meu covil.
Cai-me o corpo nas mãos. De certo é a lua a transpor a escuridão da morte, a virar a página sob uma nuvem movente. Dói a dor, na sua ameaça.
Não sei se te perdi, ou se tu me perdeste. Ou, se acaso, ambos nos perdemos?
Ou na realidade, nunca nos encontrámos!
Talvez viva a doce ilusão do milho rei, na cor diferente, do bando perdido de pessoas sóbrias.

sábado, 24 de outubro de 2009

Rosas de um vermelho desbotado


Sob o olhar aceso de uma lâmpada fusca, pousam os nossos corpos cansados.
Deixo pernoitar a utopia no deserto do meu peito.
Respirações loucas traduzem a emoção, de horas e minutos passados. Duas almas vendidas a um amor incerto, crentes num feliz final.
No mistério dos afectos inexplicáveis que se debruçam sobre ti, e te encontram quase nua, envolta em pequenos pedaços de desejo, é nesta breve cantata de solene toque sagrado, que me dispo e me disponho para ti.
Numa faísca, trago uma coberta bordada de palavras mágicas que te aquecem os seios, fazendo-os enrijecer apenas ao toque da palavra desejo.
Depois deixo-te as tuas flores eleitas sobre a mesa, rosas de um vermelho desbotado como os teus lábios, que se alisam quando se provocam, beijando o ar quente que passa e deleitando-se com o prazer do momento.
Abro uma garrafa do melhor néctar, na esperança de me embriagar junto da fantasia que me enlouquece, até que a noite caía , e com ela as minhas ilusões.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Sou um viciado



Tu em mim, eu em ti, como um só corpo.
Olhos nos olhos, falando amor.
Mão na mão, para espreitarmos o toque da pele.
A vida que passa por nós cheia de esperança e vontade de ficar.
Eu em ti, tu em mim como dois corpos fundidos pelo anseio e pela lembrança profunda de um desejo incompleto, inacabado.
A vida a passar depressa, a ansiedade do jamais não se extingue.
Nós em nós, como em uníssono sentindo que existem dias eternos, momentos raros. Por vezes, dias raros vividos ao lado de momentos eternos.
Os nossos olhos colocados nas estrelas, postos numa recordação e a mão no peito que dói.
O padecer por uma vida que passou sem nos dar uma oportunidade de desvendar que os nossos corpos foram esculpidos para amar. E eu amo-te com a força que não tenho, com os meus passos incertos e trôpegos.
Amo-te com raiva. Amo-te com desespero e ânsia de ti. Amo-te com uma ternura louca. Amo-te sem-fim.
A saudade volta a tocar nos nossos corações e pinta-os de novo de vida, de eternidade, e de esperança.
Faz-se mundo de novo. Todavia sinto-me preso pelas grades da cela do medo.
Mas, a tinta volta a enxugar e as fissuras tornam a surgir nas paredes do coração. Odeio-me mais que a mim mesmo.
No entanto adoro os meus vícios. Preciso deles. Tenho-lhes afeição.
Sabem o que há entre um homem e o seu vício? Tudo e nada.
Dormimos com ele. Vivemos com ele. Respiramos com ele. Faz parte da pele. Faz parte de nós.
Não nos larga. Nunca. Senão não era um vício.
Qual é o meu vício? Outro cigarro, outro Eu, outra vida.
Meu Deus! Trago tantos segredos de amor nas pontas dos dedos e não tenho corpo onde os deixar.
Sou dono de dunas de memórias inquietas.
Mas, o brilho da lua não chega para as acalmar.
E é tão breve a essência do mundo no infinito do teu olhar.
Enorme o meu peito quando se abre dentro da palavra.
E, quando me tocas no silêncio que a minha boca encerra, beijas-me subtilmente o desejo de te ter, sem te ter.


