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domingo, 12 de julho de 2009

Em busca do tempo perdido #3


Os dias passaram, as noites ousavam transformarem-se em madrugadas à espera do Verão, a cidade ficou vazia de gente. Tão despojada, como o seu coração que percorrias as ruas de Lisboa, na tentativa de encontrar uma franja sobre uns olhos verdes, ou umas coxas protegidas por meias riscadas de vermelho. O vermelhar do sol deu lugar ao cinzento do Inverno, e as pessoas fecharam-se em casa.
Nem vivalma nas ruas. O frio e a chuva submetiam os seres vivos ao recolhimento. As memórias dos olhos verdes da rapariga traziam-lhe a esperança inalcançável.
Mesmo debaixo da intempérie, Pencas percorria a cidade de lés a lés em busca do sonho, de um rosto, de um nome. O inverno deixou de novo a cidade e o verão acampou durante uns tempos em Lisboa.
O rapaz do segundo direito voltou a viver imerso no pó dos livros que contavam histórias de amor impossíveis e tristes. Amor de Perdição do malogrado Camilo Castelo Branco foi um deles.
Todavia, a imagem da menina do autocarro bailava nos seus sonhos com o sorriso que ela plantou para sempre no meu rosto.
Releu dezenas de vezes o “Diário da nossa Paixão”, e sempre que o tornava a ler, a silhueta da jovem sem nome invadia-lhe a memória. O verde dos olhos dela faziam-lhe doer o coração e a alma, mas acalentavam-lhe a esperança.
Imaginava o fascinante cenário da história como um quadro de Monet.
Verdadeiro encanto... a água... os nenúfares... e por fim os cisnes e toda a imagem fica envolvida num tom rosa mágico.
Ensaiava o que sentia através das personagens com maresia nos olhos e o coração inundado de dor.
A agulha já raramente percorria o vinil. O silêncio perpetuava o segundo direito, do número dez, da estrada de Benfica.
Numa noite, o rapaz vestiu um fato preto, o único que tinha, mas que estava imaculadamente limpo, pegou numa guitarra que tinha esquecida no exíguo roupeiro entre meias e sapatos, e colocou-a ao ombro.
Nessa noite, triste de nuvens e sem estrelas, o rapaz do segundo direito vestiu o fato, saiu de casa com a guitarra ao ombro e passeou orgulhosamente sobre o largo do Rossio em busca do tempo perdido.
A noite não estava fria, mas num instante, a brisa transformou-se num arrepio que varreu as lâmpadas municipais. Em redor não passavam carros, o silêncio cobria a noite. Sentou-se nos degraus frios e gastos do antigo teatro D. Maria II olhou para o céu e soaram alguns acordes.
O rapaz do segundo direito sabia que aquele momento breve numa tarde de calor tinha sido o amor, igual àquele que tinha lido tantas vezes nos livros, daquele amor que levava à loucura, ao desespero e à morte.
O Pencas sabia que a vida, ao contrário de alguns livros, não tem finais felizes. Quando se sentiu cansado dos acordes musicais, decorados impacientemente no braço da guitarra, foi até à paragem do autocarro para rapidamente se esconder em casa.
(continua)
Texto: JC
Imagem: Google

2 comentários:

Raquel Vasconcelos disse...

Tudo o que é escrito é sentido. Nem toda a gente o consegue.

Quanto à vida, realmente nem sempre tem finais felizes... é verdade.

Gostei de passar aqui este bocadinho. Obrigada pela escrita.

Stella Tavares disse...

Gostei tanto dos textos que não tive alternativa a não ser segui-los. Também estarei sempre por aqui. Abraços.