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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O som do silêncio







A luz da lua esconde-se por detrás das nuvens que pintam o céu e cegam as estrelas. Está escuro na rua e cá dentro.
Puxei cuidadosamente os lençóis ainda imaculados e com um doce odor a alecrim.  
Outrora defini-a a magia das coisas como eu queria. Hoje sei que o brilho dos olhos e os sorrisos mais sinceros são justamente os causada pela ousadia do tempo que nos persegue sem dar tréguas. Olhei o relógio, os ponteiros seguem o seu rumo, sem início nem fim. Cada segunda a mais dele é um a menos meu, tenho consciência disto. Cobro-me paciência, esperança, passos firmes. Contabilizo não o que resta, mas o que foi e, caso amanha não chegue, sei que vivi ontem de jeito único e com certeza de cada detalhe. Posto que a vida é finita, findo por aceitar o fim reafirmando ainda assim que a beleza está no durante e não no depois. Deixemos o depois para depois que o agora é breve. Dê-me seus abraços e sorriso mais lindo, suas palavras ou até mesmo o silêncio, mas rápido, antes que o relógio me vença.
Depois de ziguezaguear nesta prosa mental, coloquei a cabeça tenuemente na almofada que brotava juntamente um cheirinho a alecrim. Abracei-me ao silêncio.
Quero o silêncio para poder ver quem é quem. Se o silêncio nos abandona, fingir com palavras é fácil. Quero gestos, expressões, quero ver a tristeza no sorriso e a felicidade nas lágrimas. Agora se me perguntarem o que quero, não sei. O que espero, nada. O amanhã, não existe. Não tenho rumo, não sei por onde ele vai, tanto faz. A minha vida é uma mentira.
Está repleta de sentimentos bipolares, dilemas éticos e temperamentos rudes.
Não há como decifrar o meu caos.
Resta-me morrer, adormecer, descansar, eternamente, dentro de um caixão de pinho, atrito dos vermes que me limparão até os ossos.
O que importa é o agora e eu estou com pressa, pressa de amar e de viver cada segundo antes que ele se torne um projecto deixado de lado escrito em alguma folha a lápis, borrada pelo tempo e pela minha memória.
Enfim! O álcool tem destas coisas. Faz os homens sinceros e a voz mais solta. Permaneço de olhos abertos ao vazio escuro dos poucos metros quadrados do quarto. Lambo os meus lábios secos num esgar neurótico. Volto-me nos lençóis, revolto-me na cama e já não sinto o cheiro a alecrim. Agora, sinto mais o bafio a álcool.
Lamento ter nascido tarde demais, numa época sem sabor nem requinte. Noutra era talvez reencarnasse um senhor feudal, nobre, mas solitário.
Pranto ter nascido, por si só. Seria feliz na inexistência.
Tenho pena vir a morrer antes de me tornar compreendido. Fico triste com a vida e com tanta coisa que acontece ao meu redor enquanto outros riem lauda e dubiamente.
Tenho noção que nem sempre o bom da fita tem um final feliz. Sei que por vezes esqueço os meus olhos em sítios menos próprios, numa saia promíscua, ou numa blusa mais transparente, mas mesmo assim tudo ainda me cheira a ti. Que queres? Sou homem e como diz Gabriel García Márquez – “o coração de um homem tem mais quartos que uma casa de putas”.
A aparente esterilidade da vida e a solidão são a grande sombra do meu caminho. Às vezes inclusive vem a sensação de ter tudo e de não ter nada ao mesmo tempo.
Jugo que não estou tão bêbado como penso estar, nem tanto quanto gostaria de estar. A doce seda ardente, fatal veneno, que me aquece as veias, não entorpece os sentidos, nem aguça o engenho. Mas, se assim fosse, as pálpebras arrastar-se-iam como portões enferrujados, até aos lívidos lençóis da cama.
O sentido de desorientação favorece a rima inocente dos sonhos… 
Todo este discurso pessimista é escrito nas curvas do teu corpo que se contorce, debaixo dos imaculados lençóis, agora com um travo a vinho mal destilado. Inertes ficamos à luz de uma vela curta e fraca, de pavio velho e amarelo, a determinadas, porém desconhecidas, horas da madrugada, quando as traças e os mosquitos já se tinham cansado de atacar a fraca luz do candeeiro de rua.
O cigarro poisado na beira do cinzeiro vai consumindo mais que eu mesmo, consumindo o tempo, a hora de dormir e os sonhos que ficaram por viver.


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Esta noite papo a Teresa (se ela deixar…)



“A vida só pode ser compreendida olhando para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para a frente.”
Kiekegaard



