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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Ensaio sobre o suicídio

«Depois, também sofri muito de amor e o sofrimento por amor é um sofrimento físico. Daniel falava-me de um dos seus pacientes adolescentes que tinha uma depressão muito grande e o rapaz dizia-lhe: “Olhe, gostaria de ter danificado um órgão para que me doesse só esse órgão, porque com a depressão dói tudo.” É assim o sofrimento por amor, dói tudo. É horrível. Esse foi um conhecimento da dor muito, muito grande».

[Conversas de António Lobo Antunes - Maria Luisa Blanco]


Existem tantas pontes, que por vezes fico parado a olhar para cada uma delas de olhos arregalados, às diversas possibilidades, e fico errante a pensar em cada uma delas. Fundamental é que nos chamem de longe para um, ou para o outro lado, alertando-nos para o labirinto inventado. O pior de tudo é que ninguém me evocou.
Não sei qual será a decisão que Ele irá ter comigo. Eventualmente não me permitirá pegar de novo na caixa rosa, ou poderá trocar a cor da caixa enganando-me, tal como os outros o fazem, e tal como eu me tenho enganado a mim próprio.






A minha vida está estraçalhada como as nuvens baixas que são empurradas pelos ventos fortes do inverno. Não é possível ainda enxergar ao longe, mas creio que não há muito que fazer, a não ser seguir em frente.
O que gostava era poder avançar no trilho da vida com uma das mãos protegendo os olhos, e a outra, agarrada aos amigos.
Até está um dia bonito: chuva fina, nuvens, ar de Outono e um passarinho que implica com alguma coisa invisível ali adiante do fio de alta tensão.
A minha mente vagueia freneticamente pelos meandros sujos e estreitos corredores da depressão, já há algum tempo.
A noite serve de albergue à minha pobre alma. No escuro vejo a realidade. Na negrura da noite reconheço que tudo findou.
Fui feliz, fui Homem, fui amado, amei e amo alguém que ainda não me conhece. Alguém que me confunde, inebriada por embustes da destruição.
Queria ter conseguido explicar-te por gestos virtuosos que não são apenas só os ratos que vagueiam nos túneis escuros, onde o cheiro nauseabundo mostra a decadência que somos.
A saudade inunda-me de dor. Porque mudou, o que mudou?
Quem te fez alterar a doçura do olhar e trocá-la pelo azedume do confronto.
Porque me abates por constrangimento de uma inquisição de uma máscara do degredo.
Sinto-me esgotado, nauseado, fragilizado e farto desta azáfama que acompanha a realidade dos dias, sempre repetitivos, exaustivamente vazios.
Estou exausto pela briga de palavras sem fim, que destruíram o que de belo existia.
Agarras-te aos meus parcos cabelos e segues viagem comigo?
Aqui na terra nada tem sentido!
A única solidariedade que se recebe dos outros é ignorância e o desprezo. E a vida é tão curta e célere. Porquê tanto amor desfeito em mágoa?
Quem sabe se encontraríamos a felicidade, o tal amor que apregoas, que escreves e que revelas com tanto enleio.
Mas, apenas as moscas que me bebem as lágrimas me fazem sentir que ainda tenho uma réstia de vida.
A embalagem era extremamente apelativa. Não sei se era a cor rosada que emanava e me feria os olhos esbugalhados por mais uma noite de insónia, ou se o rótulo meio desfeito onde apenas sobressaia umas letras desfocadas onde se conseguia ler, “Manter fora do alcance de crianças”. Estava ali à minha disposição; em cima da mesinha de cabeceira. Era apenas uma caixinha que ela usava para ter à mão os comprimidos que a faziam dormir. Nunca liguei qualquer importância ao valor daquela caixinha e, no entanto, ela continha o passaporte para uma viagem sem retorno, apenas de ida.
Irei levar algumas rosas, alecrim, para que o seu perfume e o sentido da Primavera perdurem.
É lá que me quero refugiar.
Nunca tinha pensado nisso, excepto aquela noite. Uma noite em que acabara de chegar de mais um dia de trabalhos forçados. Comi uma maça para poder ingerir um bom pedaço de álcool para me aquecer a alma tão fria e tão dormente que já nem a sentia. E eu que nem prezo álcool.
Também, para que queria eu uma alma? Que é que ela me dá ou me faz?
Julgo que é daqueles dias, em que não devia ter nascido!
A caixinha rosa continuava ali. Quantos comprimidos teria ela deixado?
A minha mão direita estendeu-se tremulamente para aquela caixinha tão apelativa e consoladora pelo imaginário que já me estava a provocar.
Não custaria nada e dormiria para sempre; tão bom. Era disso que eu estava a precisar ou seria de mais um pouco de tinto?
Estava só. Levantei-me e fui ver a panóplia de garrafas que tinha no bar em perfeito alinhamento, porque nunca tinha desfeito a parada.
Mas para tomar os comprimidos eu precisava de beber alguma coisa e essa coisa estava também ali à mão. Peguei numa ao acaso, afinal tudo me sabia a fel, tal como a vida. Mirei-a de alto a baixo e verifiquei que já tinha sido aberta. Talvez no século anterior. Época em que ainda alguns confrades apareciam cá por casa.
Teria ainda algum líquido? O suficiente para engolir os comprimidos? Já não tinha forças para me levantar novamente e ir buscar outra garrafa.
A caixinha rosa choque continuava ali e a minha mão já estava em cima dela.
Senti-lhe a textura sob os meus trémulos dedos e senti-a fria.
Se me agarrar com a força necessária a essa caixa rosa ficarei lá em cima, sim… onde o horizonte se confunde com o rendilhado das nuvens que parecem fugir de algum sarilho também.
Um arrepio percorreu-me a espinha; ou teria sido outro tipo de arrepio? Não sei quanto tempo estive com aquela caixinha na mão. Não sei quanto tempo demorei a tomar uma decisão. Não sei quanto tempo a olhei com um olhar turvo e abstracto.
Não sei por que razão, não lhe peguei com a decisão com que me propusera.
Dei por mim a olhar para aquele objecto sem saber para que é que servia e naquele momento, apenas me apeteceu dormir.
Afinal, tão perto do derradeiro sono; tão desejado; ali tão à mão.
Reparei então que estava deitado sobre o lugar dela com o braço direito estendido para a mesinha de cabeceira segurando a caixinha rosa que continha o passaporte para a derradeira viagem. Tantas vezes assim estivemos.
Quantas vezes senti o seu calor, o seu respirar, o seu arfar. Tantas vezes assim fiquei depois de fazer amor. E, neste estúpido momento, repetia aquela posição estendendo a minha mão para uma viagem. Não consegui conter o choro; não consegui aguentar as lágrimas; não consegui segurar a caixinha rosa. Não consegui partir.
Restou-me a certeza que as noites serão de um frio impotente. Que os dias serão certamente mais despidos de roupagem florida e cobertos de mágoa, dor e muita lágrima.
Se é para enlouquecer, quero dar em louco nas nuvens!