Sou um viciado de ti.


domingo, 18 de outubro de 2009

Amor inocente (2) - Continuação


Parte 2


Abalamos calmamente. Não era nossa intenção dar nas vistas, mas mesmo que fosse julgo que não ia surtir qualquer tipo de efeito sob aquelas almas, agora, complemente pedradas, absorvidas no seu mundo, muitas delas já a ressacar e a dormir, um coma profundo.
Quando alcançamos a rua, tudo muda.
Apercebo-me da sua beleza, à luz de um candeeiro, que emite uma luz dourada.
Os seus braços ganham, igualmente, essa tonalidade dourada, como se toda a sua pele tivesse sido submetida a um banho de ouro.
Era a sua aparência física que estava a ganhar riqueza perante os meus olhos, que se iam habituando a uma luz que tinha aumentado de intensidade.
A conversa começou a fluir, e não demos pelo tempo passar. A nossa conversa corria como um rio alvoraçado, preste a transbordar as suas margens. Encontrámos uma série de semelhanças, e parece que o nosso encontro, naquele pequeno apartamento, não tinha sido um acaso.
Muitas pessoas que lá se encontravam, a tomarem substâncias menos próprias eram amigos comuns. Outro aspecto relevante era a nossa dura batalha, que tínhamos vencido.
Não deixei de ficar preocupado, com a sua tristeza em relação a uma das suas amigas que estava cada vez pior, como me segredou.
A conversa prolongou-se até altas horas da noite. Dissemos tudo o que tínhamos para dizer um ao outro, dissemos tudo aquilo que não poderíamos ter tido na divisão daquele apartamento, circundados pela escuridão e envolvidos por aquele som ensurdecedor.
O meu coração palpitava como que alimentado por cinco cavalos de corrida. Pequenas gotículas de suor escorriam das minhas têmporas e axilas. Sentia-me nervoso.
Avizinhava-se a hora do fim e não queria estragar uma noite que até ali tinha sido perfeita.
Acompanhei-a até casa com passos curtos, fazendo com que o tempo também caminhasse devagar e com passada breve. Estanquei junto da porta. Agarrei-lhe suavemente na mão. Senti a sua linda mão a tremer, e olhei-a nos olhos.
Molhei os meus lábios, momentaneamente secos, e acalmei a minha respiração um pouco acelerada. Imaginei que a sua respiração também não estivesse dentro dos limites da normalidade, para alguém que está estático.
A nossa respiração estava certeira, era a respiração de quem estava enamorado, ou de alguém que tinha uma atracção especial.
Os nossos olhares fixaram-se por longos instantes. Aproximei os meus lábios dos seus, e fui-me aproximando cada vez mais, lentamente. Ela correspondeu. Selámos o nosso encontro com um beijo quente. Os seus lábios ferviam. Os meus abrasavam.
Uma nuvem nasceu no ar e baptizou com gotas frias o nosso encontro naquela madrugada resfriada. Despedimo-nos, deixando logo a saudade ali plantada: uma plantinha acabada de nascer, a necessitar de carinho e amor.
Era o que nós os dois necessitávamos, e isso, só nós o podíamos oferecer um ao outro. Circunstâncias da vida atraiçoaram o nosso “amor”. Apenas e só mais uma vez pude contemplar aquele ser frágil pintado a ouro.
Daquele acto de paixão sobrou apenas um corpo, o meu que conseguiu fintar a morte, mas o harmonioso corpo de Inês foi de forma purgante cobiçado e avassalado por uma galopante leucemia.
Vivia os dias com gáudio e a vivacidade dos seus dezoito anos quando foi atraiçoada.
A angústia caiu sobre todos como uma espessa cortina que nada deixava ver para além da tristeza negra e opaca.
Os pais e o irmão solidificaram no tempo, porque ela, por natureza ou falsa ingenuidade, encarava aquela doença como uma gripe que com alguns dias de cama e um chá de menta acabaria por entorpecer e ir embora.
Chegaram os resultados dos exames, das análises e a sentença do internamento.
A famigerada e odiada quimioterapia roubou-lhe, indiferente à idade e vontade de viver, o cabelo dum tom entre o ruivo e loiro mal definido e atirou-a para uma cama de hospital aonde ela continuava a cumprir o horário dos trabalhos de casa para passar nos exames.
Foi quase um ano de internamento por três hospitais que a Inês viveu, animando pais, irmão e demais família. Sempre confiante mesmo quando sem cabelo, usando uma boina, apregoava que o que viria a seguir seria mais forte e bonito, como quando ao fim de quatro meses de cama, tendo perdido o hábito de andar, se desculpava quando se desequilibrava, com o facto de os sapatos serem novos e duros.
Os tratamentos amainaram, e a recuperação parecia surgir finalmente.
A batalha entre os glóbulos brancos e vermelhos parecia estar vencida. Mas numa guerra, não há caído ou triunfante, mas sim vitimas das circunstâncias.
Voltou para casa para a brincadeira imparável com o cão, conversa com os vizinhos sempre chorosos de felicidade quando a encontravam, retorno à pesca no rio com o irmão, até surgir o desejo inultrapassável dum bom mergulho na piscina.
E concretizou-o com quase meia hora de natação.
Faleceu às 19,38 horas.
Foi sepultada com o vestido oferecido pelo padrinho que nunca mais apadrinhou alguém ao longo dos poucos anos que ainda lhe restaram.
Eu, já resolvi que serás sempre minha, mesmo ausente.
Podemos conversar como sempre. Viver a vida como sempre. Morrer a morte, se dela quiseres falar.Querida amiga, sabes de vida, morte e ressurreição muito mais do que eu.
Recebi hoje um postal natalício, daqueles feitos pelos deficientes de todo o mundo com uma destreza formidável que nem sempre atinge as culminâncias da arte.
É de um colega do trabalho, da nossa idade. Nada de raro: Saúde, felicidade, ano novo cheio de concretizações. Tudo pode ser uma concretização, até a morte!
Mas há alguns meses ele telefonou-me, preocupado com as notícias sobre a morte de outro colega, um tipo tenso e ginástico que levara vida profissional apagada e se divorciou por causa da amante, mas continuou a beber demais, a fumar em excesso, a andar num enervamento até cair fulminado.Respondi-lhe para lhe dizer que todos têm a sua hora. Uma banalidade e uma verdade. Amiga, penso muitas vezes em ti porque estás longe.
Amei esse impetuoso e exíguo e inocente amor de um homem por uma mulher.
Hoje de manhã olhei o céu soprei um beijo e como por sortilégio uma brisa fresca acariciou o meu rosto.
Sei que foi a tua réplica. Até sempre Inês!