Estamos mesmo no Entrudo. Mais um. Se sou esgrouviado durante o ano, nesta quadra mascarada, ainda me consigo superar. Só falta meia hora para chegar à Quinta de Santo António e não sei ainda que perfume usar. O resto do pessoal está pronto.
Sinto esvoaçar borboletas no estômago. É sempre assim quando estou ansioso. E esta noite tenho motivo para sentir as mariposas em voo picado. Todos os grandes matemáticos, usando a Teoria do Caos, dizem que uma borboleta batendo as asas do outro lado do mundo pode provocar um tufão na Indonésia. É que todas as coisas no universo estão de certa forma ligadas, e o bater de asas de uma borboleta pode provocar uma reacção em cadeia que termina gerando um tufão. E eu já sinto a rabanada em todo o corpo.
A Teresa, a “sopeira” e a “espanhola” vão lá estar. Alguma há-de passar a noite lá em casa. Pelo menos assim espero. Já não engulo ninguém desde a raquítica que conheci numa noite de luar vampírico na discoteca, nem me lembro do nome, porque já foi para aí há quase meio século. A Teresa vai ser trabalhosa mas vou começar por ela. Ainda hoje me lançou umas dicas. Vou tentar, não perco nada. E se não der, passo à “sopeira” boazona, mas feia como uma verdadeira sopeira deve ser. No entanto a tipa é um bocado maluca, quando se põe com aquelas conversas daquelas cenas góticas e dos livros requintados que anda a ler. Vou tentar é ser discreto, para a “espanhola”. Se a Teresa e a "sopeira" não quiserem levo a “espanhola”, que se lixe. A “hispânica” é mais fácil. Apenas um senão, já têm um “toureiro hermano” provido de umas mãos delicadas, que fazem lembrar umas castanholas. Tudo a condizer… O pior é que depois se vai pôr com tretas de sentimentos e mais não sei o quê... e já não sei se gosto dele… agora já gosto... e eu não tenho paciência nenhuma para aquilo. E não lhe gramo aquelas meias, sempre pretas, se ainda andasse como as outras, com as meias de rede debaixo da saia rodada quando julga que dança o flamenco. Ela não parece, mas não tem o mínimo bom gosto. Mas em contrapartida é só querer. No entanto primeiro vou à Teresa, é certo. E, se não der, à “sopeira”, que mesmo malparecida deve ser uma maluca na cama. Ou meto-me com todas e espero que passem lá por casa. Isso é que era bom... A sorte apenas sorri a alguns.
Mas o que me interessa agora é o perfume. Que raio de frasco hei-de abrir? Este da embalagem excêntrica é um bocado amaricado mas elas gostam. Eu é que não gosto muito. O da embalagem quadrada é mais vulgar. Mas eu gosto. Faltam dezanove minutos e ainda não me decidi. É que eu nem uso perfumes…
A minha sorte é que tenho o fato passado, por sorte já estava todo arranjadinho. Só me avisaram à última da hora, há minutos, foi mesmo por sorte, e aqueles papalvos esqueceram-se de me avisar mais cedo. Bem! Se fosse com mais antecedência, teria certamente esquecido. Porra… Os sapatos estão sujos. E agora nem tempo, nem graxa tenho para os limpar como deve ser. Mas com este gel no capachinho de um loiro espampanante, mas que me fica a matar, ninguém me vai olhar para os sapatos.
As patilhas estão bem. Eu gosto. Algumas dizem que não gostam, mas deve ser só para se meterem comigo. Digo eu!
Os dentes é que podiam estar mais brancos. Tenho de os lavar mais vezes ao dia. Tretas! Digo sempre isto e nunca faço nada. E, não quero que a higienista me dê na “carola”. Como em tantas outras coisas. Como sempre. Amanhã há ensaio. Eu bem quero pertencer ao coral, mas sempre que penso que me disponho em cima de um palco para cantar, sinto uma vergonha que apenas me lembro dos filmes das velhas tardes de Domingo, protagonizados pelo pequeno Joselito. Atendendo ao tamanho do rouxinol castelhano e ao volume da ave canora, a criança tinha seguramente as barrigas das pernas transformadas em amplificadores. Mas não é o único. Os vidros das janelas da Escola de Música tremem que nem varas verdes, de medo, quando a Zé solta a voz enche o peito de ar e em anafonese larga um mi bemol, com sabor a dó maior.
Devo reflectir um pouco sobre o assunto de me tornar vocalista. Julgo que já não tenho idade para essas coisas excêntricas, embora seja cada vez mais funambulesco. Pronto, já não estão tão mal, os sapatos. Espero é não os sujar pelo caminho. Pois é, o chão deve estar cheio de poças de lama e com aquilo que tem chovido não me admirava nada. Porcaria de tempo, no sábado não vai dar para ir fazer a caminhada. Os fulanos da meteorologia prevêem chuva, e não entendo, mas ultimamente têm acertado. Tenho de falar disso com o Miro mais logo. Tira-se um feriado, não será inédito, porque até a Igreja os quer tirar, mas remover mesmo… Espero que aquele cromo apareça lá. Ele é que sabe o caminho. Ele não é muito destas coisas, raramente sai à noite, mas esta noite vai ser especial. Tem um disfarce de um Viking, que faz lembrar o mítico Thor, o deus dos trovões e que tinha como principal arma o martelo de guerra, Miöllni, mas francamente quando o olhei, aquele adorno, mais parecia a galhada de um veado idoso. Sim, porque vão crescendo com a idade. O cervo catua que o diga, quando o tempo avança, a cabeça torna-se bastante mais pesada.
Eu, contrariamente sempre de cabeça leve penso que se não for hoje que papo a Teresa o melhor é desistir. Tenho de calçar os sapatos, escolher o perfume, vestir o engelhado casaco, dar uma boa noite à vizinha da frente, caminhar pela calçada, com os sapatos que me azucrinam os dedos mindinhos dos pés até ao café, encontrar-me lá com o Miro, beber um whisky em dois goles só para alegrar e depois vamos até à quinta que ele leva o carro. Ele que conduza, porque a mim o etílico não se dá muito bem com os meus lindos olhos.
 Passo com a vista no relógio made in China, tirado numa rifa e num dia de sorte na Sociedade lá do burgo, mas sempre certo e só faltam nove minutos para o acordado. E pasme-se, ainda não me decidi sobre a merda da fragrância que devo levar. Mais, não sei se irei papar, ou não, a Teresa, a “sopeira”, ou a “espanhola”.
Papar alguma, talvez quando o Rei fizer anos, mas segundo consta, os Monarcas apenas fazem anos nos bissextos, o que torna a coisa ainda mais complicada. O importante é não desistir… E, eu não desisti. Mas se tivesse o dinheiro de Vladimir Putin, era bem mais fácil… Também arranjava uma sósia de uma recordista olímpica de ginástica, nova em folha e linda de morrer como Alina Kabaeva, apaixonadíssima por mim.
 Agora, mesmo só falta o nosso Cavaco trocar a mulher pela Ana Malhoa e pronto.
Como não possuo o ar convincente do macho Russo com olhos de carneiro “mal morto”, nem a voz enrouquecida vinda do além do nosso presidente, fui até ao palco e como numa coreografia de Lady Gaga, dancei de joelhos com a Zé, uma espécie de minuete (talvez devido à caricata posição) com sotaque brasileiro e claro que passei a estar no centro das atenções.
A minha sorte foi que o Elvis Felício que por lá andava tinha os pulmões atestados de pneumococos e muito abaixo de forma. Tal a “carraspana” que teve de retirar a farta cabeleira do Elvis, destapar a coroa do Felício para a cabeça poder respirar. A testa a gotejar, um esforço para caminhar um enorme beijo à índia Cheyenne foi dar.
Enquanto tudo ia decorrendo com muita tranquilidade (sim… mesmo à Paulo Bento) com toda a serenidade que o momento exigia o homem dos chifres euplásticos, ia esvaziando garrafas de whisky velho, julgando-se ainda um rapaz novo. Ele há cada um… De mota não sabe andar, de bicicleta, nem falar de dançarino, rápido e de ancas a abanar… a Zé fazia rodopiar, arduamente, sem parar.
Passei junto à “sopeira” que me tirou as medidas enquanto acariciava com olhar lânguido o branco avental. Sorriu-me e acreditem que me assustei. Não que a moça fosse assim tão feia, mas dava ares…
Então fui chamar o Daniel (my son), rapaz jovem e bem-parecido, ela mudou o foco cintilante, sacudia o avental com o calor do momento, tentando arrefecer o ensejo. Bem! Quem não apreciou muito a mudança de agulha da “sopeira” foi a little Andreia que acendeu os faróis de nevoeiro de tal forma que o Daniel (my son) ficou encadeado com tanta luz e tentava a todo o custo evitar aquele olhar. Virou costas à “sopeira” que se sentou traçando a perna com altivez na tentativa de deixar as coxas ao léu.
Exposta ficou também a firmeza do Daniel (my son) que embaraçado e rodando os calcanhares foi até à casa de banho. Maquinalmente, a razão a desafiar a vontade mais profunda, tapou o ralo do lavatório, abriu a torneira, e lançou jactos de água para a face enquanto maldizia a sua vida e tudo o que ela implicava. Repetiu a promessa – nunca cumprida – que fazia de segunda a sexta-feira, religiosamente, àquela hora: que nessa noite se deitaria mais cedo.
Quando se ergueu, lá estava ele, no espelho meio embaciado, mal-encarado como sempre, com ar de que todos lhe deviam e ninguém lhe pagava. Passou a mão pela pequena cicatriz feita na véspera e perguntou-se onde aconteceria a cicatriz de hoje. Uma outra pergunta ecoou-lhe na caixa craniana, propagando-se como um incêndio de Verão, até lhe queimar os lábios. “O que queres ser quando fores grande”? O homem no espelho mostrou-se surpreendido e até chegou a encolher os ombros, sem saber o que responder. Mas havia uma resposta, a mesma que dava quando era infante e que tantas vezes fez sorrir quem o interpelava. “Quero ser baterista e quiçá bancário”!
Entretanto fora das escassas quatro paredes que formavam a casa de banho dos homens, a “espanhola” passeava os dentes e não só, pelo palco filada ao toureiro numa lide a pé, que cobiçaria certamente, “Pedrito de Portugal”.
Agarrada ao longo vestido estampado, volteava sobre si mesma dançando uma sevilhana. O “toureiro” esboçava um sorriso forçado como um lidador deve sorrir quando da volta à arena. Arrastando os pés e olhando disfarçadamente para a retaguarda. Não sei se com receio do meu amigo disfarçado de cornípeto, ou com medo de ser colhido com alguma gravidade, pelos dentes da bailarina.
A noite corria célere, e eu saí ao jardim, acendi um cigarro, pestanejei o olho à little Andreia, que apesar de fula com a “sopeira” era a única que colocava alguma ordem assertória ao nosso grupo e pensei… Este foi sem dúvida o meu melhor Carnaval. Com bastante desconsolo lá fomos até ao carro. Por magia todos chegámos a casa salvos.
Apesar das garrafas que tombaram em guerra, o carro seguiu como conduzido por David Copperfield, o tal que realiza cenas mirabolantes. A noite tinha sido igualmente aparatosa. Para ser absolutamente perfeita, faltava realizar o tal desejo. Papar a Teresa…
Sempre que nos papamos de uma forma prosaica e ígnea declamamos os verbos mais sagrados que sabemos recitar.
Acordei no dia seguinte um pouco indisposto. Tentei levantar-me. As pernas saíram da cama, mas a cabeça continuou presa à almofada. A sensação de peso era tal que levantar uma pálpebra era necessário da minha parte um esforço descomunal. Necessário será dizer que não consegui levantar a cachimónia. Para ali ficou abandonada e oca, sem força e apoiada entre as duas almofadas.
O curioso de todo este episódio romanesco é que ainda hoje, não tenho a certeza se papei a Teresa.
Não sei mesmo! Eu julgo que sim… Mas como diz o meu grande amigo Miro, a raposa tem sete manhas e a mulher a manha de sete raposas… Fiquem a pensar…
Eu farei o mesmo.

