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terça-feira, 21 de julho de 2009

Rute, não cresças!



Numa manhã de forte nevoeiro que abraçava Lisboa, F.J., sussurrou-me entre dentes e dois fumegantes cafés:

“Permiti que o coruscante do luar se aproximasse dos meus olhos e parti do Bairro Alto com as minhas mãos emporcalhadas na vergonha.”

Eu não me melindro com facilidade. Mas hoje de manhã no comboio ouvi uma conversa entre duas meninas, na primeira fase da adolescência, quase crianças, que, sinceramente me deixou chocado. Que raio de mundo é que nós vivemos, afinal?
Meninas de doze, treze anos que nem sequer sabem o que é masturbar-se, passam logo para o “vamos ver”.
Passar de brincar com bonecas, para o banco de trás do carro de um marmanjo qualquer, assim, directo, sem passar pela casa de partida, é falsear o jogo do crescimento.
O F.J., amigo de longa data, já tinha desvirtuado um dia uma nena, como se diz nas Beiras, de onde é natural.
Recordo com mágoa a narração, que não conseguiu evitar, por ele e principalmente por ela.
Hoje ser homem não é tarefa fácil. Quando nos abeiramos de uma mulher, devemos fazê-lo com bisturi e luva cirúrgica. Contava-me ele com maresia no olhar e a cabeça encolhida nos ombros como querendo pedir desculpa pelo injustificável.

“A rua estava enfarpelada de arraial, o cheiro da sardinha e do manjerico inundava-me as narinas provocando em mim um sentimento de liberdade festivaleira. De quem seria aquela saia preta que rodopiava de forma estonteante no arraial, e na mente de quem a via.
A música era uma grota que nos invadia os ouvidos, o vinho e a cerveja, a goela. Tal como a saia preta, também rodopiámos os copos em estridentes brindes e o álcool apoderava-se das veias do cérebro e do absurdo.
Havia o esplendor de um sorrir em meia-lua daquela jovem mulher. Inebriado com o flamante daqueles olhos verdes supliquei que me levasse em braços no delírio de uma dança.
A magia do momento caía-nos às carradas pelas faces vermelhas e insolentes de desejo.
Embalámo-nos adunados toda a noite. E nesse frenesim sem escolha esquecemo-nos por caminhos rodeados de silêncio, e duma escuridão conivente.
A ansiedade e o mórbido desejo cabiam-nos como fato em corpo nu. A brisa calava a música e os braços caíram nas dunas da ilusão.
Breves eram os toques dos seus lábios pintados de carmim, persistente o odor do perfume que vinha embalado em gotas de mar que nos salpicavam o corpo de sal temperando ainda mais o nu de roupa e de vergonha. A noite prolongava-se nos teus seios rijos e fartos de sonhos. Era ali que se espraiava a vontade dos excessos.
Libertaste a cor dos seios. A seda do teu corpo, a felpa íntima, a liberdade em fúria dos teus cabelos de trigo.
Eliminaste qualquer pudor e entregaste-me os teus gemidos esfomeados de gente. Perdi-me na voz da razão e atraquei na foz do teu corpo. Num grito escorreu-te a alma em sangue.
Ainda tentei encontrar romantismo na tua face vermelha, mas encontrei uma menina pálida de pavor. Chamei uma razão, mas apenas encontrei uma memória turva de uma saia que rodopiava nos meus olhos sem parar. Fugiste-me desamparada no momento, já feita mulher.
Desta vida ébria levo um travo amargo na boca desses teus olhos cor do mar revolto, que nunca mais provarei.”

F.J. tinha nesse ano de mil novecentos e noventa e dois, trinta e quatro anos, e seis enlaçados a uma mulher, que amou, amava e ainda ama, mas que Deus levou em dois mil e quatro, numa viagem a Angola sem retorno.
Rute completava dezasseis anos apenas em Novembro desse mesmo ano.
Hoje, entendo o desvaire do meu amigo. Crescem depressa demais. As bonecas são substituídas por sapatos de salto acrobático, batom e rímel. Os vestidos, por curtas saias, as blusas, por tops de rigorosos decotes.

“Sabes, eu na pior das hipóteses diria que ela tinha vinte anos.”

Como tu, Rute, muitas meninas semelhantes tentam parecer aquilo que não são. Porque abdicam de brincar? Com que motivo desafiam o percurso do tempo?
Tal como escreveu Philip Chesterfield numa carta a seu filho, “quem tem pressa demonstra que aquilo que está a fazer é demasiado grande para si.”

Eu por mim, concordo com o diplomata e escritor Britânico, e ainda sonho e procedo como uma criança castigada por ter crescido.

Texto: JC

Imagem Google

3 comentários:

Filipinha disse...

Ao ler os seus textos percebi o seu comentário que desde já agradeço.
Fiquei com curiosidade de ler o Livro. Vou comprar.

Maria Luís disse...

Pois...dou por mim sentada numa esplanada e a ouvir a conversa da mesa do lado. Mesmo que não queira ouvir, sou obrigada a isso...os décibeis são de um valor tão elevado que nem que tapasse os ouvidos com os dedos eu deixaria de ouvir...
Dou por mim a tentar descodificar aquela "linguagem" dita cool...as palavras...os tons...meu Deus...Camões deve estar às voltas na tumba...
Consigo finalmente encontrar um ponto perceptível daquela conversa. Os palavrões são tantos que já nem perco tempo a identificá-los...
As idades não variavam muito também...entre os 12 e os 15...
Sabes o que me arrepiou mais? Eu conhecia uma daquelas garotas...ao pé dos pais não parte um prato.
É aflitivo pensar que serão estes jovens os adultos de amanhã...

Como sempre, é um prazer lêr-te. Vim matar saudades.
Beijo

Filipinha disse...

JC,

Muito obrigada pelo seu comentário e pela oferta.
Quero muito ler. Sou uma devoradora de livros. Tenho uma mesa de cabeceira que mais parece uma Biblioteca... Tem apenas um candeeiro, água, uma moldura muito pequenina e uma pilha de livros!
Estava a tentar comprar online neste site: http://www.wook.pt/ficha/ano-louco/a/id/189263 mas se me diz que já não há, aceito a oferta com muito gosto.
Como compreendo quando escreve "Eu não vivo dos livros, mas sim para os livros".
E para quando uma 2.ª edição?

Filipa M.