sábado, 17 de outubro de 2009

Amor inocente (1)

(O texto que se segue é baseado em factos reais. Uma crónica inocente e sentida. Nomes e locais foram alterados para preservar a intimidade dos intervenientes e respectivas famílias)


Quando germinou foi angariada pelos pais como maravilhosa bênção de Deus. Já tinha neste mundo um irmão com dois anos de vida que ansiosamente a esperava para formarem o casal ambicionado. E Inês chegou.
Como todos nós, maquiada com os produtos do ventre da nossa mãe e não só. Chorou quanto pode e depois esqueceu-se de chorar para o resto da vida.
Perspicaz e hiperactiva, aprendeu desde muito cedo a pesar as palavras e a utilizá-las na medida certa de forma a não magoar.
Para ela todos os mais velhos que os pais eram avós. Simplesmente.
Na escola tentava esconder as suas capacidades com uma capa de modéstia, roçando por vezes a humildade excessiva, que a levava quase a um pedido de perdão quando obtinha resultados excelentes, com um: “Não tenho culpa!
Eu também não tive culpa de me cruzar contigo. Não tive culpa que os meus olhos repousassem nos teus.
Sei que trinta e dois anos-luz me separam do teu olhar, dos teus abraços, dos teus beijos.
Não quis ter mais amigos quando te conheci, tu também não. E no entanto é bom ter amigos, podem fazer-nos bem. Sabes?
Não preciso de te escrever, pegar na caneta, alisar o papel, és tu sempre que bates à porta da minha imaginação e te sentas à beira da minha cama que tantas vezes usámos como cenário para as nossas conversas sem ponto final.
Disse, cenário? Disse mal! A palavra pode implicar representação. Digo antes, que a minha cama continua a ser tudo como se o meu quarto fosse o próprio universo que nele se contém, porque é apenas um e está todo lá quando conversamos.
Hoje está frio.
Arranjo mantas próprias para os joelhos, Fui buscar o jarro de sangria que sempre apreciaste, porque tem a cor do sangue da vida.
Desculpa, não está assim tão gelada, mas podemos fazer de conta para estarmos de acordo com a época em que nos conhecemos. Um inverno de granizo até aos tornozelos, de fome, medo, silêncio, coisas assim.
A festa de aniversário do Ricardo era nesse dia. Também estavas convidada.
A minha memória está turva como o ambiente que nos envolvia.
Um odor a “erva” paira no ar, como se um rastilho de incenso tivesse sido deixado a arder durante várias horas.
O cheiro infiltra-se nas paredes, nos corpos dos jovens que ali se encontram, e partilham conversas menos apropriadas, e desvendam aquilo que provavelmente não conseguiriam numa situação rotineira, desprovidos do efeito de uma droga, que se encontra à venda ao virar da esquina.
Um jovem “snifa” um resto de cocaína que se encontra numa mesa improvisada. Um sinal de STOP, que roubaram certamente numa das suas noites de distúrbios, assenta num tronco de madeira maciço de base redondo.
Outro jovem com salpicos de barba dança agitado e eufórico ao som de uma música mais exaltada, uma música de ritmo mais dançante.
Nem se apercebe das outras pessoas que o rodeiam. No entanto, esta euforia artificial dura pouco tempo. Cai, de seguida, num adormecimento profundo, numa angústia tal, que não consegue mexer uma palha e mergulha na escuridão.
Um grupo, rondando os seus 16,17 anos, partilha mais um “tesouro” que vão rodando cuidadosamente num pequeno círculo. Encontram-se sentados em cadeiras um pouco desconfortáveis. Não ligam a esse pormenor. Estão, ali, em amena cavaqueira e partilham o cigarro sentindo-se bem e soltos pelo efeito provocado.