(Memórias híbridas do Carnaval de 2010)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O Pendura

 
 
 
Ando irritável e impaciente. Corro de um lado para o outro como um esquizofrénico alucinado.
Hoje, acordei cedo demais. Como um autómato coloquei os pés no chão frio e com a bexiga queimosa aldeaguei devagar até à casa de banho. Os bóxeres pelos joelhos dificultavam-me a deslocação até ao espelho. Eu já nem necessito de espelhos.
Acordo todos os dias com a desilusão de ainda ser eu. Não preciso de espelhos que mo digam quando sei que vou encontrar o mesmo rosto cansado, as olheiras a escorrerem pela cara. É como acordar de um coma induzido.
Vejo a palidez do amanhecer sem ter dormido. Mais um. Baixo as pálpebras, tenho sono mas nenhuma vontade de dormir e esta luz tímida é a minha favorita. Daqui a pouco o sol vai subir e trazer o azul, no céu não restará nada deste tom rosado e líquido, que parece o sangue da noite a diluir-se como se tivesse sido apenas sonho.
Com olhar esgazeado e as pernas débeis sentei-me na sanita e segurei o rosto com as mãos em concha.
Olhei a parede… Os azulejos estavam tingidos de vermelho que podia muito bem ser sangue se eu pudesse arrancar o meu próprio coração com as mãos. Nada faz sentido, é sempre a mesma falta de ar, é mergulhar e não conseguir vir à tona, os pulmões em espasmos exaltados, o coração a rir-se a pensar que é desta. Depois acordo, sossego para a seguir se soltar a debandada nas veias. O coração a rir-se, a saltar do lugar, a ir para a cabeça e a esmagar o cérebro, o coração a fazer o que quer e a não me deixar fazer nada. Órgão ridículo este que nos mantém vivos quando nós nem sabemos bem o que queremos. Sempre a contradizer, a contrariar, a obrigar-nos ao torpor da esperança.
Sou eu. Ainda eu. Só por um dia, um único dia, gostava de não o ser, descansar de mim, em mim. Sobreviver ao cansaço. Porque a esperança espera e nunca desespera.
Mas a esperança é uma cabra e diz-me ao ouvido que um dia vou acordar outro. Não acredito, embora digam que ela é a última a morrer.
Finalmente afundei na banheira e descobri que as lágrimas não se misturam com a água quente perfumada com sais de banho... A espuma fica por cima e as lágrimas caem como pedras em charcos de água. A água quente a correr na banheira não me aquece. Se o meu coração for já uma pedra vou ao fundo e sei que ninguém me ouvirá chorar.
Mas não fui ao fundo. Fiquei bem à tona como um pedaço de cortiça a vaguear nas águas de um rio. Envolvi-me na toalha turca de cor escarlate, julgo eu, e mirei-me de novo ao espelho.
Preciso cortar o frugal cabelo. Mas hoje vou ao barbeiro. Eu sei que gosto pouco de cortar o cabelo, as lâminas rentes à cabeça incomodam-me. Mas o pior não é isso. São os espelhos por todo o lado, a obrigação de me olhar nos olhos sem o alívio de poder passar água na cara. O barbeiro obriga-me a tirar os óculos. A visão deturpa-se, mas não esconde as olheiras. Não disfarça os olhos cansados, os lábios secos da espera.
O corpo que amadurece e se prepara para envelhecer. Quando dou por mim, e faço-o sempre tarde demais, estou demasiado mergulhado em quem sou. Como se entrasse pelos meus próprios olhos e pela minha própria boca a dentro e violasse todas as recordações. O barbeiro pousa a máquina, pega no espelho pequeno que mostra a nuca e não mostra nada. Pergunta-me se está bem assim e nunca lhe diria que não, pois sem cangalhas não vejo népia. Ponho os óculos. Espero os segundos necessários para que a visão se reajuste. Respiro de alívio. Tenho menos cabelo, pareço mais velho. O que ainda não me desagrada, mas é sintoma de que me estou a enganar. Na idade, e comigo próprio. 
- Ó Belmiro posso ir à pendura contigo? Não tenhas medo que eu sou experiente. Mais de metade da minha vida tem andado à pendura. E tal como na vida o pendura é carne morta, por isso já sei que devo, permanecer no meu pouso, muito quieto e calado e não tentar ajudar em nada. Somente, deixar-me ir… Como sempre…

