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domingo, 28 de fevereiro de 2010

Isabel


Todos os dias, saía de casa para ver os primeiros raios de sol da manhã, na enorme praia da Fonte da Telha e por ali passava os dias, observando os veraneantes que iam torrando os corpos.
Gostava de avistar os nadadores salvadores. Sempre tinha tido uma certa admiração pelo trabalho daqueles jovens musculados, de cor dourada e odor a sal.
E como o progresso não pára, as sereias salvadoras deambulavam igualmente pelo areal, enterrando os pés o que lhes provocava um andar sensual… Experimentem ver.
Na última madrugada daquele verão, antes que o sol se pronunciasse, decidi que podia explorar mais as falésias que vigiavam a praia.
Ultrapassei o longo areal, ainda frio e dirigi-me para uma colina íngreme e bastante escorregadia. Certamente que pouquíssima gente se daria aquele trabalho inglório. Passei por uma estreito trilho que contornava um grupo de rochas até que cheguei ao alto.
O vento fustigava-me o rosto com tal brutidade que chorava lágrimas como se uma agulha me espicaçasse os olhos.
Ali, no alto, o terreno aplanava, e o silêncio perturbava. O ar melancólico do alto da colina era intensificado por um velho casario abandonado, que pertenceu a uma família chamada Castro. Os Castro, família abastada nos anos setenta, tinham apenas uma filha, a Isabel.
Uma menina bonita, e com a particularidade de possuir uma brava cabeleira ruiva e o rosto pintalgado por sardas.
Há muitos anos atrás, ela desapareceu misteriosamente e nunca mais fora vista. Os Castro depois do sucedido partiram para as bandas de Lamego. A casa ficou abandonada, cercada de suas gigantescas cercas de ferro. A casa estava tão desgastada pelo tempo que parecia moldar-se ao chão e ao espaço em torno dela.
Ainda que ofegante, dei mais alguns passos, até bem perto das grades ferrosas e ferrugentas. Colei o nariz junto ao velho e corcovado portão e olhei em direcção a uma janela de portadas que outrora foram verdes. Era a janela do quarto de Isabel. Sabia-o porque trinta e seis anos me separam do primeiro dia que vi a menina ruiva naquela mesma janela, a espreitar o sol que lhe transformava os cabelos em madeixas douradas.
Nesse instante, lembrei-me das lendas que contavam na Fonte da Telha, nos anos que se seguiram ao sumiço de Isabel. Transformaram-na em vítima de um crime hediondo. Em algumas delas dizia-se que fora degolada pela força de um machado, em outras que tinha morrido afogada na banheira, que teria sido enterrada viva e que seu franzino corpo repousa em algum canto daquela casa. E mais que histórias sangrentas de assassinatos, a casa e Isabel, passaram a ser protagonistas de inúmeros casos de mistérios, pois não foram poucos os que relataram terem visto seu fantasma surgir por traz da vidraça da janela das portadas verdes.
Eu, céptico nestas coisas, nunca tinha visto o fantasma de Isabel mas pensei que aquele seria, quem sabe, o momento ideal, pois acreditava que os mortos só aparecem em segredo e apenas quando tudo se encontra no mais absoluto silêncio.
Queria vê-la. Comprimi ainda mais o meu rosto contra a grade, cerrei os olhos, e evocando a minha voz de adolescente murmurei, a medo:
— Isabel.
Nada.
— Mais uma vez.
Um novo sussurro, que enviei através do vento, à janela da portada que já fora verde.
— Isabel.
Aguardei alguns instantes, esperando que um ser de mais ou menos fantasmagórico se anunciasse através de qualquer uma das janelas da casa. Mas, nada.
Uns borrifos de chuva começaram a cair. Uma chuva fina e cadenciada que transformou todo o local numa branca e densa neblina.
Triste, mais um dia, voltei para casa e adormeci, esperando sonhar com o meu fantasma ainda não descoberto.
Algumas horas mais tarde, fui acordado por um ruído infernal que descia a minha rua. Uma centena de pessoas gritava que a casa dos Castro, na Fonte da Telha, estava a arder. Apressadamente e sem dar pelo tempo lá estava eu no meio da multidão.
Na casa viam-se bombeiros e policias por todo o lado. No telhado, nas janelas, no antigo jardim. Subitamente, surge um bombeiro com a face negra com uma menina ao colo. Aos encontrões fui-me abeirando cada vez mais da frente do antigo jardim e da cerca de ferrugem agora raiada de ervas que lhe preenchiam os espaços dos aros quebrados. Ali estava Isabel com os seus cabelos de ouro trazida da morte.
Nunca me tinha sentido assim, aterrorizado, mas ao mesmo tempo como alguém que habitasse um lugar inexistente ou mágico e acreditando ser capaz de ressuscitar os mortos. A menina foi conduzida a uma ambulância, e ao passar muito perto de mim, e por um breve instante tive a sensação do confronto dos nossos olhares, como se fossem cúmplices de algum pecado.
Aterrorizado, olhei aquele rosto de menina. Ela não crescera. Virei-me de soslaio para a esquerda e amedrontado, vi o meu reflexo no vidro da porta da ambulância que se fechara para seguir para o hospital.
O meu rosto tinha rugas feitas pelo tempo. O meu corpo era de homem. Isabel continuava a menina dos cabelos ruivos. Teria o tempo parado naquele local? Ou será que cessa perante a morte? Esteve na realidade alguma vez Isabel morta?
Não sei, apenas e só continuava a ver aqueles olhos que tinha fixado os meus.
Despertei. Os meus olhos estavam molhados. A minha almofada era testemunha do odor a sal que os meus olhos teriam deixado escapar.
Levantei-me atordoado e pensei que o tempo tinha ficado preso e acorrentado Isabel, para me dizer que aquela linda menina, era a filha que nunca tive, e como o destino é sábio, fez com que a conhecesse há trinta e seis anos.
Poe esta mesma razão, ainda hoje choro, pela filha que nunca tive.