Um clima de obscuridade invade a sala. A luz não é propriamente bem-vinda naquele ambiente.
O negrume é rainha e senhora, e apenas por vezes um flash de uma luz psicadélica irrompe pelo escuro da sala, quebrando assim a monotonia da cor. Mas, nem todos se entregam às malhas narcóticas.
Encontro-me num canto a observar este cenário de autêntica destruição pessoal, e tento abstrair-me do que se passa à minha volta.
Há uma rapariga que também está sozinha do outro lado da sala, com um copo na mão. Bebe, uma bebida qualquer. Daqui, parece-me um sumo de laranja.
Constato, no momento, em que um dos flashes decide reaparecer e dar um pouco de luz à sala mergulhada na escuridão.
Enxergo o sumo a invadir o seu corpo frágil, como um metal detectado numa banal radiografia, uma vez que nos encontramos numa sala totalmente, desprovida de luz.
Tento, assim, aproximar-se dela e começar uma conversa pelo ponto que nos une: somos decerto os únicos naquele ambiente que não estamos sob o efeito de qualquer narcótico.
Remoí o meu cérebro tentando achar as palavras certas para uma primeira abordagem, uma vez, que se falhasse, viria a única pessoa, que me despertou interesse naquela sala, dar-me com os pés na cara e não me dar qualquer tipo de atenção, e preferir estar sozinha, como se tinha encontrado até então.
No entanto, tudo se resolveu, e penso que tinha escolhido as palavras exactas.
Já me tinha cruzado com ela, inúmeras vezes, contudo nunca lhe tinha dirigido a palavra. Pensei que talvez não fosse o momento exacto para travar uma conversa, num ambiente tão depreciativo como aquele.
Sentia-me sozinho, disso não havia qualquer dúvida e ela era a única pessoa que poderia ter alguma conversa construtiva.
Decidi, então fazer-me à estrada, ao pequeno troço que nos separava, e toquei-lhe no braço, antes de encostar a minha boca, no seu ouvido direito.
A música estava demasiado alta, o que tornava a comunicação algo difícil. Convidei-a a sair daquele local, uma vez, que notei que ela também não estava confortável com todo aquele panorama.
Ninguém deu pela nossa saída.




(Continua)

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Poema dos cinco sentidos


Sempre que te dispo e experimento a tua nudez envergonhada, envolve-me uma sensação de êxtase por te ver alinhada ao meu lado.
Rasgo com as unhas rentes, muito devagar, o tempo que cessa.
Alimento a paixão dos dias e noites que nos funde aos poucos quando nos envolvem os lençóis esverdeados de esperança.
Absorvo-te o sumo das palavras que escorrem agora pelos meus dedos que me ensopam os cinco sentidos.

Vejo o teu corpo ondulado cercar o meu, como raízes aéreas que me inundam com a tua seiva. O suor a gotejar pelo teu ventre por mim descoberto, por mim flagelado.
Ausculto o arfar do desejo que emana como um fogo farto no teu peito e, que finda num gemido inexprimível.
Cheiro o odor a suor repleto de moléculas de prazer espicaçado pelo movimento da maré do amor.
Sinto a oscilação desse teu corpo em harpejo como um pentagrama de uma só linha que me exibe o teu canto Gregoriano, numa só melodia.
Provo-te com o delírio do “umami” da tua carne, o doce da tua pele sedosa de trigo, o amargo a fel da míngua da minha vida, a acidez untuosa da minha pobre existência, o salgado das tuas lágrimas de emoção que se soltam nos olhos do teu coração.