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Anjo sem asas




A incerteza da vida confirma-se na certeza da morte. Na madrugada de 21 Setembro de 2011 perdi um descomunal pedaço de mim.
Todos sabemos que a morte é um acontecimento terrível.
As seis da manhã já se tinham instalado. Não conseguia pregar olho, porque a morte chegou sem ser apresentada, foi apenas convidada.
Há dias em que morremos mais que outros. Em que o coração estaca, a mente estagna e a alma encrosta.
Falece a esperança, e a tristeza fica mais amarga. O assombro é de tal forma súbito que nem tempo subsiste para a extrema-unção.
Ter um amigo em casa, que envelhece em média, cerca de sete vezes mais rapidamente do que nós, é um pouco como ver uma película futurista da nossa própria vida: as faculdades vão-se degradando, o temperamento vai amolecendo, a energia vai-se perdendo. Só o amor e a amizade ficam e mantêm-se constantes, coisa que a maioria dos humanos não consegue preservar.
Sinto a falta da tua presença à minha volta.
Emergiste assim do nada, como um anjo que cai do céu. Cresceste sem asas, mas não desperdiçaste as alas da bondade, da amizade e do amor.
Meu amigo foste, és, e sempre serás, como um anjo sem asas, que continua a voar no meu pensamento.
És um barco sem vela que eternamente navegará pelos meus mares que inundam a minha solidão.
Ao partires deixaste um colossal vazio no meu peito, uma louca vontade de chorar. Chove-me a cântaros na alma.
A tristeza inunda-me o coração. A dor é inaudível, mas feroz. A alma, essa já não padece, está submersa. Foi como se o inverno me invadisse antecipadamente, e uma hipotermia se apoderasse do meu corpo que treme de frio e de nostalgia.
Sinto a saudade dos teus olhos doces que já não posso olhar, do teu pelo que já não posso acariciar.
Foste tempero do meu ser, o sal do meu viver. Ensinaste-me a amar.
Não existem palavras para definir todo este encanto que tomou conta de mim.
És um anjo sem asas a voar no interior do meu coração.    
Até sempre!



                                            
Afonso da Tala (Simba)
18-08-1996
21-09-2011


sábado, 20 de agosto de 2011

So near… (So far away)



(Um singelo texto em que qualquer um de nós se pode rever. Inspirado  em alguma afectividade pessoal, muita imaginação e uma boa porção de realidade, pretende igualmente homenagear a banda portuguesa Sultans of Swing, pelos inolvidáveis momentos que me têm proporcionado.)
 