In: A filha que nunca tive

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Os sonhos também se abatem

(...)

Uma névoa cobria o grandioso edifício do hospital. Uma nébula cor de chumbo que irritava os olhos. O calor tornava o ar rarefeito e os pulmões tinham crostas sólidas que tornavam a respiração um inédito trabalho consciente. Era meio-dia e o estio não havia maneira de abandonar a estação do tempo.
Meio-dia e um minuto. Desde madrugada que tinha travado uma contenda contra o tempo. Furtado abandona o hospital e dirige-se para a estação do metro. Esperava como uma raiz apodrecida pelo comboio. Uma menina esboçava um sorriso. Não era uma menina qualquer. Tinha a tez alva, de uma nórdica. Os olhos vítreos de um azul-marinho, encimados por supercílios traçados a lápis de cera. O rosto era ornamentado por maçãs salientes e róseas. Os lábios de Vénus, e um nariz que não saberia definir, mas que possivelmente associou aos das deusas celtas. Da fronte ampla e lisa, emergia uma farta cabeleira azeviche e sedosa, parcialmente presa na nuca. Ela olhava na sua direcção, para o vácuo e sorria. O médico, atónito, tremia. Ignorava o motivo, mas era fácil supor. Nunca uma menina lhe tinha sorrido daquele modo. Nem em sonhos. Nenhuma, jamais o iria certamente fitar com tanta meiguice e carinho quanto aquela menina que parecia uma pétala de poesia.

