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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Desejo



Devia deixar de fumar, mas no entanto...
Traguei a noite ao mesmo ritmo que ia deitando abaixo a lata de Coca-Cola que agora serve de cinzeiro.
A roupa está disposta pelo quarto ao abandono do meu corpo e do de Paula.
Esta dorme a meu lado e a certa altura da noite, penso que a respiração dela me faz lembrar suaves murmúrios de anjos… (melhor: colas na tua mente o pulsar ritmado que sai pelas suas narinas à tua ideia de anjos repousando sobre uma nuvem, qual nenúfar, no céu).
Mas, logo concluí que isso era efeito do sono que surgia quase à mesma velocidade que queimava os cigarros contra os pulmões.
Paula tem o cabelo encaracolado e o rosto está disposto sobre a brancura da almofada.
Os seios cheios, fartos mesmo, escondem-se na camisola que não alberga o tamanho dos mesmos e não há palavras, por mais poéticas que sejam, que encubram os pensamentos que por momentos me ocorrem.
Acordado, agora medito sobre o inevitável breve final do mundo. Imagino já o estrondo que ecoará na minha cabeça e fumo.
Fumo muito e sempre. Fumo no carro, fumo quando chego a casa, antes da refeição, durante e depois. Fumo na casa de banho. Fumo enquanto faço amor.
Paula nunca aguentou o cheiro do fumo. Sei, mas insisto em tirar mais um cigarro do maço e em acendê-lo. Paula dorme.
Levanto-me e agarrando na lata de Coca-Cola que agora serve de cinzeiro, acerco-me da janela. Da janela vejo o mar. Enquanto observo os miúdos que desafiam as ondas a rebentar sobre a areia, Paula acorda.
Disse, bom dia, caminhou na direcção da porta e entre o caminho da cama e da casa de banho ainda tem tempo de completar, acaba com a merda do fumo, que estás a empestar o quarto.
Paula demora-se na casa de banho; oiço o som da urina projectar-se na água da sanita.
Puxa o autoclismo, o papel higiénico rola por duas vezes, a torneira abre-se, a água jorra contra o azulejo, a torneira fecha-se.
Paula descoberta ao mundo, atravessa a porta da casa de banho que dá acesso ao quarto e diz:
- Já nem te barbeias.
Eu faço-me de mudo. Continuo a fumar junto à janela e Paula diz:
- Veste pelo menos a camisola, está muito frio.
Mas eu devolvo a ordem com a pergunta:
- Quando foi que tudo aconteceu?
- Quê? Pergunta ela.
- Quando foi que tudo aconteceu, repito, tudo isto?
- Tudo, mas tudo, o quê?
- Isto de estarmos aqui, mas não estarmos: tu seres uma chata, e eu já não aguentar nada disto; respondo de uma maneira seca.
Paula diz que não sabe, mas adianta que talvez tudo tenha acontecido na altura em que me deixou que lhe tocasse a intimidade com os dedos com cheiro a cerveja e decidiu deixar aquele ex-marido banana para fugir comigo, só porque eu tinha um tom de voz que fazia lembrar o António Banderas e lhe prometera comprar uma ilha algures no Mediterrâneo só para os dois.

Ela diz que foi isso, que foi isso… que aconteceu.


In: Ano Louco

10 comentários:

Sônia Silvino disse...

Sonhador!
ANTES DE DORMIR E SONHAR, VIM TE VISITAR!
Bjkas!

Malu disse...

Meu querido,
Teus comentários sempre deixam-me desarrumada, pois perto dos teus textos sou aprendiz.
Tu és full-time quanto a mim? apenas part-time e, ultimamente não faço overtime... rsrsrsrs
Beijinhos em teu coração

Sonhadora disse...

Meu querido Sonhador

belissimo texto...gostei muito

Beijinhos
Sonhadora

Ricardo Calmon disse...

Desejar, é perceber que tu ,escriba e poeta és ,alem mares ,és VIDAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
vamos cmpaua eletronicamenteeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee???????????????????????????????????????????????????????????????
Vidaaaaaaaaaaaaa Vivaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

Menina do cantinho disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Malu disse...

Ah! Menino, que belas palavras deixou por lá.
Nãoposso deixar de observar as músicas que encontro por aqui porque sou melomaníaca. Ouvir Supertramp com os belos solos de sax do Roger Hudgson fez me lembrar de bons tempos.
Além das palavras a música também nos transporta, nos transcende às vastidões do Universo.
Beijinhos

ISA disse...

Afinal amigo fuma dessa maneira ou apenas foi um texto interessante que acabei de ler? Um diário... eu diria... muito bonito.

voltarei
Isa

Lita disse...

Olá,

Obrigado pelo silêncio que me deixaste, acompanhado de palavras tão bonitas sobre o meu espaço.
O meu obrigado, sincero!
Gostei muito deste texto.
Numa altura da minha vida questionei-me eu própria de uma situação identica, e cheguei á conclusão que a magia tinha esvanecido, a fantasia tinha se esfumado, e a realidade é outra, foi isso que aconteceu...
Um beijo
Lita

continuando assim... disse...

passei rápido ´so para dizer...

( o "continuando assim", já não continua assim... Hoje, Estilhaçamos Ampulhetas ... http://www.ampulhetasestilhacadas.blogspot.com )

bj
T.