Sei que algures a vida ainda me espera. Só que quanto mais vivo, menos me conheço! Mais dúvidas me assistem. O meu interior é compartilhado, talvez seja por muitos, ou por ninguém.
Eventualmente serei alguém que não é de ninguém. Habito dias tranquilos, outros como o mar revolto. Momentos em que me sinto forte, outros em que me sinto carente. Mas mesmo assim, sou gente.
Muitas vezes apaixonado, outras vezes na solidão. Com toda a certeza mais embrenhado na solidão.
Eu que não sou um homem de fé perdi a fé nos homens, perdi a fé em mim.
Hoje, a meio da noite como um larápio vou saltar pela janela e correr para longe, sem olhar para trás. Os sapatos numa mão, na outra, um saco onde em desalinho convivem cuecas com meias, engelhadas camisas, aspirinas para as persistentes enxaquecas e um velho aparelho de rádio a pilhas será o bastante.
O ar frio da noite gelou-me o corpo, mas não a minha vontade. Parte do meu cérebro irracionalmente vagueia pelo passado, presente e futuro.
Uma breve aragem varreu-me todo o corpo desenhando-me uma silhueta que se cravou na sebe da minha mente.
Vinda do meu subconsciente, uma voz muito baixinha, mas persistente censurava esta minha fuga. Gostava desta fase do meu comportamento, quando ainda o consciente me dominava completamente e me ordenava para seguir em frente.
Afastei da mente estas fraquezas com convicção e resoluto encarei o meu futuro próximo.
Fui até à esplanada magistral do silêncio iluminada pela luz forte duma noite viva, duma lua pujante. A esplanada onde brilha o perfume do mar.
Das águas enlameadas do rio Tejo ergue-se uma neblina fantasmagórica que o orgulho dos antepassados enviou e que traz nos seus farrapos a fragrância das mulheres frescas dos outros mares e o calor da aguardente que afoga o pavor e o escorbuto. Barcos navegam as águas, lotados de agiotas de terra firme. A salvo das ondas, mulheres gastas colocam xailes de fadista pelos ombros, arrastando-se no pontão, enquanto escutam a imortal voz de Amália e cicatrizam as feridas gangrenadas de sal e morte.
As guitarras trinam no aço que já não se forja, o vento procura enfunar as velas que se tornaram lençóis surrados usados nas casas de alterne que pernoitam em Lisboa.
Enchi o peito além da curvatura do rio, e caminhei pela noite.
Passeei na noite escura. Espreitei ruelas escondidas, galguei travessas perdidas e caí por avenidas aborrecidas.
Nas ruas desertas ecoam vozes que me abarrotam o cérebro. Almas vazias deambulam para cá e para lá de olhos ausentes, distantes na noite pálida e fria!
Um odor a lixo levita no ar e invade-me as narinas. Sinto-me mal. Não sei o que tenho. Talvez não tenha nada… Eventualmente estou mesmo enfermo.
À noite, a porta da alma fica aberta e as luzes molestam. À noite o silêncio não morde e a dor não dorme.
As noites são fechadas e eu fecho-me nelas à espera de não voltar a sair. Mas saí.
Andei à tua procura sem te conseguir encontrar. Mais uma noite perdida na minha ténue e gasta vida. Aqui estou eu de novo nesta maldita cidade, e tu estás tão longe.
Mas adoro a quietude da noite, sinto-me vivo ao conseguir ouvir o sangue correr nas minhas veias.
Tento sempre ultrapassar o óbice que me separa do labirinto da tua mente.
Olhei cansado para uma luz de néon cintilante. Não fixei as palavras. Apenas olhei para os blocos de pedra estática e hirta, das casas. De meter medo. Ao longe o eco de passos que se afastam, abafados pelo mutismo do escuro!    
Em silêncio percorri o sombrio da entrada. Entrar sozinho foi já de si humilhante.
- “Boa noite, quantos são?” Inquiriu um gorila no interior de um fato preto, laço vermelho no cachaço e umas luvas brancas nas enormes gadanhas.
- “Sou só eu”.
O indivíduo corpulento esboçou um forçado sorriso e franqueou-me a entrada afastando uma cortina negra. Seguiu-me com os olhos esmiuçados durante alguns segundos. Minutos foram necessários para os meus olhos se adaptarem.
Pouca luz, e pequenos grupos de gente bem cuidada.
Senhores elegantes certamente com as esposas na cama e esbeltas senhoras decididamente com os maridos emigrados.
Raios de luz feriam-me os olhos. Desequilibravam-me o corpo, entorpeciam-me o cérebro.
Aproximo-me com receio do balcão e peço um whisky. Pela metade e com muito gelo.
A rapariga que me atende, bonita como costumam ser as raparigas que nos recebem, tem uns olhos do tamanho do mundo.
Morena, cabelo escuro, e uns olhos negros tatuados com toda a cautela num rosto polido e rematado.
- "É tudo?", pergunta.
- "Sim, vim sozinho."
- "Vens sair sozinho?"
- "Sim, não tenho ninguém de momento que…"
Ela sorriu, deu-me o troco bem trocado que me atulhou a algibeira e atendeu um sujeito ao lado com o cabelo empinado e fixo, não sei se com gel, ou sebo.
Se com amigos sempre fora um desastre na arte do engate, sozinho sou simplesmente estrambótico.
Enquanto emborcava o líquido, a língua brincava com o gelo, algumas lembranças esvoaçavam-me pelos olhos e pelo coração.
Sempre falhei demasiado. Feitio ou defeito? Não sei.
Na escola raramente marcava um golo e em cada recreio mudava de equipa. Era mediano nos estudos, um desastre a matemática. Tinha medo das “chamadas” e por isso sentava-me sempre nas últimas carteiras.
Terminei o primeiro copo e pedi o segundo.
Ela sorriu de novo. Serviu-me e aproximou-se do meu ouvido.
- "Ingere este com muita serenidade, para não beberes de mais. Saio daqui a uma hora".
Eu nem queria acreditar. Aliás, não acreditei. Que podia ela querer de mim?
Sou demasiado esquecido. Tenho o cabelo como uma ceara de trigo após a sementeira, um carro velho e uma máquina que faz um café intragável. Detesto ópera e espectáculos eruditos. Choro no cinema, como uma Madalena arrependida, com as cenas mais compassivas.
Terminei lentamente o segundo copo e pus-me dali para fora.
Saí por onde tinha entrado e esperei por ela à porta a dançar a música vinda lá de dentro. O espadaúdo mirava-me com ar de surpresa e de enjoo enquanto aliviava o laçarote que o asfixiava.
Levei a mão à face e para mal dos meus pecados senti a barba mal feita. Que quer ela?
Tenho um emprego vulgar, as pernas magricelas e sou, sem dúvida, o mais feio dos meus amigos. Sou terrível com datas, não conheço ninguém famoso, nunca fui a Las Vegas. Tenho medo de andar de avião… por essa razão também nunca fui a Los Angeles.
De mota, só à pendura. Nunca fui a uma concentração de motards nem tão-pouco a um show de t-shirts molhadas. Não sou um destemido aventureiro, nem gosto de bordoada por dá cá aquela palha.
Fico cheio de sal no nariz quando como as batatas fritas de pacote. Sou péssimo a demonstrar ciúmes, enfim que pode ela querer de mim?
Doía-me aquele desgastado calo sufocado pelo sapato, um número abaixo. Apesar de aquele atenazar lá ia sacudindo o corpo lânguido ao som de Cocaine.