Acordou a meio da noite com suores frios. Depois da preguiça, espreguiça.
Esticou os braços e tremeu como aqueles que querem não tremer. Gesticulou e fez uma careta alongada ao ritmo de uma breve flatulência. De seguida desfez um Xanax num copo que continha uma réstia de cerveja. Encostou-se na almofada e fechou os olhos. Tudo era negro como breu. Uma espécie de contentamento iluminou o nirvana de ascese moderna.
Todas as imagens eram ficção. Esperava que aquele quadro negro permanecesse eternamente. Pelo menos até ao amanhecer. Assim, não pensaria sequer a dormir. Arrebatado, cego, estático. Não existem introduções para a epifania.
Uma visão não tem prólogo nem epílogo. Simplesmente acontece.
Após algumas horas acordou de novo sem dar conta de si. Deambulou pelas diversas divisões. Nenhuma delas o cativou. Transitava sem posição, apenas e só perspectiva.
Passou pela cozinha. Bebeu água de forma lenta como que saboreando cada trago, cada gesto.
Retornou ao quarto. Pensou um pouco no sonho e não deu muita importância, afinal já estava habituado aqueles sonhos nos quais “ela” sempre agia assim. Simplesmente sorria para o nada.
Voltou para a cama. A imagem da menina deusa girou-lhe de novo nos olhos. Sabia que tinha sonhado. Por vezes um, noutras, vários e em muitas das noites, nenhum.
Fechamos os olhos e a alma dorme noutro lugar. Sonhar é bom. Sonhar é viver, amar, sentir. Mas, os sonhos também se abatem.
(...)


In: A filha que nunca tive

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Metáfora da liberdade



O tempo. Simultaneamente, inimigo e aliado.
Enquanto nos sorve a vida pelas beiradas, repara os estragos que ela causou no nosso âmago. Com o passar do tempo percebemos que um simples sorriso faz a diferença. Um simples abraço transforma segundos em longos minutos. Que o som de uma guitarra nos remete a outro mundo. Que estar só requer um equilíbrio emocional. Entendemos o real valor das pessoas, que todas são diferentes. Criamos novas expectativas. Queremos andar sozinhos, mas não queremos estar sós. Essencialmente com o passar do tempo aprendemos que o tempo passou mas não em vão. E, para mim, o tempo tinha sido um adversário difícil de combater. Se tinha.
Lembro-me muito bem de como era ser criança. O tempo era infinito e não havia morte. Nem sequer nela pensávamos. Passávamos-lhe sempre ao lado com a nossa inocência e vivacidade. “Só os velhos morrem.”
O mundo era uma imensidão. O relvado da escola primária parecia uma imensa pradaria americana. Os espaços pareciam tão imensos que nos perdíamos na nossa casa.
Os jogadores de futebol pareciam uns homens feitos, velhos. As miúdas dos concursos moldavam os fatos de banho a preto e branco como mulheres sensuais e com ar escanado.
As férias grandes eram mesmo grandes e no fim das mesmas tínhamos dado um “pulo” imenso, pelo menos era o que os adultos nos diziam. As emoções ainda eram grandes demais para nós, por isso submergiam-nos. A nossa casa era um claustro, de tecto alto e inatingível.
Tudo era possível. Os adultos tinham todas as respostas, por isso a nossa própria ignorância não nos afligia muito. Pensar? Apenas nas participativas corridas de caricas que tinham lugar no lancil dos passeios, ou nos jogos de hóquei em sapatilhas com uma bola de matraquilhos que com o “estique” lançávamos contra as sarjetas.
Deus era uma certeza. Estava em todo o lado. Olhava por nós.
Mas o tempo não perdoa e quando acordamos vimos por cima do ombro, o passado tão perto, que por vezes o queremos agarrar.
Como uma metáfora da liberdade, atirar-me apanhar uma gaivota e voar por aí sobre os mares, sem rumo, esquecer quem sou e o tempo que não tenho, esquecer as lágrimas perdidas e no cimo da vida pular de contentamento, esquecer os pensamentos ensanguentados e ser eu próprio assim como nunca fui nas asas de uma gaivota.
Queria eu vencer as batalhas todas de seguida, numa rajada inspirar o amor que sinto não existir no coração dos outros e como se eu fosse genuíno, mais puro do que as águas cristalinas como as que jorram de escusas cascatas, ver reflectidos em mim os sonhos deles sem pontas de ódio ou de ruptura... só e apenas assim ser nas asas de uma gaivota.
Cala-te boca! Cala lá todas estas palavras porque hoje a loucura é muita e a febre de me sentir vence, porque hoje a vontade de ir me surpreende. Tomara eu ser Fernão Capelo e voaria sempre ávido de liberdade desafiando as regras impostas por gente que se julga dona do mundo e alertando-os a abrir os olhos para a liberdade que só o conhecimento pode trazer.
Entretanto, assim como Fernão Capelo Gaivota, acredito que somos ideias perfeitas e ilimitadas de liberdade, porque o perfeito vem da busca infinita pelo melhor.
"Para as pessoas que sabem que a vida é algo mais do que aquilo que nossos olhos vêem.”