E quando te abandonas nos meus braços, deixo de ver, encoberto pelas lágrimas de sal, sempre que sinto o reflexo em cada lua cheia.
Tu perdida em êxtase por me ter, no labirinto da minha existência, fazes-te a fêmea outrora adormecida e surge a mulher sem máscara, já desfolhada de roupas e incertezas.
Mas hoje só quero a ausência como companhia, e o silêncio como alento.
Faz por esquecer quem eu sou, neste instante e para sempre, porque eu hei-de esquecer-te, tal como o amor se esqueceu de nós.
Mas como diz o poeta:
“Enquanto não há amanhã... Ilumina-me!”

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Quero esconder-me do mundo


Com a alma em carne viva saí ontem à noite acompanhado simplesmente pela minha sombra, única companhia que ainda me tolera.
Na esquina de uma estrada avisto uma silhueta igualmente perdida da vida.
- Olá – Disse sedento de falar com alguém. Já não suportava a minha voz em mim.
Seguiram-se momentos de silêncio, não sei quanto tempo fora mas parecia uma eternidade.
- Hoje não tenho onde ficar – Verbalizei de súbito.
- Bonito... Queres tomar um copo? Vem comigo. – Disse abrindo um sorriso forçado, tentando mostrar-se simpática.
Levou-me por meio da escuridão até um sítio pardacento, isolado onde havia uma carruagem abandonada, com manchas de zinco no topo a tentar tapar uns quantos buracos. Dentro do tugúrio havia um colchão podre e verde. As seringas estavam espalhadas por todo lado. Pegou numa botelha, num fósforo e repentinamente fomos inundados por uma luz dançante.
- É aqui…
- É a minha mansão, onde levo a minha vida.
- Dormes cá?
- Não tenho mais lugar nenhum. É um bom sítio. Aqui só estou eu e a lua.
- Posso ficar cá?
- Nem penses.
- Vá lá, deixa-me ficar, só hoje.
- Já disse que não!
- Porquê? Tens um colchão e tudo. Não deve ser a primeira vez…
- Porra que és estúpido! Porque preciso de dormir e só há uma cama. Para "brincar" uma cama chega, para dormir já é outra conversa!
Mas, hoje precisava de me esconder do mundo. Sentei-me também no colchão. Como pode ela viver aqui? É um lugar pequeno, sufocante, tão escuro. Ergui os dedos e apalpei a madeira que protegia a porta. Feri-me com alguns pregos arrebitados. Gritei, mas ninguém me ouviu.
Penso que grito baixo demais. Julgo que já tenho os meus dez dedos a sangrar. Coloco-os um a um na boca, chupo aquele doce acre vermelho. Afinal apenas o indicador da mão esquerda pungia.
Sinto muita dor nas costas, pois o tecto é baixo demais. Fico assim, encolhido, os meus joelhos quase que tocavam o queixo. Aliás, se bocejo os meus dentes vão arranhar os joelhos, e sei que também eles estão a sangrar.
Não me consigo virar, nem para esquerda, nem para direita, nem para trás. Mas escuto muitas vozes no lado de fora.
A vida caminha normalmente. Gritos, cães que ladram, a voz de Marlyn Mason tão perto que consigo visualizar as suas unhas negras arranhando-me a cara.
Uma velha televisão pisca ondas de luz coloridas que me fere os olhos. Mas ela disse-me que a primeira coisa que fazia era dar ao botão. Quando os clientes somem, ali fica o dia inteiro até o final da tarde, sentada ou deitada no colchão verde, tendo como companhia apenas e só as pulgas. Mas confidenciou-me que paralisava pela magnitude das catorze polegadas, onde cabe o sucesso, brilho, beleza, guerras fenomenais, amores arrebatadores e performances de delitos do mundo inteiro. Era hora do jornal nacional e depois a esperança da heroína da novela. Parece que está emocionada, pois ouço, “Jesus do céu!” Olho de lado para o sorriso do presidente da república. Mas não posso nesta minha posição desconfortável expressar merda nenhuma. No momento estou ocupado, e não posso fazer grandes coisas pelo meu país. Quem sabe nas próximas eleições? Assisto, somente. Queria só sair dali. Afinal de contas, a vida continua. De repente apercebi-me de quanto era absurdo, tudo aquilo que estava a fazer.
Andei todo o dia à deriva pelos recantos da cidade, sem saber como agir. Estou sem cabeça para pensar em soluções, e portanto vagueio, sem sentido pelos recantos do meu cérebro em busca de uma solução.
Não podia ser descoberto, essa era a prioridade das minhas preocupações. Durante muito tempo abria-me para os outros, sem constrangimentos, até que aprendi que o homem calado tem muito mais a ganhar.