She don't lie, she don't lie, she don't lie;
Cocaine.
 If you got bad news, you wanna kick them blues.
Cocaine.
When your day is done and you wanna run.
Cocaine.*
 
 
Aturdido pelo contágio da música ia pensando que penso demais.
Não, não sou feliz. Julgo mesmo que nunca fui. Quem se importa com isso? Ninguém!
Alguns importam-se apenas que esteja bem. Bem, não chega.
Gostaria que aquela feiticeira que ambos conhecemos, nos devolvesse o tal encanto do outro tempo. Agora fechas a ternura em ti e vislumbro uma pedra lapidada, mas tão pouco feliz, tão pouco entusiasmada, que, quando consigo detectar o brilho nos teus olhos, agarro-me a ele e não o quero perder mais. Em tempos, sentiste-te enfeitiçada, sei-o bem. Li-o. Quero mais. Mas já não te entendo.
Na realidade não me peçam para entender as mulheres, é esforço inglório! Já tentei tudo, já arrisquei o nada.
Onde te escondes quando o sol se põe? Estava ainda enlevado nestes pensamentos, oiço uma risada.
Ela saudou o copioso capanga da porta, que me piscou o olho como que cumprimentando-me pelo feito.
Melosamente entrelaçou os dedos finos nos meus. Beijou-me com naturalidade como se os meus lábios fossem velhos conhecidos, e pediu-me que a levasse a casa. Era pelo menos isso que eu esperava.
Ela não apareceu. Esperei horas e nada.
Telefonei a um amigo, que não tenho, nem nunca tive, e pedi-lhe que me fosse buscar.
Passaram longos meses. Demasiados meses desde essa noite.
Faz tempo que partiste. Desde que me deixaste por cá numerando os dias, esperando que germine o nosso. Aquele que eu quero que brote, como um belo jasmim.
Tu, ou o que ainda resta de ti é provavelmente um fragmento.
Receio no que me tornei. Surdo, cego, mudo. Fechado, oco, sombrio. Não existem espelhos nem relógios, nem dia nem noite. Nem eu nem tu. Agora existem apenas palavras ocas, loucas, sem som.
Por onde andarás tu agora? Será que morreste?
Saberás ainda o meu nome? Os contornos do meu corpo? Claro que não. Tu estás tão longe! Aqui ao lado.
A morte espera-se, a vida gasta-se… eu consumo-me desejando o nada.
Estou totalmente desgastado e desvanecido. As horas não param, os dias avançam, os anos esvoaçam de asas abertas.
Estou cansado. O corpo quase morto e os poucos cabelos teimosos que me branqueiam a cabeça, impregnados com o cheiro ao champô de ontem provocam-me vómitos.
Por vezes, existem dias que me chocalham os miolos e só penso em desistir, lutar contra este pérfido mundo. Combater a indiferença de quem passa por mim de cabeça erguida, fixa de ideias e de boas maneiras. 
Que se fodam os bons dias e a boa educação construída de vidro fosco e aramado. Não me chamem mal-educado, porque a Inês Pedrosa também escreve o mesmo… No reflexo das vossas costas, está a imagem das minhas. Amizades de cartão recortadas em forma de "conveniência", sorrisos de orelha a orelha, num silêncio que me intimida.
Marcharei ao contrário como o caranguejo, vestir-me-ei do avesso como um palhaço sem circo sendo o meu ridículo, o prazer dos outros. Quero lá saber.
Invejem-me, ambicionem o meu fim... Não estou preocupado. Neste momento sinto que a imaginação está arrumada na gaveta das meias. Melhores dias acorrerão.
O meu mundo pinto-o eu... numa tela em que muitos não cabem. Irei escrever ainda mais, por palavras minhas, sentimentos que a maioria nunca irá sentir.
A tua ausência embriaga-me nos tragos de nada que solvo e que tu despojaste à partida.
Não te quero ver, sentir, tocar. A tua voz irrita-me quase tanto como as palavras que emite.
Serei melhor que tu? Nem pensar. Foge de mim que o meu corpo é peçonha.
Sinto-me esgotado. Com o corpo cansado é mais fácil descansar a cabeça. Com a mente desligada de tudo pode-se rever muitas coisas. E existia tanto para rever…
Acendi um cigarro de fragrância forte. No escuro só podia ver-se a brasa ardente no meio do negrume. Pretendia apenas avivar as ideias. O meu néctico pensamento sobrevoava os acontecimentos da noite.
O amanhecer já roubava as trevas da noite. O céu apresentava-se alaranjado, nuvens de um azul carregado inebriante.
Trânsito caótico, como não poderia deixar de ser. Mas preferi que o som da desordem ficasse do lado de fora do carro.
Mais um dia cansativo. Mas, enfim os carros andam e o trânsito flui lentamente.
Cheguei a casa, como sai. De mansinho. Coloquei o casaco numa cadeira, deixei a luz apagada, permitindo que a sala fosse iluminada com os primeiros raios de sol quase prata. Houve momentos em que tive tudo não tendo quase nada. Lembro-me quando dormíamos ao relento e ouvíamos o vento e a chuva beijar o alcatrão encharcado.
Sentei-me no sofá, acendi mais um cigarro e voltei a vaguear como se estivesse na primeira fila de um festival de imagens, sons e cores irreais.
Que horas serão dentro do meu corpo? Que tipo de quartzo pulsa no meu coração?
Do sótão da casa, desciam lentamente alguns solos de bateria. O “chimbau” acompanhava os acordes iniciais da viola baixo.
O som cada vez mais pujante percorria o corpo melódico de “So Far Away”.

Now here I am again in this mean old town
And you're so far away from me
Now where are you when the Sun goes down?
You're so far away from me

You're so far away from me
So far I just can't see
You're so far away from me
Alright

I'm tired of being in love and being all alone
When you're so far away from me
I'm tired of making out on the telephone
'Cos you're so far away from me

 
You're so far away from me
So far I just can't see
You're so far away from me
Alright
And I get so tired when I have to explain
That you're so far away from me
See you've been in the Sun and I've been in the rain
And you're so far away from me
You're so far away from me
So far I just can't see
You're so far away from me
Take it down*