In "A filha que nunca tive"

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Quero esconder-me do mundo


Com a alma em carne viva saí ontem à noite acompanhado simplesmente pela minha sombra, única companhia que ainda me tolera.
Na esquina de uma estrada avisto uma silhueta igualmente perdida da vida.
- Olá – Disse sedento de falar com alguém. Já não suportava a minha voz em mim.
Seguiram-se momentos de silêncio, não sei quanto tempo fora mas parecia uma eternidade.
- Hoje não tenho onde ficar – Verbalizei de súbito.
- Bonito... Queres tomar um copo? Vem comigo. – Disse abrindo um sorriso forçado, tentando mostrar-se simpática.
Levou-me por meio da escuridão até um sítio pardacento, isolado onde havia uma carruagem abandonada, com manchas de zinco no topo a tentar tapar uns quantos buracos. Dentro do tugúrio havia um colchão podre e verde. As seringas estavam espalhadas por todo lado. Pegou numa botelha, num fósforo e repentinamente fomos inundados por uma luz dançante.
- É aqui…
- É a minha mansão, onde levo a minha vida.
- Dormes cá?
- Não tenho mais lugar nenhum. É um bom sítio. Aqui só estou eu e a lua.
- Posso ficar cá?
- Nem penses.
- Vá lá, deixa-me ficar, só hoje.
- Já disse que não!
- Porquê? Tens um colchão e tudo. Não deve ser a primeira vez…
- Porra que és estúpido! Porque preciso de dormir e só há uma cama. Para "brincar" uma cama chega, para dormir já é outra conversa!
Mas, hoje precisava de me esconder do mundo. Sentei-me também no colchão. Como pode ela viver aqui? É um lugar pequeno, sufocante, tão escuro. Ergui os dedos e apalpei a madeira que protegia a porta. Feri-me com alguns pregos arrebitados. Gritei, mas ninguém me ouviu.
Penso que grito baixo demais. Julgo que já tenho os meus dez dedos a sangrar. Coloco-os um a um na boca, chupo aquele doce acre vermelho. Afinal apenas o indicador da mão esquerda pungia.
Sinto muita dor nas costas, pois o tecto é baixo demais. Fico assim, encolhido, os meus joelhos quase que tocavam o queixo. Aliás, se bocejo os meus dentes vão arranhar os joelhos, e sei que também eles estão a sangrar.
Não me consigo virar, nem para esquerda, nem para direita, nem para trás. Mas escuto muitas vozes no lado de fora.
A vida caminha normalmente. Gritos, cães que ladram, a voz de Marlyn Mason tão perto que consigo visualizar as suas unhas negras arranhando-me a cara.
Uma velha televisão pisca ondas de luz coloridas que me fere os olhos. Mas ela disse-me que a primeira coisa que fazia era dar ao botão. Quando os clientes somem, ali fica o dia inteiro até o final da tarde, sentada ou deitada no colchão verde, tendo como companhia apenas e só as pulgas. Mas confidenciou-me que paralisava pela magnitude das catorze polegadas, onde cabe o sucesso, brilho, beleza, guerras fenomenais, amores arrebatadores e performances de delitos do mundo inteiro. Era hora do jornal nacional e depois a esperança da heroína da novela. Parece que está emocionada, pois ouço, “Jesus do céu!” Olho de lado para o sorriso do presidente da república. Mas não posso nesta minha posição desconfortável expressar merda nenhuma. No momento estou ocupado, e não posso fazer grandes coisas pelo meu país. Quem sabe nas próximas eleições? Assisto, somente. Queria só sair dali. Afinal de contas, a vida continua. De repente apercebi-me de quanto era absurdo, tudo aquilo que estava a fazer.
Andei todo o dia à deriva pelos recantos da cidade, sem saber como agir. Estou sem cabeça para pensar em soluções, e portanto vagueio, sem sentido pelos recantos do meu cérebro em busca de uma solução.
Não podia ser descoberto, essa era a prioridade das minhas preocupações. Durante muito tempo abria-me para os outros, sem constrangimentos, até que aprendi que o homem calado tem muito mais a ganhar.