Texto: In "A filha que nunca tive" (Não editado)


Imagem: Google

domingo, 4 de outubro de 2009

Amor aluado


A noite passada, fui visitado pela incómoda e pedante insónia.
Pensei no que melhor pode existir, o amor. Embora nunca o tenha encarado de frente, olhos nos olhos, ele sente-se e refolha o nosso coração inundando-o umas vezes de loucura, outras de tristeza.
Mas amor só existe para alguns. Tu, mesmo com todas as tuas recordações, fazes parte daqueles a quem não foi dado o amor.
Tu e tu, muitos milhões de outros. Tal como as enormes multidões deste planeta, que obedecem a reflexos condicionados.
Todos alienados pela religião, pela política, pela imprensa, pela televisão, pelo cinema, pela literatura, a boa e a má, que miam nos telhados, a cada minuto a cada segundo, o amor, sempre o amor.
Não há amor, para todos esses desprovidos, condicionados e que vivem redondamente enganados.
Para esses que só tentam obedecer ao instinto reprodutor, existe um só terror comum, o medo da solidão.
A dois partilha-se melhor o peso do isolamento. Então, não importa quem, não importa o quê, tudo menos a sensação de angústia. É a isso que se chama amor. O medo da angústia. O terror de viver só, no lado escuro da lua.
Apenas os eleitos, podem construir castelos inacessíveis. Os outros constroem cabanas, que são levadas pelo vento, que o tempo gasta e estraga. Para estes não existe amor, apenas amores mortos, embalsamados, que dão, a grande distância a ilusão da vida.
O verdadeiro é sempre trágico e doentio. É o que viviam Tristão e Isolda, com a espada no centro do leito. É o que perseguia D. Quixote nas planícies da Mancha, na caça à sombra, essa busca exaustiva e raramente triunfante.
Finalmente, o vento do sul vence o vento do norte. Chove e a paisagem está desbotada. Painéis de bruma escondem o horizonte.
Na praia, algumas rochas são fustigadas pelo mar.
Preciso trabalhar. Para começar, terminar o prólogo das páginas que ando a escrever.
Preparo um chá de menta. Acendo o rádio. Falam do Vaticano e do novo papa. Eu pessoalmente admirava o João Paulo II. Eu escuto, mas não oiço. Depois, insiste numa marca de aperitivos. Tudo isso se afoga numa música dos Queen, que cantam “The show must go on”.
De facto o espectáculo tem de continuar.
Se encararmos a vida como um espectáculo esta deverá continuar, tentando dar-lhe um final feliz, como a maioria das representações.
Penso em Regina a minha primeira mulher. Olhos castanhos esverdeados. Era louca, dessa loucura organizada das mulheres que não têm nada para fazer, senão inventar uma loucura para se distrair. Adorava, a psicanalise.
Num dos meus livros, fiz o retrato a cores e de corpo inteiro de Regina e dos seus obtusos amigos e essa foi uma das razões do nosso divórcio.
No rádio, e na vida, Freddy morreu. Regina talvez também tenha morrido; há cinco anos que não tenho notícias dela.