A música soa, a solidão acentua-se. Sorri e deixei escapar uma lágrima que rolou pelo meu rosto escondido pelas mãos.
Reclinei o corpo, como se estivesse à procura de um ponto no tecto. Sim, aquele é o meu refúgio, a minha válvula de escape. Dia após dia faço este ritual, na esperança de um dia encontrar o ponto que teimosamente se resguarda dos meus desgastados olhos.
●●●
A melodia e um odor a “erva” paira no ar, como se um rastilho de incenso tivesse sido deixado a arder durante várias horas.
O cheiro infiltra-se nas paredes, nos corpos jovens que ali se encontram em prostração.
Um jovem “snifa” um resto de coca que se encontra numa mesa improvisada. Um sinal de STOP, que roubaram certamente numa das suas noites de distúrbios, assenta num tronco de madeira maciço de base redondo.
Outro jovem com salpicos de barba dança agitado e eufórico ao som do pujante e harmonioso riff que a acústica canhota do Alfredo brota para a poluída atmosfera.
O peculiar timbre da voz de João mistura-se no denso nevoeiro de fumo. Inclina o corpo para trás, cerra os olhos enquanto as mãos matraqueiam as pernas ao “groove” do Luis que transpira grossas gotas de suor ao assaltar o prato de ataque.
Um clima de obscuridade invade a sala. A luz não é propriamente bem-vinda naquele ambiente.
O negrume é rainha e senhora, e apenas por vezes um flash de uma luz psicadélica irrompe pelo escuro da sala, quebrando assim a monotonia da cor.
Vislumbro uma rapariga sentada no chão e com as mãos nos joelhos. Reluzia, como uma chuva de estrelas cadentes enquanto a guitarra do Nuno nos embalava até à fronteira do delírio com um magnífico solo.
Abeirei-me dela e sorri. Já a conhecia do liceu e das aulas de ginástica. A noite caminhava de forma célere e perturbante.
E quando a manhã raiar vou rir da insanidade e de como a morte se veste de guitarra baixo.
David com ar acabrunhado fixava os olhos na pauta para que nenhuma nota tirada do baixo pudesse escorregar do improvisado palco.
Pelo canto do olho, noutro canto, desencanto no meio daquela panóplia de fios, luzes e instrumentos, uma cara de menina melodicamente frágil, mas curiosa. Andreia, sempre que os seus finos dedos abalroam as teclas do sintetizador, melodias parecem vir de longe, de dentro, como brotando num útero, onde a vida começa. Depois, o som propaga-se lentamente enchendo corpos de bonecas, soltando vestidos com folhos, enrolando-se em colares de pérolas, alianças, tacões altos, unhas falsas atravessando toda a sala contagiando todos aqueles corpos vazios e imberbes.
Às vezes a canção não precisa dela, corre solta, está à superfície da pele, cai das pontas dos cabelos molha-lhe a fronte, mas sempre que é fatal Ana Sofia, faz rendilhar o saxofone e a flauta com mãos cheias de versos de amor. Uma sonância de estrofes que nos provoca um reanimar de uma chama que o tempo fez murchar.
Eu tento agarrá-los para os oferecer à menina sentada a meu lado.
“Sentes?” Apanha-os, porque a altura é esta!” Exclamou a menina ainda com as mãos nos joelhos, a meu lado.
Alucinado e com os olhos pesarosos desperto da minha hibernação. Os pés pesados, a alma dormente, o coração oco.
Olho fixamente o tecto e encontro o tão almejado ponto.
Um “olá” declamado entre dentes faz-me rodar o pescoço tenso e dorido. Com um esforço descomunal, reconheço a mesma silhueta, um pouco mis polida pelo tempo, da menina sentada e de mãos nos joelhos. Em completo mutismo voltou a sentar-se a meu lado.
●●●
Sim! Tudo foi vivido, mas não adianta sonhar… fica o pensamento para sempre a flutuar.
Tivemos o nosso sonho domado e esculpido nas mãos. Um dia riscámos a nossa história e escrevemos por cima, uma outra da qual já não fazíamos parte.
Tropeçámos nos arrependimentos até percebermos que era muito tarde. Longínquos vão os tempos que trocávamos o sono pelo frenesim dos nossos beijos.
Alterámos a história porque a nossa estava gasta. Amanhã voltamos. Amanhã; pensámos nós e fomos repetindo este pensamento dias a fio. Passou-se uma semana, passou-se um mês passaram anos.
A perfeição não existe e aquele querer, o nosso sonho do mundo perfeito, lado a lado, fez-nos cair no dia que ficámos sem asas. Procurámos soluções sem saber para que problemas e por mais que tirássemos os espinhos as cicatrizes ficaram.
Oportunidades perdidas. A vida a passar-me o lado. Não acredito em mais nada. O remorso. O eterno tormento das coisas que ficaram por dizer. O arrependimento. Que inferno.
Custa, dói muito. Não sangra, mas preferia sangrar, perder tudo deixar de ser quem sou e em troca ter apenas um pouco de paz interior.
Na realidade não passo de um imortal romântico, não posso prever o amanhã que a vida me reserva, mas na eloquência do silêncio, as lágrimas visitaram os meus olhos, rolaram pelo meu rosto, confundiram-se com a transpiração e mostraram-me que ainda sou hábil e me consigo surpreender.
A ternura, a emoção vivida fizeram-me acreditar que o futuro poderia ainda sorrir. Não houve aplausos, mas como dois bailarinos que amam a sua arte, escutamos os sussurros do prazer que os nossos corpos envolvidos brotaram.
Tanta paixão, tanto amor, não podem nem devem deter-se adormecidos, as vidas são para se viverem, os momentos para se recordarem e juntos podemos voar, construir castelos, mudar o rumo aos contos de fadas, abraçar a felicidade e uma vez mais agarrar oportunidade que a existência nos dá.
Será que tudo tem de ter um fim?
Tudo tem um fim, seja definitivo ou não, mas a memória essa nunca se apaga totalmente se aquilo que aconteceu foi importante.
Lembras-te quando te colavas lânguida ao meu corpo e olhos nos olhos, me dizias que a teu lado, incendiasse o mundo? Comecei por ti. Mas rapidamente o fogo foi extinto por águas depravadas lançadas por bocas adulteradas.
As estrofes meio sussurradas na voz de Knopfler, ou do João – como poderei eu saber? - Traduziam o modo como me sentia.
Abracei-me e não me senti. Afinal quem actuou para mim? Não sei!
Na minha mente, eu era um anjo de ferro, um monstro sem cabeça, um príncipe enganado.
Com os olhos cerrados, para não ver a realidade, entendi que nunca passaste disso mesmo, um sonho, distante… tão longe, aqui ao lado.

Cocaine – Eric Clapton
So far Away – Dire Straits


Sultans of Swing

João Veloso (Voz)
Alfredo Soares (Guitarras)
Nuno Pinto ( Guitarra Eléctrica)
David Costa (Viola Baixo)
Andreia Pereira (Teclados)
Ana Sofia (Saxofone/Flauta)
Luis Ferreira (bateria) 

domingo, 10 de abril de 2011

Parto sem dor

Para alguém muito especial. Mãe fazes hoje 77 anos.
Sei que não me podes ler, mas não poderia deixar de o fazer.