Texto: In "A filha que nunca tive" (Não editado)


Imagem: Google

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O sono da mentira

Não falamos, nem sorrimos. Os olhos sentem vergonha de nós e por essa razão evitam-se.
O meu sono teima em chegar, o teu abraça-te e leva-te para um mundo de mistério e luz.
A tua boca entreaberta em finos sopros de hálito quente tolhe-me o pensamento e o sossego.
Os anos galoparam como um cavalo de corrida. A distância da meta era diferente para cada um de nós e, quando se corre sem o mesmo objectivo, o percurso é sinuoso, torturante e o triunfo quase sempre intangível.
E depois do apogeu, sempre chega o declínio, e não tardou muito até que o nosso idílio de amor se revelasse como uma tragédia de Shakespeare.
E como “ser ou não ser, eis a questão:”, lembro com nostalgia a nossa epopeia. Uma trajectória algo atribulada e nem sempre pacífica.
Eras uma pequena rebelde, extravagante e imprevisível. Mas na mesma dose de bravura que te caracterizava, possuías ao mesmo tempo uma serenidade estranha, que me cativou.
O teu corpo era tão feito de sol que aquecia meus poros cristalizados de lua... e, eu via a lua através do teu corpo, e a noite lunar que te aflorava o rosto.
Passaste a dormir no início do meu segredo. Dormias por ti e por mim.
Eu continuava mudo de voz e de sentimentos. Respirava as horas suspensas no ar e aspirava música rock debitada por um rádio a pilhas enquanto recostava no corpo da noite que me fazia companhia.
Já alterei algumas coisas na minha forma de estar, mas não me peçam mais daquilo que posso dar.
Não prometo o que não sei se posso cumprir. Tento, luto por, mas não invento nem crio falsas expectativas.
Por essa razão idealizei fantasias, ilusões. Nada, tudo sem qualquer resultado.
Em surdina começo a ouvir vozes que me fizeram acreditar em algumas coisas na vida, que me deram conselhos, mas também houve outras que me derrubaram, fizeram-me cair, sentir-me num precipício. As vozes passam a ecoar cada vez mais alto. Estão dentro da minha cabeça, parecem querer estoirar-me os miolos.
Desamparadamente deixo-me cair. Teria alguma vez sido amado?
Será que conheço o verdadeiro significado do amor? Na realidade, não sei se sei.
Sei sim que me sinto fraco. Desgastado por meio século de existência e muitos anos de marasmo.
Por vezes quero sorrir, mas a tristeza está vincada na expressão dos meus olhos. Já não logro ninguém. Cada vez mais, acredito no que diz o poeta La Rochefoucauld, quando diz que “O verdadeiro amor é como a aparição dos espíritos: toda a gente fala dele, mas poucos o viram.”
·
Uma noite de insónia e tracei no papel da memória o percurso da minha sombra.
Não se ela também deixou de me seguir.
Eu numa apatia aterradora diária deixo-me enterrar no sofá de sempre, acende o cigarro da angústia, levo-o serenamente aos lábios, e inundo os pulmões de alcatrão, para que o negro possa cobrir igualmente a minha alma que acredito estar dentro do peito.
As malas meio feitas, os olhos postos num horizonte que também já não existe. A hesitação. Ainda, e sempre, a hesitação.
Para trás, o sonho que um dia também foi meu. Meto as malas no carro. Lembro-me que me esqueci do casaco de camurça. Não volto atrás para o ir buscar. Apenas um ser me segue. Aproxima-se para se despedir. Rogava-me apenas uma simples festa. Para ele é suficiente. Se ficasse, agora, seria por ele. Por aqueles olhos tristes que não entendem. Sento-me no carro, fecho a porta, ligo o motor. O portão está à minha frente, à espera. E eu preciso de me encontrar, e por isso vou.
