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domingo, 4 de outubro de 2009

Amor aluado


A noite passada, fui visitado pela incómoda e pedante insónia.
Pensei no que melhor pode existir, o amor. Embora nunca o tenha encarado de frente, olhos nos olhos, ele sente-se e refolha o nosso coração inundando-o umas vezes de loucura, outras de tristeza.
Mas amor só existe para alguns. Tu, mesmo com todas as tuas recordações, fazes parte daqueles a quem não foi dado o amor.
Tu e tu, muitos milhões de outros. Tal como as enormes multidões deste planeta, que obedecem a reflexos condicionados.
Todos alienados pela religião, pela política, pela imprensa, pela televisão, pelo cinema, pela literatura, a boa e a má, que miam nos telhados, a cada minuto a cada segundo, o amor, sempre o amor.
Não há amor, para todos esses desprovidos, condicionados e que vivem redondamente enganados.
Para esses que só tentam obedecer ao instinto reprodutor, existe um só terror comum, o medo da solidão.
A dois partilha-se melhor o peso do isolamento. Então, não importa quem, não importa o quê, tudo menos a sensação de angústia. É a isso que se chama amor. O medo da angústia. O terror de viver só, no lado escuro da lua.
Apenas os eleitos, podem construir castelos inacessíveis. Os outros constroem cabanas, que são levadas pelo vento, que o tempo gasta e estraga. Para estes não existe amor, apenas amores mortos, embalsamados, que dão, a grande distância a ilusão da vida.
O verdadeiro é sempre trágico e doentio. É o que viviam Tristão e Isolda, com a espada no centro do leito. É o que perseguia D. Quixote nas planícies da Mancha, na caça à sombra, essa busca exaustiva e raramente triunfante.
Finalmente, o vento do sul vence o vento do norte. Chove e a paisagem está desbotada. Painéis de bruma escondem o horizonte.
Na praia, algumas rochas são fustigadas pelo mar.
Preciso trabalhar. Para começar, terminar o prólogo das páginas que ando a escrever.
Preparo um chá de menta. Acendo o rádio. Falam do Vaticano e do novo papa. Eu pessoalmente admirava o João Paulo II. Eu escuto, mas não oiço. Depois, insiste numa marca de aperitivos. Tudo isso se afoga numa música dos Queen, que cantam “The show must go on”.
De facto o espectáculo tem de continuar.
Se encararmos a vida como um espectáculo esta deverá continuar, tentando dar-lhe um final feliz, como a maioria das representações.
Penso em Regina a minha primeira mulher. Olhos castanhos esverdeados. Era louca, dessa loucura organizada das mulheres que não têm nada para fazer, senão inventar uma loucura para se distrair. Adorava, a psicanalise.
Num dos meus livros, fiz o retrato a cores e de corpo inteiro de Regina e dos seus obtusos amigos e essa foi uma das razões do nosso divórcio.
No rádio, e na vida, Freddy morreu. Regina talvez também tenha morrido; há cinco anos que não tenho notícias dela.


Texto: In "O lado escuro da lua" (Não editado)
Imagem: Google

4 comentários:

continuando assim... disse...

ninguém consegue amar se não tiver sido amado um dia...

bj
teresa

milhita disse...

Companheiro de esboços de alma, é assim que te sinto, enquanto leio.
O alcance das palavras, transportou-me ao mais fundo de mim, a um entendimento que vejo desentendido nas palavras de tanta gente.
Obrigada
Um abraço

Cirrus disse...

Meu caro, um grande texto que merece a nossa reflexão. Já vi que aqui o blog está bem "artilhado"!!

Se não levares a mal, vou linkar o teu blog, já que é floydiano e parece-me muito bom. Voltarei para apreciar com mais tempo.

Tenho lá linkado o Cymbaline, não sei se já ouviste falar, mas podes dar uma espreitadela. Tem coisas muito boas que te agradarão.

Obrigado pela visita!!

Carla disse...

Olá Sonhador, passe no meu blog. Espera-o um desafio.
Bjs