Parabéns! Adoro-te




O grito do branco arrepiou-a
O feixe de luz beijava-lhe o ventre
A posição provocava-lhe náuseas
O silêncio foi arredondando, cheio de formas e cúmplices ocultos
O silêncio alastrou pelo grito do branco da tinta fresca
Afastou as fronteiras bem iluminadas
Sentiu dilatar, não o particular, mas todo o universo do seu corpo
Inocentou o tempo e a dor do momento
Abriu mais as pernas
O silêncio preencheu o remoinho de palavras que mal cabiam no espaço
Eram imensas, duradouras e lancinantes
Hoje, são incertezas ditas em tons de transparência
O silêncio vestiu-se de homem. É activo e transpira
O silêncio é faminto, invade os poros…
Exsuda como o mutismo de quem a estuda e lhe entalha os dedos como garras na sua paridade de mulher
O silêncio projecta-se no absorto da sala, na face dos homens sapientes
As palavras, os ditongos, as rimas foram comidas por esse tal do silêncio
Ele é covarde, franzino. Mal se sustenta nas pernas, mas é obstinado
O silêncio tem asas cortadas e recrimina
O silêncio partiu-se com o plange de quem germinou
A cicatrícula permanente do cordão umbilical, sem dor
Acordou finalmente ao cabo de duas horas com a boca pegajosa de sangue seco
Toda ela era hemorragia abundante
Nos últimos tempos toda ela tinha sido um sangramento
Transbordou a tudo
Líquido amniótico e sangue envolta num sebo, sem dor
Guardou de modo acurado sobre o ventre o mundo cruel inscrito no espelho da vida e tentou esconder a essência do nada
Despiu as vestes que a noite de estrelas lhe tinha colado à pele e ficou nua, o sangue vivo salpicando o ar em que se movia
Era uma vez um parto, e viveram felizes para sempre sem dor
Eu parto, sem parto, sem dor para poder evocar o milagre do teu sangue
Esse redentor ninho bordado nas tuas veias
Onde nasce e se suspende, o meu pensamento
Parto sem dor…

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Odeio



Odeio o imprevisto.


De repente uma tontura repentina. Perco a visão por instantes. Deixo de ouvir. Caio por terra qual baralho de cartas.

Perdi as forças nos músculos, perdi a energia da alma.

Fecho os olhos e desapareço durante alguns momentos que parecem horas.

Batem-me na cara, agitam-me violentamente, fazendo-me reaparecer em mim. Sinto um frio estranho percorrer pelo meu corpo, estremeço e acordo.

Dizem-me que desmaiei como um passarinho de asa quebrada.

Tudo o que me lembro é de algo escuro como breu, como se tivesse sido engolido por um buraco negro. E eu venero o breu da noite, porque a noite pode ser muita coisa, pode ser um castigo ou pode ser um bálsamo, e já foi tudo isso no meu universo. Tanta incerteza que viver é ambiguidade.

E na dubiedade nocturna eu afastei-me das luzes e corri despido de roupa pelas ruas de pedra dura e fria corri a noite toda às voltas tentando evitar os caminhos dos meus receios, ambiguidades e dúvidas.

Odiei esse dia, senti que o tempo me ultrapassou sem pedir passagem.



Desde esse dia sofro e odeio o sofrimento que sinto por odiar os meus sentimentos.

Odeio em vários momentos perder o controlo da minha razão quando esta é superada pelo meu lânguido coração.

Odeio perder as rédeas dos meus pensamentos que correm livres como o vento rebelde para ilusões que só me farão sofrer.

Odeio ficar impotente perante sentimentos que avançam em mim como um vírus desenfreado que me ataca o corpo por inteiro.

Odeio frases-feitas de argamassa de moral mal misturada.

Odeio encontros ao acaso e desencontros planeados.

Odeio olhares que se cruzam no meio da multidão.

Odeio palavras de afecto e gestos de repulsa.

Odeio não gostar de mim, mesmo sabendo que sou um ser inteligível.

Odeio mudar de humor conforme as fases da lua e as agitadas marés do mar encrespado.

Odeio guardar o desassossego no bolso traseiro das calças e ter asas que me levam apenas até às nuvens.

Odeio andar ao ritmo da vida.

Odeio neste momento andar ao ritmo de decisões alheias.

A mudança é sempre complicada de gerir, mesmo que seja para melhor... ou daí, talvez não.

Odeio saber que mais uma vez irei sofrer e que nada consigo fazer para o evitar.

Odeio sofrer, odeio amar.

Odeio, nesta fase da minha vida misturar ódio e amor.



Mas o ódio e o amor são de tal forma que unhas e dentes se cravam na pele.

Esqueço-me de respirar e por isso, sinto-me meio zonzo.

As roupas há muito arrancadas. Eu atordoado, tu estonteante.

Só existe carne, lágrimas, suor, saliva e um desmesurado desejo.

Mordo-te, arranhas-me, arfo, latejas.

Estendo-me pelo comprido assim prostrado e muito nu com aquela vontade de me entregar inteiro, espalmado no esvoaçar da alma que se espalha ao sabor da brisa que me passa a cada despentear do pensamento.

A noite despida de nuvens. O vento sopra de mansinho. Será que esta brisa é a mesma que bate nos vidros da tua janela?

Queria beijar esse vento para me unir ao teu pensamento.

A noite é longa e serpenteia por mim a insónia do desejo. Canto aquela canção de embalar que minha mãe me entoava em desespero.

O sono fugira para parte incerta. Na sua busca pus-me a contar ovelhas daquelas felpudas, mas fico desperto com elas tosquiadas, escanzeladas! Tal como eu.

Sinto-te longe. Mas hoje não. Vi-te ao longe e sorriste para mim.

A lua poisou docemente no meu ombro. O luar apalpa atrevido o teu corpo, lento e refastelado.

Sem pressas invades os meus cantos quando aconchegas o teu corpo quente ao meu ardente na vontade de ti. Os meus dedos exploram lentos em toques profanos até despertar o sabor do arrepio.

Beijo-te o pescoço, o queixo e contorno os teus lábios com a língua que desce e explora o teu corpo, cada pedaço, cada canto em encanto no percurso mais insano e descubro novos sabores na curva apertada do teu corpo. O percurso é longo, mas caminho até que mordisco os teus seios tumefactos de excitação.



Já viste algo mais bonito do que dois amantes feitos de ódio que se apaixonam?