Nem por aqueles olhos tristes poderei ficar, se ficasse agora, toda esta luta ficaria por ganhar.
Passo o portão e olho uma última vez pelo retrovisor onde antevejo os dias passados, as tardes cor-de-laranja, o barulho das folhas das árvores, e os sorrisos. Levo-os todos na mala, quase feita.
Nunca poderei olhar nos olhos daqueles que me poderão fazer ficar, porque sei que à mínima hesitação, eu fico. Por essa razão não me deixo fracassar e sem mesmo olhar, conduzo, mantendo os olhos no horizonte inexistente que desenho a cada segundo.
Respiro profundamente, fecho os olhos por segundos e sei que irei na direcção certa, ao passar aquele portão. A verdade está no horizonte à minha frente.
E o horizonte ao crepúsculo tem a mesma cor dos olhos que vejo reflectido em ti. Mas, parto. Resoluto. Decidido. Sem me despedir de ti, sem me despedir do lugar, dos vizinhos, sem me despedir sequer do cão de olhos tristes.
Quanto a ti, meu querido amigo, recordarei sempre os teus olhos melancólicos, o olhar de cãozinho abandonado, o teu ar sorumbático, e se estiver escrito sei que me voltarei a encontrar contigo noutra volta do caminho. Parto, pois. De olhos postos no horizonte.
Partir é necessário. Levo aos lábios um cigarro que retiro do maço Ritz. Aquele será o primeiro cigarro do resto da minha vida. O maço é preto, a luz é alva. A noite é morna. A estrada corria monótona e sem fim.
Acompanhado pela maresia da noite e pelo borbulhar das ondas do genérico do “Oceano Pacifico” viajei sem rota certa.
Íamos pela beira-mar sem darmos as mãos. Já não dávamos as mãos nessa altura. Lembras-te? Passava a vida alheado. Naquela tarde junto às ondas que vinham descansar na areia por breves segundos partilhámos o ar morno do fim da tarde pois já nada mais havia a fazer. Senão aproveitar o momento.
Todos os momentos são preciosos e, esses instantes, as únicas coisas que tínhamos em comum. O momento.
E a vida é composta por momentos ritmados como as notas de uma sinfonia de Vivaldi.
Mas recordas que sempre me senti num espaço que não me pertencia.
Um estranho no meu próprio espaço. Por vezes odeio aquele que me envolve. Como abomino esta cidade com capa de puritana.
Como detesto os habitantes da desgraça que se recolhem nos templos para rezarem a um Deus sem rosto que não sorri. Saírem de lá como se tivessem a alma lavada para, depois, meterem as mãos entre as coxas da cidade a babarem-se como touros com meia dúzia de ferros e carícias de olhos arregalados, os lábios a endurecerem com o cheiro de um corpo à espera onde deixam a solidão, a mudez da mulher, a correria dos filhos, a indiferença do cachorro.
Eu sempre alheado de tudo e todos. Cada vez sentindo uma alienação mais contundente.
Nada do que me dizias me poderia interessar. Eu já não era dali. Não era teu. E sabias. Não te dava muita paz.
As rochas da praia eram minhas. As gaivotas do céu eram tuas. E assim se faziam as partilhas entre nós que em breve estaríamos apartados para sempre.
Vou fugir? Talvez de mim.
O céu espera-me, os rios pertencem-me. Posso mergulhar neles quando o desejar. Chapinhar na água e fingir que os peixes gostam de mim. O vento e a chuva já não me assustam.
