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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

No trilho da memória


Fui traído pela minha imutável apatia, e atraiçoado pelo sono. Com água numa simples garrafa afastei todas as almas deste e do outro mundo. Bastava-me a companhia do silêncio e da garrafa de água para me saciar a sede do invariável.
Percorri a estrada problemática e sinuosa do pensamento.
Durante o trajecto, não vislumbrei cruzamentos nem paragens obrigatórias. Pelo menos não vi.
Senti latejar o meu cérebro. As têmporas pareciam um tambor numa parada militar.
Estacionei o carro. Apaguei os faróis. A luz transformada em nostalgia.
O espelho retrovisor lado a lado com a solidão. De súbito acendi o brilho, sem rasgar a sombra, solitária e antiquíssima e calquei de novo o asfalto negro do pensamento.
Pela janela, observava a marcha veloz da paisagem, de seguida como embriagado fitei a inerte e poeirenta pupila da lua.
A boca não falava: a boca escutava metástases de omnívora iluminação.
De forma maquinal desci o vidro da janela e sob a sombra dos olhos deixei penetrar a noite como um corpo desenhado na álea dos ossos.
Afinal é nas colinas acessíveis e tardias que o mundo envelhece.
Senti a memória do sangue do céu-da-boca despovoada da fala, o silêncio libertado.
Deslizei para o espasmo factício do corpo enluarado, cuja morfologia desentendo.
Palpo o calor branco, o calor frio. O calor branco do calor do frio da terra batida.
O corpo esgueira-se do mercúrio trinta e oito pontos dois, e sobe: poalha lunar e mudez esclarecedora.
Doía-me todo o corpo. Naquele momento, a dor cingia-se apenas num furo em cuja abertura assoma uma formiga construtora, de forma a cismar a cigarra da dor no seu eterno e pobre canto, apenas para certificar-se da sua construção, pensei.
Sem mover um dedo, sem remorder a implacável solidão, nem uma torção esbocei, nenhuma entorse na ignição. Apenas o mutismo como que esperando alguém, um alguém feito de tinta permanente, que me pegasse na mão, que me aprumasse o céu nas minhas garras, afagando-o ali, no meu covil.
Cai-me o corpo nas mãos. De certo é a lua a transpor a escuridão da morte, a virar a página sob uma nuvem movente. Dói a dor, na sua ameaça.
Não sei se te perdi, ou se tu me perdeste. Ou, se acaso, ambos nos perdemos?
Ou na realidade, nunca nos encontrámos!
Talvez viva a doce ilusão do milho rei, na cor diferente, do bando perdido de pessoas sóbrias.

2 comentários:

Cirrus disse...

Grande texto!!

Rosy disse...

bem, que palavras tao fortes..
que fazem um texto do seu mais intimo SER e seus pensamentos soltos.

que assim continue sua viagem,
encontrando o calor de uma fogueira esquecida, e que acalente assim sua alma perdida pelo asfalto.

boa continuaçao
obrigada pelas suas visitas.
beijinhos, rosy :)