Nota: Por motivos pessoais terei de fazer uma pausa nos meus blogues.

Regressarei assim que me for possível.

A quem me tem acompanhado o meu obrigado.

4 comentários:

Laura disse...

Acho que todos, numa ou noutra altura, desejamos simplesmente desaparecer. Outras vezes, queremos tão somente pôr fim à dor, àquela dor que, como diz Lobo Antunes, dói no corpo todo. Os que sobrevivem a esses momentos - a maior parte - aprendem, como diz Drummond no seu poema "Definitivo" que

"o desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional."

Um bem-haja para si.
Laura

Rosy disse...

Que tristeza na alma..
Nota-se a presente solidao... mas tambem a perda de algo muito importante encoberta nestas frases.
Espero assim, que recupere o animo e a força que possui..
Nao desista de viver, de escrever, de dar aquilo que é e sabe fazer.
Espero que volte o mais breve a seus blogues... fico com pena de sua ausencia, mas entendo que seja o melhor para si neste momento.

Um muito obrigada pelas palavras que me transmitiu no comentário ao meu blog... é sempre bom quando recebo um comentario seu e da sua amiga Luz, entusiasmante para mim.

Espero pela sua volta muito brevemente...
beijinhos grandes :D

milhita disse...

Volta em breve amigo de calma e desassossego.

continuando assim... disse...

até já , e espero que voltas ..:)

é assim a dor do amor , exactamente assim ...

bj
teresa