Vou ser como os pardais que saltitam de árvore em árvore, que buscam a comida no chão num bicar desaforado entre folhas e pó.
A sombra continuava a deambular na procura de mim e de ti.
Encontrou-te na esplanada. Sentou-se e pediu um café, tu uma água com gás. Bebidas de sabor distinto. Porque já éramos distantes. Foi acontecendo assim a separação de quem era há muito separado. Unidos tínhamos sido embora que leve e fugazmente. Tão efémero foi o acordo que não poderia ter sido mais inverosímil a consequência. Um filho, que deixarei para o mundo como um decalque de mim. O decalque de mim foi crescendo, eu encolhi. Encafuei-me no lar, ganhei bolor, julgo que apodreci a comer cebola todos os dias a todas as refeições.
Os vizinhos deixaram de me reconhecer, os cães começaram a ladrar-me. E eu não sei mesmo como sossegar, porque mesmo morto permanecerei deste lado. Aqui!
Se me custa a vida, mais me custa uma morte em que perco o que me resta, o meu derradeiro poder de decidir se fico em casa ou saio, se faço ou deixo por fazer.
Morto, sem apelo nem agravo, virão primeiro uns tipos de bata branca despir-me, amassar-me, invadir-me. Posteriormente virão outros de fato preto, camisa branca perfumarem-me de incenso e taparem-me o corpo gélido com um lençol branco e que emana o mesmo odor. Mas, morto, sou como um pedaço de carne de matadouro, que só ninguém come porque ainda não chegou a fome! Mas, não faltará muito.
Como fazer o que é preciso fazer? Como escapar a esta ideia de que morremos e ficamos à mercê dos indiferentes ou dos inimigos? Pura e simplesmente desaparecer - desaparecer mesmo desaparecer - como esses de que fala o jornal da noite na televisão, que desapareceram sem ninguém dar conta e por isso ninguém há-de encontrar. Porque de facto ainda estamos no princípio… De quê?
·
Entretanto a madrugada engoliu a noite, e a brisa folheava-a aleatoriamente, descortinando os segredos ali apostos, incitando os sonhos que rondavam o sono que me chegara muito profundamente.
Acordei como um sonâmbulo. Passei água fria no rosto. O espelho devolveu-me uma figura sem expressão, sem vida, sem esperança, onde apenas era visível a barba de dois dias que me cobria as rugas do desespero.
Entreabri a janela. A custo mirei de longe a velha, caquéctica, amarga e dócil, Lisboa.
O Tejo já tinha despertado e os cacilheiros já lhe provocavam pregas profundas nas suas águas deixando um rasto de espuma como o do champanhe aberto no Maxime por uma espanhola da vida já em fim de digressão que recebe um cliente bêbado a cantar em voz rouca “o fado da sina” para despejar a dor de corno e o ciúme.

Reza-te a sina/Nas linhas traçadas/Na palma da mão/Que duas vidas/Se encontram cruzadas/No teu coração/Sinal de amargura/De dor e tortura/De esperança perdida/Indício marcado/De amor destroçado/Na linha da vida. (1)

A minha sina é sofrer, sarar feridas originadas por cada aresta da vida. Queimam no peito as cicatrizes profundas que ainda sangram e pulsam.
É tempo de fazer uma pausa na monotonia do tempo. Até o próprio cansaço descansa em mim. Triste sina a minha que embarquei neste barco sem amarras que assoprado pelo vento percorre mares desconhecidos.
Soltam-se as vozes na escuridão e no espaço que me engole. Escuto o fado, sentindo o pecado, que me leva para onde não quero estar.

(1)"FADO DA SINA"
LETRA E MÚSICA: AMADEU DO VALE E JAIME MENDES

In: A filha que nunca tive (não editado)

Imagem: Google

JC