Texto: In "O lado escuro da lua" (Não editado)
Imagem: Google

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Primeiro amor

Dizem que o primeiro amor nunca esquece. Eu sei que não e quando o primeiro é único, permanece na nossa memória para sempre.
Os teus olhos percorreram a distância toda do ar e pousaram nos dela, que espreitavam de uma janela do 3º andar, do prédio na rua junto à escola primária.
Ficaram muito tempo a olhar até que a rapariga se lembrou de te enviar um beijo na ponta dos dedos, e tu respondeste no mesmo gesto, cheio de felicidade.
Embora já se conhecessem, o amor dos dois nasceu naquele dia: era um dia azul de Agosto e nessa noite, foram com as sombras deitar-se na relva húmida do jardim, ao lado da igreja onde, anos mais tarde, desesperados entraram para pedir ao padre que os casasse.
Amaram-se como nunca haviam amado alguém, lutando contra todos os obstáculos que lhes surgiam pela frente; choravam muitas vezes, atados um no outro, dizendo palavras que mal conheciam.
O corpo imberbe da rapariga crescia nas mãos cegas do rapaz.
Um corpo macio de seda onde a pureza do sexo nascia não se sabe de onde. Eles não o sabiam.
Naquele tempo, cicatrizados por tantos sentidos proibidos que encontraram na vida, chegaram à conclusão de que ninguém nasce livre ou que não havia liberdade, tão pouco lhes importava.
Perseguidos pelo medo do que os outros pudessem pensar, faziam-se passar por irmãos ou primos e iam viver momentos eternos como se só eles existissem no mundo.
Amavam-se no baloiço do parque, vigiados pelos olhares mudos das aves; as horas saltavam tão depressa que um dia representava um breve instante onde era impossível mostrar tanto amor.
Brincavam à apanhada junto ao campo de basquete do Liceu e ele deixava-se apanhar e colocava-a às cavalitas, as mãos pequeninas dela leves à volta do pescoço e o murmúrio dos lábios quentes faziam-no estremecer e amar e sonhar cada vez mais.
Às vezes caía uma tristeza tão grande no meio deles que os deixava confusos e tudo parecia feio e frio e sem sentido: o próprio jardim para onde iam brincar não estava assim tão afastado do mundo como desejavam e as flores que ele apanhava para lhe oferecer não eram as flores que ela aceitava com aquele sorriso de pétala vermelha, pegando-as com ambas as mãos, colocando-as depois por entre os seios que cresciam devagar.
Qualquer coisa murchava e eles não o sabiam. À noite, aproveitando a ausência da mãe que já dormia, ela ia para a varanda coberta de sombras e apaixonada escrevia mensagens que lançava para baixo onde ele, como um desesperado, pedia com os olhos que ela o amasse para sempre.
Apanhava os papelinhos ainda no ar, volteando por sobre a sua cabeça e ficava feliz com tanto amor fechado nas mãos. Depois despediam-se, beijando a distância que os separava.
Fechado no quarto, insone, ele escrevia no caderno dos seus poemas o, quanto a amava; coisas que não sabia dizer-lhe.
Um dia entraram numa igreja mas o padre (que fora professor de moral dele) não estava.
Não era importante no momento. Casaram-se em silêncio junto à pia da água benta e juraram amarem-se para sempre.
Festejaram a lua-de-mel numa obra abandonada, onde improvisaram a sua própria casa.
Havia bolachas, cervejas e chocolates e fizeram amor em cima de duas tábuas.
Um ano depois, conseguiram autorização da mãe dela para saírem juntos quando quisessem.
Nessa tarde ele foi buscá-la a casa para irem ao cinema. No dia seguinte ela telefonou-lhe a dizer que estava tudo acabado.
História triste dirá... a maioria. Para os protagonistas talvez fosse a libertação e a felicidade.

Nunca o saberemos...

A história teve um final feliz, casaram na realidade há mais de vinte anos, numa Igreja com Padre e pia da água benta.
Celebraram a lua-de-mel, num lugar digno da cerimónia. Não fizeram amor em cima de duas tábuas, mas numa cama previamente preparada para as desfeitas dos noivos num apartamento de duas assoalhadas em Queluz. Já não precisam da autorização da mãe dela para sair.
Nem ela já vai para a varanda coberta de sombras e apaixonada a escrever as tais mensagens que lançava para baixo onde ele, como um desesperado, pedia com os olhos que ela o amasse para sempre.
Ele já não apanha os papelinhos que guardava religiosamente no seu livro de poemas, que escondia no seu quarto. Já não precisam beijar a distância de três andares que os separam.
Ultrapassaram o medo do que os outros pudessem pensar, já não se fazem passar por irmãos ou primos, mas sim como marido e mulher mas sem o enlevo de como só eles existissem no mundo.
Já perderam a delícia de se amarem no baloiço do parque, o gozo de brincarem à apanhada junto ao campo de basquete. Já raramente vão ao cinema. No entanto não é de excluir nunca essa probabilidade.
Num dia ela poderá telefonar a dizer que está tudo acabado!
Texto: In "Ano Louco"
Imagem: Google

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

"Sonhador mãos de tesoura”

Quantas vezes transmito formas algo esquivas aos actos deformados do meu pensamento, sempre que me descubro neste estado de apatia.
Apenas mais um dia como todos os que guardo na memória.
Penso muito, penso demasiado…
Não quero que dêem pela minha presença. Gosto de estar no meu canto, e ver as águas correr sempre no mesmo sentido. Na direcção oposta ao meu desejo.
As luzes delicadas à beira-mar reflectem-se na corrente negra, e deixam um rastro que sigo indiferente a tudo e todos.
A distância por vezes edifica um novo rumo, e os trilhos que outrora sorveram as vozes, distanciam-se agora de um único ponto. A saudade.
Não, não quero que dêem pela minha presença.
Desejo um amor sem pressa. Um amor vagaroso que me permita a busca de um pingo de luar.
Quero amar serenamente sem ter de derramar na água os lençóis esquecidos que fizeram de vela quando o vento soprou no mar.
Cada dia que aflora a minha vida, mais se sente a lacuna das raízes que não me amarram ao chão.
Quem me dera poder beijar o sol e incendiar os ventos da indiferença. Ter a coragem de olhar a lua de frente e mergulhar sem medo no mar exaltado, esquecer-me de mim e lavar os meus pecados. Penso muito, penso demasiado…
Serei eu um ladrão de sorrisos, que rapina júbilo a quem me rodeia?
Será que roubo pequenos pedaços de estrelas, sonhos e promessas?
Não, eu não colecciono gargalhadas, palavras de amizade e confiança, nem junto tesouros infindáveis numa cave escondida.
Volto a pensar se serei um “Eduardo mãos de tesoura” que por mais que faça acaba por magoar aqueles que ama?
Por que motivo ao estender as minhas mãos, provoco estranheza e dor?
Custa-me pensar que a única forma de não me magoar, nem magoar os outros, é pelo afastamento.
Terei de agir como o verdadeiro Eduardo? Isolar-me e viver numa mansão junto das estrelas, distante de todos, e exprimir o meu amor esculpindo pedaços de gelo para que as pessoas que amo me entendam, sintam o gélido sentir que me imputam?
Será que terei de viver como num conto de fadas, que, apesar da diferença que sinto, tenho sentimentos, amo, e também sou ferido?
Para mim, as mãos de tesoura de Eduardo são apenas uma metáfora da dificuldade em expressar sentimentos, em se relacionar com os outros como tantos de nós que vivemos este os ínfimos dias deste mundo.
E são dias impossíveis de serem iguais, os dias diferentes de todos os dias.
Somam-se as diferenças da igualdade e temos dois dias iguais. O somatório da verdade.

Serei um "Sonhador mãos de tesoura"?

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Quando a lua se esconde



Desde petiz que sempre pressenti que a noite nascia pelo seu odor. O aroma escuro acariciava-me as faces. Hoje avassala-me o espírito e a alma.
A de hoje estava particularmente abafada e o calor penetrava pelas janelas do meu quarto.
Estou agora na minha cama e nem sei como aqui cheguei.
Não, hoje não vou adormecer. Quero e necessito viver a noite. Coisa que não faço há imenso tempo, ou quase nunca fiz.
A tua presença está em mim e sinto-te. Tal como um sonho delirante, apenas te vejo a ti e vivo a vida num breve instante.
Vou ao teu encontro. Quero continuar a sonhar contigo a meu lado. São delírios de uma mente amante. Sonhos de um homem mendigo de amor que sonha de olhos abertos.
Sei que nunca me abandonaste, sempre me protegeste, respeitando as minhas escolhas, enquanto eu, me refugiava nos dias que passavam analisando as minhas inseguranças na esperança de obter respostas.
Mas há coisas que não têm explicação nem resposta, simplesmente são.
Sonho contigo e pensei que poderias ser a chave que balança hesitante no colo da fechadura do meu viver.
Sofro o desvario e a loucura porque me sinto uma semente vazia, um fruto podre no meu despotismo, sem folha, flor ou fruto.
Sinto-me um barco inacabado a percorrer águas estagnadas que me amarra ao leito do meu torpor, e perco-me nestes pensamentos, escondo a tristeza por entre a minha janela que se fecha na escuridão da noite. É como se ao sonho faltasse o delírio e como se ao delírio faltasse o sonho.
Abdiquei da saída noctívaga e narcotizei-me a pensar que acordava apenas daqui a uns anos num qualquer apeadeiro, numa cratera da lua.
Vi que das estrelas caíam palavras que juntinhas faziam uma frase de um texto nu.
No entanto sei que habitamos a força gravítica da terra onde podemos ser pensamento, mesmo triste, mas onde a vida existe. E, só ela responde quando a lua se esconde.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Voltarei


"Nunca tiveste aquela sensação de amares alguém, de amares alguém muito, e as circunstâncias em que a tua vida acontece destruírem a possibilidade desse amor, apesar de ele continuar a existir dentro de ti?"

João Tordo in Hotel Memória